Entre Muros Invisíveis

1115 Words
Entre Muros Invisíveis Clara aprendeu a viver em sobressalto. Cada passo era medido, cada mensagem apagada, cada desculpa ensaiada. O mundo ao redor seguia com a mesma pressa de sempre, mas para ela cada esquina escondia uma escolha impossível. Ainda assim, era incapaz de se afastar. Rafael a esperava em lugares improváveis: o terraço esquecido de um prédio antigo, um mirante pouco conhecido na colina, o estúdio de um amigo que passava semanas fora. Cada encontro era um refúgio roubado, uma pausa no peso da vida. Naquela tarde, encontraram-se em uma biblioteca desativada, um espaço amplo, cheio de poeira e cheiro de papel antigo. Rafael havia conseguido a chave com um conhecido que sonhava transformá-la em centro cultural. — Aqui ninguém nos encontra — disse ele, empurrando a porta pesada. Clara entrou devagar, os olhos percorrendo as prateleiras empoeiradas. Havia algo de sagrado naquele silêncio. — É como se o tempo tivesse parado — murmurou. — Parado só para a gente — completou Rafael, sorrindo. Ele colocou uma música suave no celular, o som ecoando pelas paredes altas. Estenderam um lençol improvisado no chão, entre livros abandonados, e ficaram deitados ali, olhando para o teto rachado. — Às vezes penso que tudo isso é um sonho — disse Clara, virando o rosto para ele. — Que vou acordar e perceber que não existe. Rafael tocou de leve a mão dela. — Então não acorde. O beijo veio em seguida, lento, profundo. A cada toque, Clara sentia a certeza de que estava onde deveria estar. --- Conversaram por horas. Clara contou coisas que nunca dissera a ninguém: os medos de decepcionar a mãe, a sensação de viver uma vida que não lhe pertencia, a dúvida se algum dia teria coragem de escolher por si mesma. Rafael a ouvia em silêncio, os olhos fixos, como se cada palavra fosse preciosa. — Você não precisa me escolher contra ninguém — disse ele, por fim. — Precisa escolher a si mesma. Eu só quero estar onde você é livre. As palavras a emocionaram mais do que esperava. Encostou a cabeça no ombro dele e ficou assim, em paz como há muito não sentia. --- Na saída, já noite, Clara se surpreendeu com o próprio reflexo no vidro da porta. O rosto corado, o brilho nos olhos — não era a mesma mulher que Henrique apresentava aos amigos em jantares sofisticados. Era outra. Era ela mesma. Mas a vertigem voltou quando o celular vibrou. Uma mensagem de Henrique: “Está demorando. Onde você está?” Clara digitou rápido: “Ainda no trabalho, revisando projetos.” Guardou o celular de volta na bolsa, mas o peso da mentira latejava no peito. — Está tudo bem? — perguntou Rafael, atento. Ela respirou fundo, tentando sorrir. — Está. Enquanto eu estiver aqui, está. Rafael a puxou para mais perto. — Então fique mais um pouco. E Clara ficou. Porque, mesmo cercada por muros invisíveis, naquela noite ela escolheu esquecer o mundo. --- No caminho de volta para casa, as ruas pareciam mais estreitas, os olhares dos passantes mais atentos. Clara sentia como se carregasse no rosto o segredo que tentava esconder. Ainda assim, um pensamento ecoava dentro dela, teimoso, insistente: “Eu não posso desistir dele. Não agora. Não nunca.” O amor já não era apenas um refúgio. Era sobrevivência. Capítulo 8 – O Céu Dentro de Nós A noite caía sobre a cidade como um véu bordado de luzes. Clara subiu as escadas estreitas de um prédio antigo, coração acelerado. Rafael a esperava no topo, onde o terraço esquecido abria-se para o horizonte urbano. Quando empurrou a porta de ferro, encontrou-o já lá, deitado sobre uma manta, câmera ao lado, olhando para o céu. — Pensei que não viesse — disse ele, sem se levantar. Clara sorriu, caminhando até ele. — Pensei o mesmo de você. Rafael estendeu a mão, e ela se deitou ao seu lado. O ar estava frio, mas o calor entre os dois era suficiente. A cidade rugia lá embaixo: buzinas, vozes, motores. No entanto, naquele pedaço esquecido de concreto, havia apenas silêncio e estrelas. — Trouxe você aqui porque queria te mostrar algo — disse Rafael, apontando para o céu. — As estrelas quase não se veem da cidade. Mas se esperar o momento certo, se olhar com paciência, elas aparecem. Clara fixou os olhos no escuro profundo até distinguir os pontos brilhando. Sentiu-se pequena e imensa ao mesmo tempo. — É lindo — murmurou. — Como você, quando acha que ninguém está olhando. Ela virou o rosto para ele, tocada. Rafael não falava como quem elogia: falava como quem revela uma verdade. --- O beijo veio suave, como a brisa da noite. Mas logo a suavidade deu lugar à intensidade, como se cada instante fosse o último. Deitados sob o céu aberto, deixaram que o mundo desaparecesse. Rafael traçou caminhos com os dedos no rosto dela, descendo pelo pescoço, como quem memoriza um mapa secreto. Clara se entregou ao toque, ao calor, ao arrepio que a percorria inteira. — Nunca pensei que fosse capaz de sentir algo assim — sussurrou ela, entre beijos. — Porque nunca deixaram você sentir — respondeu ele, segurando-a firme. — Mas agora é só nosso. E foi. Ali, no terraço esquecido, viveram o que jamais poderiam viver à luz do dia. Corpos entrelaçados, respirações misturadas, o coração batendo tão forte que parecia preencher a noite inteira. Clara fechou os olhos, e por um instante acreditou que o mundo tinha sumido. Não havia Henrique, não havia família, não havia culpa. Apenas o amor que crescia entre eles como uma chama impossível de apagar. --- Depois, permaneceram abraçados, olhando o céu. Clara sentia o peito leve, como se tivesse encontrado finalmente o lugar ao qual pertencia. — O que somos, Rafael? — perguntou, num fio de voz. Ele sorriu, beijando-lhe a testa. — Somos o que ninguém consegue explicar. Ela riu baixinho, emocionada. — Isso não vai durar para sempre, vai? Rafael apertou-a mais forte contra si. — Não sei o que vai acontecer amanhã. Mas sei que, enquanto durar, vou te amar como se fosse a última noite da minha vida. Clara fechou os olhos novamente, deixando que as palavras gravassem raízes em sua alma. --- Quando desceu as escadas, horas depois, sabia que aquele havia sido o ponto mais alto. O céu tinha estado dentro deles, e nada poderia mudar isso. Mas, ao chegar na rua, a sensação mudou. A cidade parecia mais hostil. Uma sombra na esquina, um olhar demorado demais, o frio que já não vinha apenas do vento. Clara estremeceu. Ainda não sabia, mas o amor que a fazia respirar também estava prestes a colocá-la em perigo.
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