O retorno ao castelo não foi silencioso.
Quando Theodor decidiu levá-la de volta ao Norte, envolta em mantos grossos e protegida do frio e dos olhares, ele sabia: não era apenas uma decisão pessoal. Era uma declaração de guerra à própria corte.
Você atravessou os portões com o coração acelerado, sentindo o peso daquelas muralhas que um dia chamara de lar — e depois, de prisão.
— Eles vão odiar isso — você murmurou, a mão apoiada no ventre já visivelmente arredondado.
Theodor caminhava ao seu lado, firme, mas atento a cada passo seu.
— Que odeiem.
Baixou a voz.
— Desta vez, eu fico.
Você o olhou, surpresa.
— Não diga coisas que n******e garantir.
Ele parou no meio do pátio, ignorando os olhares curiosos dos servos.
— Eu já te perdi uma vez.
Segurou sua mão.
— Não vou repetir o erro.
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A primeira reunião da corte foi tudo o que você temia.
Os nobres ocupavam seus lugares, os olhares cortantes, os murmúrios venenosos. Quando você entrou, o salão silenciou.
— Isso é inaceitável! — exclamou Lorde Wulfric, levantando-se. — Uma mulher repudiada retorna grávida e espera ser aceita?
Seu corpo enrijeceu.
Theodor avançou um passo.
— Sente-se.
A voz dele ecoou firme.
— Ela não é repudiada. É a mãe do meu herdeiro.
O salão explodiu em vozes.
— Herdeiro?!
— Sem anúncio oficial?
— Isso enfraquece alianças!
Você sentiu o ar faltar.
— Basta! — Theodor ergueu a mão. — Meu filho não é um erro político.
— Mas é um risco! — insistiu Wulfric. — Há casas que não aceitarão isso. Há quem queira essa criança morta antes mesmo de nascer.
O silêncio caiu como uma lâmina.
Theodor virou-se lentamente para você.
— Ninguém tocará nela.
O olhar dele escureceu.
— Nem no meu filho.
Naquela noite, a guarda foi dobrada.
E as ameaças começaram.
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Cartas anônimas surgiram. Avisos velados. Promessas de sangue.
Você passou a dormir pouco, acordando assustada a cada ruído. E foi em uma dessas madrugadas que Theodor a encontrou sentada na cama, os olhos marejados.
— Eles nunca vão nos deixar em paz — você disse, a voz fraca. — Talvez eu não devesse ter voltado.
Ele sentou ao seu lado, com cuidado.
— Olhe para mim.
Você obedeceu.
— Eu passei a vida inteira protegendo terras, títulos e poder.
Respirou fundo.
— E falhei em proteger o que importava.
Ele pousou a mão sobre o ventre.
— Mas não vou falhar agora.
Você chorou em silêncio, encostando a testa no ombro dele.
— Eu ainda tenho medo de confiar.
— Eu sei.
Ele não a pressionou.
— Confie um dia de cada vez.
E pela primeira vez… você acreditou que isso poderia ser possível.
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O caos veio antes do esperado.
Era madrugada quando a dor começou — violenta, urgente, impossível de ignorar.
— Theodor… — você chamou, ofegante. — Está acontecendo.
Ele despertou no mesmo instante.
— Chame o médico! — ordenou aos guardas. — Agora!
O castelo virou um formigueiro em pânico.
No meio da confusão, um grito ecoou do pátio. O som de metal contra metal. Um ataque.
— Eles estão tentando entrar! — gritou um soldado.
Theodor segurou sua mão com força.
— Olhe para mim.
A voz dele tremia.
— Você não vai morrer. Ouviu?
— E se— — a dor a interrompeu.
— Não. — ele encostou a testa na sua. — Eu não vou perder vocês.
Do lado de fora, espadas se chocavam. Gritos. Caos.
Dentro do quarto, você gritava com a força de quem lutava pela própria vida.
— Empurre! — ordenou a parteira.
Você sentiu o mundo se rasgar… e então—
Um choro.
Forte. Vivo.
— É um menino — anunciou a parteira, sorrindo entre lágrimas.
Theodor caiu de joelhos ao lado da cama.
— Meu filho… — a voz dele falhou.
Colocaram o bebê em seus braços.
Você olhou para aquela pequena vida, exausta, emocionada.
— Ele tem seus olhos — você sussurrou.
Theodor riu e chorou ao mesmo tempo.
— E sua força.
Do lado de fora, o ataque foi contido.
Dentro daquele quarto, algo foi finalmente reconstruído.
Ele se inclinou e beijou sua testa.
— Eu juro.
A voz firme, solene.
— Nenhuma coroa será mais importante do que vocês.
Você fechou os olhos, sentindo o bebê respirar contra o peito.
O inverno, enfim, começava a ceder.