O castelo ainda cheirava a fumaça e sangue seco quando o sino da torre soou, chamando a corte.
Você estava sentada na cama, o corpo exausto, o filho adormecido em seus braços. A pequena vida respirava tranquila, alheia ao caos que quase o roubara do mundo.
Theodor observava a cena em silêncio.
Nunca fora um homem de fé… mas ali, ajoelhado diante de vocês dois, ele acreditou em algo maior do que poder.
— Eles vão tentar tirar isso de nós — você disse em voz baixa. — O título. O direito. Ele.
Theodor ergueu o olhar, os olhos decididos.
— Então vão ter que passar por mim.
Ele se inclinou e beijou a testa do bebê.
— Ninguém ousa tocar no que é meu.
⸻
O salão da corte estava lotado.
Os nobres murmuravam, inquietos, quando Theodor entrou carregando o filho nos braços. Você vinha logo atrás, amparada, mas ereta.
O silêncio foi absoluto.
— O que significa isso? — perguntou Lorde Wulfric, levantando-se lentamente.
Theodor caminhou até o centro do salão.
— Significa que o Norte tem um herdeiro.
— Um bastardo! — alguém gritou.
O som de metal ecoou quando Theodor desembainhou a espada e a cravou no chão de pedra.
— Mais uma palavra…
O olhar dele percorreu o salão.
— …e você sai daqui sem língua.
Ninguém ousou falar.
— Este é meu filho.
A voz firme.
— Gerado dentro de um casamento legítimo. n****o apenas pela minha covardia.
Você sentiu o coração falhar.
Ele se virou para você.
— Eu falhei com minha esposa.
Respirou fundo.
— Mas não vou falhar com meu sangue.
— A lei exige um reconhecimento formal — disse Wulfric, tenso.
— Então aqui está.
Theodor retirou o anel do próprio dedo e o colocou na mesa do conselho.
— Diante da corte e dos deuses, eu reconheço este menino como meu herdeiro legítimo.
Silêncio.
— E declaro que qualquer ameaça contra ele é traição ao ducado.
Um murmúrio atravessou o salão.
— E quanto à tentativa de assassinato? — perguntou um nobre. — Quem ousaria atacar o próprio herdeiro do Norte?
Theodor virou-se lentamente.
— Alguém que lucraria com sua morte.
Ele fez um gesto.
Os guardas arrastaram um homem algemado para o centro do salão.
— Lorde Wulfric.
O choque foi imediato.
— Isso é uma mentira! — Wulfric gritou.
— Cartas seladas.
Theodor jogou pergaminhos aos pés dele.
— Pagamentos. Ordens. Datas.
Você sentiu o estômago embrulhar.
— Você queria o ducado sem sucessor.
A voz de Theodor era fria como o Norte.
— E estava disposto a m***r uma criança para isso.
Wulfric caiu de joelhos.
— Foi política! — gritou. — Nada pessoal!
O salão gelou.
— Errado.
Theodor se aproximou.
— Foi pessoal no momento em que você ameaçou minha família.
— Qual é a sentença? — perguntou o conselheiro Heinrich.
Theodor não hesitou.
— Morte ao amanhecer.
O traidor foi levado.
E o Norte respirou.
⸻
Naquela noite, você estava novamente nos aposentos quando Theodor entrou em silêncio. Ele parecia diferente — mais leve, apesar do peso da decisão.
— Você não precisava fazer tudo isso — você disse, com a voz suave.
— Eu precisava.
Ele sentou-se ao seu lado.
— Passei tempo demais vivendo como se amar fosse fraqueza.
Você o observou em silêncio.
— Eu não sei se sei ser duquesa outra vez.
Ele sorriu de leve.
— Então seja apenas você.
Theodor tocou sua mão.
— Eu não prometo perfeição.
Os olhos dele encontraram os seus.
— Mas prometo presença. Escolha. Verdade.
Você sentiu as lágrimas virem.
— Eu ainda tenho medo.
— Eu também.
Ele entrelaçou os dedos nos seus.
— Mas, desta vez, enfrentamos juntos.
Você encostou a testa na dele.
— Não por dever.
Sua voz tremia.
— Mas porque queremos.
Ele a beijou — não com urgência, nem desespero.
Mas com promessa.
O bebê se mexeu entre vocês.
Theodor sorriu.
— Ele mudou tudo.
— Ele nos salvou — você respondeu.
Lá fora, o inverno começava a ceder.
E, pela primeira vez, o Norte não era feito apenas de gelo.
Era feito de amor escolhido.