A Cidade Contra Eles
O telefone de Rafael não parava de tocar. Clientes antigos, jornalistas conhecidos, até amigos de infância: todos querendo confirmar rumores que surgiram de repente. Boatos sobre dívidas, trabalhos forjados, até acusações de plágio.
Ele desligava um após o outro, os punhos cerrados. — Isso é obra dele. Só pode ser.
Clara estava ao lado, o coração apertado. — Henrique está mexendo na sua reputação. Quer te sufocar.
— E está conseguindo — respondeu Rafael, a voz tensa. — Os convites de trabalho sumiram em questão de horas. Como se o mundo inteiro tivesse fechado as portas.
Clara tocou-lhe o rosto, obrigando-o a olhá-la. — Não importa o que ele diga, Rafael. Eu sei quem você é.
Os olhos dele se suavizaram, mas não havia paz. — Não basta você saber. Eu preciso provar para o mundo.
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Naquela mesma manhã, Henrique observava os jornais digitais no tablet. As notas plantadas já começavam a circular. Satisfeito, tomou um gole do uísque.
— Um passo de cada vez — murmurou. — Até ele não ter para onde correr.
O detetive, sentado à frente, aguardava instruções.
— Continue rastreando cada encontro dos dois. Quero saber se estão preparando uma fuga. — Henrique estreitou os olhos. — Se tentarem sair da cidade, eu estarei esperando.
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Clara e Rafael, porém, não pretendiam desistir. Naquela tarde, encontraram-se em um galpão abandonado, onde o eco de suas vozes parecia se misturar com o vento.
— Precisamos ser rápidos — disse Rafael, espalhando mapas sobre o chão. — Eu conheço estradas secundárias, caminhos que ele não pode prever.
Clara olhava para os mapas, perdida entre medo e esperança. — E se ele descobrir?
— Então fugimos de novo. — Rafael pegou-lhe a mão. — O importante é estarmos juntos.
Ela respirou fundo. — Eu posso pegar alguns documentos amanhã. Dinheiro, roupas. Só não sei como explicar para minha mãe.
Rafael a puxou para perto, o olhar firme. — Não precisa explicar agora. Precisa viver.
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Enquanto planejavam, o celular de Clara vibrou. Era uma mensagem da mãe: “Precisamos conversar. Urgente.”
Ela sentiu o chão se abrir. — Minha mãe já deve saber de tudo. Henrique não teria poupado esse detalhe.
Rafael apertou-lhe a mão. — Então fale com ela. Mas não sozinha.
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Horas depois, no apartamento, Dona Lúcia a esperava com olhos vermelhos. — Estão falando coisas horríveis sobre ele, Clara. Que tipo de homem você colocou na sua vida?
Clara manteve-se firme. — O tipo de homem que me ama de verdade. Essas histórias são mentira, mãe.
— E quem garante? — a mãe disparou. — Quem garante que não está sendo usada?
Clara sentiu a dor atravessá-la, mas não cedeu. — Eu garanto. Porque eu conheço Rafael melhor do que conheço a mim mesma.
Dona Lúcia virou o rosto, os olhos marejados. — Eu só não quero te perder.
— Então confie em mim — pediu Clara, com voz doce, mas carregada de firmeza. — Confie que eu sei o que estou fazendo.
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Naquela mesma noite, Rafael esperava por ela no carro estacionado a alguns quarteirões. Assim que Clara entrou, ele percebeu a tensão no rosto dela.
— Ela não confia — disse Clara, cansada. — Mas também não me impediu.
Rafael ligou o carro, o motor rugindo baixo. — Então seguimos com o plano.
Clara assentiu, os olhos fixos na estrada. — Henrique pode até tentar destruir tudo… mas não vai destruir o que sentimos.
Rafael sorriu de lado, apertando sua mão sobre o câmbio. — Então é agora. A cidade inteira pode estar contra nós. Mas ainda somos nós dois contra o mundo.
E, enquanto o carro avançava pelas ruas iluminadas, eles sabiam que cada quilômetro os aproximava da liberdade — mas também da linha de fogo de Henrique, que não estava disposto a perder.
