Entre Muros Invisíveis
Clara aprendeu a viver em sobressalto. Cada passo era medido, cada mensagem apagada, cada desculpa ensaiada. O mundo ao redor seguia com a mesma pressa de sempre, mas para ela cada esquina escondia uma escolha impossível.
Ainda assim, era incapaz de se afastar.
Rafael a esperava em lugares improváveis: o terraço esquecido de um prédio antigo, um mirante pouco conhecido na colina, o estúdio de um amigo que passava semanas fora. Cada encontro era um refúgio roubado, uma pausa no peso da vida.
Naquela tarde, encontraram-se em uma biblioteca desativada, um espaço amplo, cheio de poeira e cheiro de papel antigo. Rafael havia conseguido a chave com um conhecido que sonhava transformá-la em centro cultural.
— Aqui ninguém nos encontra — disse ele, empurrando a porta pesada.
Clara entrou devagar, os olhos percorrendo as prateleiras empoeiradas. Havia algo de sagrado naquele silêncio.
— É como se o tempo tivesse parado — murmurou.
— Parado só para a gente — completou Rafael, sorrindo.
Ele colocou uma música suave no celular, o som ecoando pelas paredes altas. Estenderam um lençol improvisado no chão, entre livros abandonados, e ficaram deitados ali, olhando para o teto rachado.
— Às vezes penso que tudo isso é um sonho — disse Clara, virando o rosto para ele. — Que vou acordar e perceber que não existe.
Rafael tocou de leve a mão dela. — Então não acorde.
O beijo veio em seguida, lento, profundo. A cada toque, Clara sentia a certeza de que estava onde deveria estar.
---
Conversaram por horas. Clara contou coisas que nunca dissera a ninguém: os medos de decepcionar a mãe, a sensação de viver uma vida que não lhe pertencia, a dúvida se algum dia teria coragem de escolher por si mesma.
Rafael a ouvia em silêncio, os olhos fixos, como se cada palavra fosse preciosa.
— Você não precisa me escolher contra ninguém — disse ele, por fim. — Precisa escolher a si mesma. Eu só quero estar onde você é livre.
As palavras a emocionaram mais do que esperava. Encostou a cabeça no ombro dele e ficou assim, em paz como há muito não sentia.
---
Na saída, já noite, Clara se surpreendeu com o próprio reflexo no vidro da porta. O rosto corado, o brilho nos olhos — não era a mesma mulher que Henrique apresentava aos amigos em jantares sofisticados.
Era outra. Era ela mesma.
Mas a vertigem voltou quando o celular vibrou. Uma mensagem de Henrique:
“Está demorando. Onde você está?”
Clara digitou rápido: “Ainda no trabalho, revisando projetos.”
Guardou o celular de volta na bolsa, mas o peso da mentira latejava no peito.
— Está tudo bem? — perguntou Rafael, atento.
Ela respirou fundo, tentando sorrir. — Está. Enquanto eu estiver aqui, está.
Rafael a puxou para mais perto. — Então fique mais um pouco.
E Clara ficou. Porque, mesmo cercada por muros invisíveis, naquela noite ela escolheu esquecer o mundo.
---
No caminho de volta para casa, as ruas pareciam mais estreitas, os olhares dos passantes mais atentos. Clara sentia como se carregasse no rosto o segredo que tentava esconder.
Ainda assim, um pensamento ecoava dentro dela, teimoso, insistente:
“Eu não posso desistir dele. Não agora. Não nunca.”
O amor já não era apenas um refúgio. Era sobrevivência.
Capítulo 8 – O Céu Dentro de Nós
A noite caía sobre a cidade como um véu bordado de luzes. Clara subiu as escadas estreitas de um prédio antigo, coração acelerado. Rafael a esperava no topo, onde o terraço esquecido abria-se para o horizonte urbano.
Quando empurrou a porta de ferro, encontrou-o já lá, deitado sobre uma manta, câmera ao lado, olhando para o céu.
— Pensei que não viesse — disse ele, sem se levantar.
Clara sorriu, caminhando até ele. — Pensei o mesmo de você.
Rafael estendeu a mão, e ela se deitou ao seu lado. O ar estava frio, mas o calor entre os dois era suficiente. A cidade rugia lá embaixo: buzinas, vozes, motores. No entanto, naquele pedaço esquecido de concreto, havia apenas silêncio e estrelas.
— Trouxe você aqui porque queria te mostrar algo — disse Rafael, apontando para o céu. — As estrelas quase não se veem da cidade. Mas se esperar o momento certo, se olhar com paciência, elas aparecem.
Clara fixou os olhos no escuro profundo até distinguir os pontos brilhando. Sentiu-se pequena e imensa ao mesmo tempo.
— É lindo — murmurou.
— Como você, quando acha que ninguém está olhando.
Ela virou o rosto para ele, tocada. Rafael não falava como quem elogia: falava como quem revela uma verdade.
---
O beijo veio suave, como a brisa da noite. Mas logo a suavidade deu lugar à intensidade, como se cada instante fosse o último. Deitados sob o céu aberto, deixaram que o mundo desaparecesse.
Rafael traçou caminhos com os dedos no rosto dela, descendo pelo pescoço, como quem memoriza um mapa secreto. Clara se entregou ao toque, ao calor, ao arrepio que a percorria inteira.
— Nunca pensei que fosse capaz de sentir algo assim — sussurrou ela, entre beijos.
— Porque nunca deixaram você sentir — respondeu ele, segurando-a firme. — Mas agora é só nosso.
E foi.
Ali, no terraço esquecido, viveram o que jamais poderiam viver à luz do dia. Corpos entrelaçados, respirações misturadas, o coração batendo tão forte que parecia preencher a noite inteira.
Clara fechou os olhos, e por um instante acreditou que o mundo tinha sumido. Não havia Henrique, não havia família, não havia culpa. Apenas o amor que crescia entre eles como uma chama impossível de apagar.
---
Depois, permaneceram abraçados, olhando o céu. Clara sentia o peito leve, como se tivesse encontrado finalmente o lugar ao qual pertencia.
— O que somos, Rafael? — perguntou, num fio de voz.
Ele sorriu, beijando-lhe a testa. — Somos o que ninguém consegue explicar.
Ela riu baixinho, emocionada. — Isso não vai durar para sempre, vai?
Rafael apertou-a mais forte contra si. — Não sei o que vai acontecer amanhã. Mas sei que, enquanto durar, vou te amar como se fosse a última noite da minha vida.
Clara fechou os olhos novamente, deixando que as palavras gravassem raízes em sua alma.
---
Quando desceu as escadas, horas depois, sabia que aquele havia sido o ponto mais alto. O céu tinha estado dentro deles, e nada poderia mudar isso.
Mas, ao chegar na rua, a sensação mudou. A cidade parecia mais hostil. Uma sombra na esquina, um olhar demorado demais, o frio que já não vinha apenas do vento.
Clara estremeceu. Ainda não sabia, mas o amor que a fazia respirar também estava prestes a colocá-la em perigo.