Quando as Máscaras Racham

1240 Words
Quando as Máscaras Racham Henrique não dormia. Virava-se na cama enquanto Clara, ao lado, fingia sono profundo. Os olhos dela estavam diferentes, os sorrisos ensaiados, a distância crescente. Ele conhecia demais aqueles sinais. Na manhã seguinte, em vez de seguir para o escritório, Henrique tomou outro rumo. Pediu a um amigo detetive particular que a seguisse discretamente. Não confiava em boatos, queria provas. Queria a verdade nua, mesmo que o despedaçasse. — Descubra onde ela vai, com quem se encontra — disse, frio, enquanto passava o cartão para pagar. — Não me importa quanto custe. --- Enquanto isso, Clara tentava sobreviver ao peso invisível. O ateliê, o terraço, a biblioteca abandonada… cada lugar guardava lembranças vivas demais para serem apagadas. Mas os olhos de Henrique sobre ela, cada vez mais atentos, tornavam cada gesto perigoso. Dona Lúcia também não dava trégua. — Você anda com a cabeça em outro mundo, filha — disse durante o café. — Esse casamento é a chance de construir sua vida com estabilidade, com respeito. Você não pode jogar tudo fora por ilusões. Clara largou a xícara sobre o pires, trêmula. — Ilusões? — Sim, ilusões. Paixões passam. O que fica é o que você constrói junto a alguém sólido. Clara engoliu em seco. Não respondeu. Mas por dentro queimava. Como dizer à mãe que não queria solidez sem amor? --- Naquela tarde, arriscou encontrar Rafael novamente. Ele a esperava em uma estação de trem desativada, paredes cobertas de grafites, bancos quebrados. — Você parece assustada — disse ele, ao vê-la chegar. — Henrique está diferente… e minha mãe também. Sinto que tudo está desmoronando. Rafael segurou suas mãos, firmes. — Então segure em mim. Clara fechou os olhos, deixando-se levar pelo abraço. Mas, enquanto estava ali, não percebeu que, a alguns metros de distância, uma lente fotográfica capturava cada detalhe. O detetive ajustava a câmera, satisfeito. --- Horas depois, Henrique recebeu as imagens. Clara nos braços de um desconhecido, os beijos roubados, a entrega explícita. O sangue ferveu. Primeiro veio a dor, depois a fúria. Apertou as mãos até os nós dos dedos ficarem brancos. — Então era isso… — murmurou, sozinho, no escritório. Não sabia ainda como reagiria. Mas sabia que não deixaria barato. --- Naquela noite, Clara voltou para casa mais leve por ter visto Rafael, mas sem imaginar que o destino já estava em movimento. Quando encontrou Henrique sentado na sala, em silêncio, olhos fixos nela, um calafrio percorreu sua espinha. Ele sorriu. Mas não era um sorriso de ternura. Era um sorriso que escondia tempestades. — Precisamos conversar — disse. E, naquele instante, Clara soube que as máscaras tinham começado a rachar. Capítulo 10 – Verdades à Flor da Pele A sala estava mergulhada em penumbra. Apenas o abajur de canto lançava sua luz amarelada sobre o rosto de Henrique. Ele não se mexia. O silêncio pesava como um grito contido. Clara pousou a bolsa sobre a mesa de entrada, hesitante. Sentia o ar denso, como se a casa tivesse sido invadida por algo invisível. — Você está em casa cedo — disse, tentando parecer natural. Henrique não respondeu de imediato. Apenas observava, olhos semicerrados, como quem desmonta cada gesto. — Achei que devíamos conversar — disse enfim, voz baixa, firme. Clara engoliu em seco. O coração acelerava, mas decidiu não fugir. Respirou fundo e deu alguns passos até o sofá. — Então vamos conversar. Henrique arqueou uma sobrancelha. — Sobre o quê? Ela sustentou o olhar. Sabia que aquele era o momento. Não havia mais espaço para evasivas. — Sobre nós. Sobre o que está acontecendo entre a gente. Henrique