A dor não esperou amanhecer.
Veio em ondas, fortes o suficiente para fazê-la dobrar o corpo sobre a mesa da cozinha, a respiração curta, os dedos cravados na madeira áspera.
— Calma… por favor… — você sussurrou, sentindo o coração disparar.
O medo tomou forma.
Você sabia reconhecer aquele tipo de dor agora. Não era apenas cansaço. Não era apenas o frio.
Era perigo.
A mulher da loja de tecidos foi quem a encontrou minutos depois, pálida, trêmula, lutando para permanecer de pé.
— Você precisa de ajuda agora! — disse ela, envolvendo-a com firmeza.
— Não… eu não posso… — você tentou protestar.
— Você n******e é ficar sozinha.
A mulher saiu às pressas. E você soube, no fundo do peito, que o destino havia decidido por você.
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Theodor estava em reunião quando foi interrompido.
— Meu senhor — disse Heinrich, entrando sem cerimônia. — É urgente.
— O que houve?
— Ela.
Uma pausa curta.
— Está doente. Muito m*l.
O mundo de Theodor parou.
— Onde?
— Na cidade baixa.
Ele não disse mais nada. Apenas se levantou, o rosto endurecido pela decisão que não permitiria volta.
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Quando abriu a porta da casa simples, encontrou você deitada, o rosto pálido, os lábios entreabertos em respirações curtas.
— Meu Deus… — ele murmurou, aproximando-se.
Você abriu os olhos ao sentir a presença dele.
— Você não deveria estar aqui… — sussurrou.
— Não me mande embora agora.
Ele ajoelhou ao seu lado, segurando sua mão com cuidado, como se tivesse medo de quebrá-la.
— Está doendo muito?
— Um pouco… — você mentiu.
Ele percebeu.
— Chamei um médico.
— Não! — sua voz saiu fraca, mas firme. — Ninguém.
— Você n******e decidir isso sozinha.
Você respirou fundo, as lágrimas escorrendo.
— Eu já decidi muita coisa sozinha…
O silêncio se estendeu entre vocês, pesado, até que você levou a mão ao ventre de forma instintiva.
Os olhos dele seguiram o gesto.
E então tudo se encaixou.
— Não… — ele sussurrou, como se a palavra doesse. — Isso não é possível…
Você virou o rosto, incapaz de encará-lo.
— Quanto tempo? — perguntou ele, a voz rouca.
Você fechou os olhos.
— Desde antes de ir embora.
O coração dele bateu forte demais.
— Você estava grávida… quando eu disse que estava livre.
Você assentiu em silêncio.
Ele levou a mão ao rosto, como se o mundo tivesse ruído.
— Por que você não me disse?
— Porque você nunca me perguntou.
Sua voz quebrou.
— Porque eu não queria ouvir indiferença outra vez.
— Ele… — Theodor engoliu em seco. — É meu?
Você abriu os olhos, finalmente encarando-o.
— Só poderia ser.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Não era vazio. Era cheio demais.
Ele colocou a mão sobre o ventre com extremo cuidado, como se pedisse permissão.
— Posso…?
Você hesitou… e então assentiu.
Quando a mão dele tocou sua pele, algo mudou no ar.
— Eu vou ser pai… — murmurou, atônito.
Uma lágrima escapou dos olhos dele.
— Eu te expulsei… e você carregava meu filho.
— Não me expulse. — você sussurrou. — Só… não me machuque mais.
Ele se aproximou, a testa tocando a sua.
— Eu falhei com você.
A voz dele tremeu.
— E falhei com ele.
— O amor n******e nascer da culpa — você disse, com dor. — Eu não quero piedade.
— Não é piedade.
Ele segurou seu rosto com delicadeza.
— É medo de perder o que eu quase destruí.
As lágrimas caíram dos dois.
— Eu não sei amar direito — ele confessou. — Mas eu quero aprender. Por vocês.
Você fechou os olhos, dividida.
— E se for tarde demais?
Ele respirou fundo.
— Então passarei o resto da vida tentando merecer vocês.
Do lado de fora, a neve começou a cair lentamente.
Não como um presságio de frio.
Mas como um recomeço.