Capítulo 16 – A Estrada e o Abismo
O ateliê estava mergulhado em silêncio. Clara e Rafael tinham passado o dia escondidos ali, longe das ruas conhecidas, longe das portas que Henrique começava a fechar uma a uma. A cidade parecia mais hostil a cada hora, mas, naquele pequeno espaço, havia uma espécie de trégua.
Sentados lado a lado no colchão improvisado, eles observavam o pôr do sol tingir de laranja as paredes descascadas. Clara se inclinou contra o peito de Rafael, escutando o ritmo firme de seu coração.
— Eu queria congelar esse momento — disse ela, num sussurro. — Só nós dois, sem medo, sem pressa.
Rafael acariciou seus cabelos. — Então vamos gravar aqui dentro — apontou para o peito. — Para que nem o tempo consiga apagar.
Beijaram-se devagar, como se o mundo não existisse. Foi um beijo terno e profundo, um último respiro antes do mergulho.
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À noite, arrumaram as poucas malas. Documentos escondidos, dinheiro contado, roupas dobradas às pressas. O plano era simples: sair antes do amanhecer, seguir por estradas secundárias, alcançar uma cidade do interior onde poderiam recomeçar.
— Temos que ser rápidos — disse Rafael, colocando a câmera dentro da mochila. — Ele pode estar esperando em cada esquina.
Clara olhou em volta, o coração apertado. — Parece que estamos abandonando tudo…
— Não, Clara. Estamos escolhendo o que importa. — Ele a encarou, firme. — Nós dois.
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A madrugada chegou fria, úmida. O carro de Rafael estava estacionado em uma rua deserta. Jogaram as malas no porta-malas, trocaram um olhar cúmplice e entraram.
— Pronta? — perguntou ele, ligando o motor.
— Sempre — respondeu Clara, segurando-lhe a mão.
O carro avançou pelas ruas adormecidas, cortando o silêncio da cidade. Cada semáforo verde parecia um sinal de esperança.
Mas essa esperança durou pouco.
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A poucos quilômetros da saída, um farol forte os cegou. Um carro preto bloqueava a estrada. Rafael freou bruscamente, o coração disparando.
— Não… — Clara sussurrou, sentindo o sangue gelar.
Do veículo desceu Henrique. O terno impecável, o rosto iluminado pelo farol, mas os olhos eram puro abismo.
— Eu avisei — disse, a voz calma, quase serena. — Vocês realmente acharam que poderiam fugir de mim?
Clara abriu a porta antes que Rafael pudesse segurá-la. — Chega, Henrique! Eu não sou sua propriedade!
Henrique deu um passo à frente, os olhos fixos nela. — Você é minha esposa. Meu compromisso. Minha vida. E não vou deixar que um aventureiro de rua roube tudo de mim.
Rafael saiu também, posicionando-se ao lado de Clara. — Ela não é um troféu, Henrique. Ela é livre.
O silêncio da estrada parecia segurar a respiração. Por um instante, apenas o vento noturno atravessava a cena.
Henrique sorriu de canto, mas era um sorriso c***l. — Livre? Veremos quanto tempo dura essa liberdade.
E, antes que qualquer um pudesse reagir, ele fez sinal para dois homens que saíram do carro preto.
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Clara agarrou a mão de Rafael, o coração em chamas. — A gente precisa correr. Agora!
Rafael a puxou de volta para o carro, acelerando com violência. Os pneus cantaram, o motor rugiu, e a estrada virou campo de batalha.
Henrique os seguiu, os faróis na cola, como se fosse a própria sombra do destino.
Clara apertava os olhos, o medo misturado à adrenalina. Rafael mantinha o volante firme, a respiração pesada.
— Não vou deixar que ele nos leve, Clara. Nunca.
Ela olhou para ele, as lágrimas cortando o rosto, e percebeu a verdade: estavam em guerra. Não apenas contra Henrique, mas contra um mundo inteiro que parecia conspirar contra o amor deles.
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A estrada se estendia diante deles, escura e incerta. O futuro era um abismo, mas estavam juntos.
E, naquele instante, Clara teve certeza: acontecesse o que acontecesse, o amor deles jamais seria vencido pelo medo.