riu, um riso curto, quase sem humor. — Entre “a gente”? Você parece distante, Clara. Não sei se é o trabalho… ou outra coisa. Clara fechou os punhos ao lado do corpo. Aquela insinuação não era nova, mas, dessa vez, não suportaria calar. — Sim, é outra coisa. O silêncio voltou a preencher a sala. Henrique se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Quero ouvir você dizer. Clara respirou fundo. As palavras saíram com dificuldade, mas carregadas de uma força que não sabia possuir. — Eu não amo você, Henrique. Ele piscou, devagar, como se precisasse de tempo para absorver. O riso irônico voltou, mas agora mais amargo. — Não ama…? E só descobriu isso agora, às vésperas do casamento? — Não é de agora. É de sempre. Eu tentei acreditar, tentei me convencer de que estabilidade era o suficiente. Mas não é. Henrique se levantou, caminhando até a janela. Apertava os punhos, respirava fundo, como quem luta contra um impulso. — E então? — perguntou, sem se virar. — Existe outro homem? Clara sentiu o coração disparar, mas não desviou. Aquele era o momento da verdade. — Sim. Henrique virou-se, os olhos em chamas. — Quem? — Alguém que me faz sentir viva. Ele riu de novo, alto desta vez, mas o riso trazia ódio. — Viva? Você chama isso de vida? Se arrastar com um sujeito qualquer, escondida, manchando meu nome, envergonhando sua família? — Não fale dele assim. — A voz de Clara saiu firme, surpreendendo até a si mesma. — Ele me deu o que você nunca deu: verdade. Henrique avançou alguns passos, e Clara sentiu o corpo tremer, mas não recuou. — Você não sabe o que está dizendo — rosnou ele. — Eu lhe dei tudo: segurança, futuro, uma vida estável. — Mas nunca me deu amor — respondeu Clara, lágrimas escorrendo, mas a voz intacta. — E eu não vou mais fingir. Henrique ficou parado, encarando-a. A respiração pesada, os olhos estreitos. Clara via a batalha dentro dele: orgulho ferido, raiva crescente, talvez até dor. — Você não vai destruir tudo o que construí — disse, por fim, num sussurro carregado de veneno. — Esse casamento vai acontecer. Clara balançou a cabeça, firme. — Não. Eu não vou casar com você. O silêncio seguinte foi ensurdecedor. O relógio da parede marcava os segundos, implacável. Henrique deu as costas, caminhando até o bar. Serviu-se de um copo de uísque, as mãos trêmulas. Bebeu de um gole, depois encarou Clara novamente. — Você não faz ideia do que está fazendo. — A voz dele era baixa, mas ameaçadora. — Está jogando sua vida fora por uma aventura barata. Clara sentiu o peito arder. — Chame do que quiser. Mas, pela primeira vez, estou escolhendo por mim. Henrique bateu o copo com força sobre a bancada, o cristal se estilhaçando. Clara estremeceu, mas não recuou. — Você vai se arrepender, Clara. — O olhar dele era gélido, calculista. — Vai descobrir que ninguém desafia Henrique Vasconcelos sem pagar o preço. Clara sentiu o corpo estremecer, mas, no fundo, havia também um fio de alívio. A verdade tinha sido dita. O medo agora era real, mas não havia mais correntes invisíveis a prendê-la. Pegou a bolsa, erguendo o queixo. — Talvez eu pague. Mas, pela primeira vez, vai ser a minha vida. E saiu, batendo a porta atrás de si. --- Na rua, o vento frio cortava o rosto, mas Clara respirava fundo. Estava livre da mentira, ainda que cercada pelo perigo. Enquanto caminhava, o celular vibrou. Uma mensagem de Rafael: “Estou no terraço. Preciso te ver.” Clara fechou os olhos, deixando as lágrimas correrem. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que caminhava em direção à própria verdade — mesmo que o caminho estivesse repleto de sombras.
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