Capítulo VIII — Onde o Norte Aprende a Amar

593 Words
O castelo despertava lentamente naquela manhã. A luz pálida do inverno atravessava as janelas altas quando Theodor acordou com um som diferente do habitual. Não eram passos de guardas, nem o vento batendo contra as muralhas. Era um choro baixo. Frágil. Vivo. Ele se ergueu de imediato. — Já estou indo… — murmurou, ainda rouco de sono, antes mesmo que você abrisse os olhos. Você o observou em silêncio enquanto ele se aproximava do berço improvisado ao lado da cama. O menino se remexia, o rosto vermelho, os punhos fechados. — Ei… — Theodor falou baixo, quase como se temesse assustá-lo. — Está tudo bem. O pai está aqui. Pai. A palavra ainda parecia estranha em sua boca. Ele o pegou com cuidado excessivo, como se segurasse algo sagrado. O choro cessou pouco a pouco, substituído por um som suave de respiração. — Ele reconhece você — você disse, com um sorriso cansado. Theodor olhou para o filho, fascinado. — Ele confia em mim… A voz embargou. — Mesmo sem saber quem eu fui. Você se sentou devagar na cama. — Você não é mais aquele homem. Ele se aproximou, sentando-se ao seu lado, o bebê aninhado contra o peito. — Passei a vida acreditando que força era silêncio. Olhou para o menino. — Mas ele me ensinou que força é ficar. Você encostou a mão sobre o braço dele. — E eu? — perguntou, com suavidade. Theodor levantou o olhar. — Você me ensinou o mesmo… mesmo quando eu não escutei. ⸻ Dias depois, o salão principal voltou a se encher. Mas desta vez, você entrou sozinha. O murmúrio cessou quando seus passos ecoaram no chão de pedra. Vestia um vestido azul profundo, símbolo do Norte, os cabelos presos com simplicidade, o olhar firme. Você não entrou como esposa. Entrou como Duquesa. Theodor observava do alto do estrado, orgulhoso, mas em silêncio. Aquela decisão era sua. — Senhores e senhoras da corte — você começou, a voz clara. — Durante muito tempo, ocupei este lugar apenas por um contrato. Alguns nobres trocaram olhares. — Fui esposa por dever. Duquesa por nome. Respirou fundo. — Hoje, estou aqui por escolha. Você caminhou alguns passos à frente. — O Norte é uma terra dura. Sobrevive porque aprende a resistir. O olhar percorreu o salão. — E eu sobrevivi. Houve silêncio absoluto. — Meu filho não será criado pelo medo. A voz firme. — E este ducado não será governado pela ameaça. Você pousou a mão sobre o símbolo do Norte. — Sou a Duquesa do Norte. Uma pausa. — Não por casamento. Mas por força. Um a um, os nobres se levantaram. Inclinaram a cabeça. Theodor fechou os olhos por um instante. Aquilo… era amor. ⸻ Naquela noite, ele a encontrou na varanda, envolta em um manto, observando as estrelas. — Você não precisou de mim lá dentro — ele disse, aproximando-se. Você sorriu de leve. — Eu precisei de mim. Ele riu baixo. — E foi extraordinária. Theodor colocou o bebê em seus braços. — Ele dorme quando escuta sua voz. Você embalou o menino, sentindo o peso quente e real daquela vida. — Ele vai crescer sabendo quem somos. Olhou para Theodor. — Com erros. Com escolhas. Com amor. Theodor se aproximou por trás, envolvendo vocês dois. — Eu não prometo um reino perfeito. Beijou sua têmpora. — Mas prometo um lar. Você fechou os olhos, encostando-se nele. — Isso é tudo o que sempre quis. O Norte permanecia frio. Mas dentro daquelas muralhas, o inverno havia aprendido algo novo. A amar.
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