A Cidade Contra Eles

1284 Words
A Cidade Contra Eles O telefone de Rafael não parava de tocar. Clientes antigos, jornalistas conhecidos, até amigos de infância: todos querendo confirmar rumores que surgiram de repente. Boatos sobre dívidas, trabalhos forjados, até acusações de plágio. Ele desligava um após o outro, os punhos cerrados. — Isso é obra dele. Só pode ser. Clara estava ao lado, o coração apertado. — Henrique está mexendo na sua reputação. Quer te sufocar. — E está conseguindo — respondeu Rafael, a voz tensa. — Os convites de trabalho sumiram em questão de horas. Como se o mundo inteiro tivesse fechado as portas. Clara tocou-lhe o rosto, obrigando-o a olhá-la. — Não importa o que ele diga, Rafael. Eu sei quem você é. Os olhos dele se suavizaram, mas não havia paz. — Não basta você saber. Eu preciso provar para o mundo. --- Naquela mesma manhã, Henrique observava os jornais digitais no tablet. As notas plantadas já começavam a circular. Satisfeito, tomou um gole do uísque. — Um passo de cada vez — murmurou. — Até ele não ter para onde correr. O detetive, sentado à frente, aguardava instruções. — Continue rastreando cada encontro dos dois. Quero saber se estão preparando uma fuga. — Henrique estreitou os olhos. — Se tentarem sair da cidade, eu estarei esperando. --- Clara e Rafael, porém, não pretendiam desistir. Naquela tarde, encontraram-se em um galpão abandonado, onde o eco de suas vozes parecia se misturar com o vento. — Precisamos ser rápidos — disse Rafael, espalhando mapas sobre o chão. — Eu conheço estradas secundárias, caminhos que ele não pode prever. Clara olhava para os mapas, perdida entre medo e esperança. — E se ele descobrir? — Então fugimos de novo. — Rafael pegou-lhe a mão. — O importante é estarmos juntos. Ela respirou fundo. — Eu posso pegar alguns documentos amanhã. Dinheiro, roupas. Só não sei como explicar para minha mãe. Rafael a puxou para perto, o olhar firme. — Não precisa explicar agora. Precisa viver. --- Enquanto planejavam, o celular de Clara vibrou. Era uma mensagem da mãe: “Precisamos conversar. Urgente.” Ela sentiu o chão se abrir. — Minha mãe já deve saber de tudo. Henrique não teria poupado esse detalhe. Rafael apertou-lhe a mão. — Então fale com ela. Mas não sozinha. --- Horas depois, no apartamento, Dona Lúcia a esperava com olhos vermelhos. — Estão falando coisas horríveis sobre ele, Clara. Que tipo de homem você colocou na sua vida? Clara manteve-se firme. — O tipo de homem que me ama de verdade. Essas histórias são mentira, mãe. — E quem garante? — a mãe disparou. — Quem garante que não está sendo usada? Clara sentiu a dor atravessá-la, mas não cedeu. — Eu garanto. Porque eu conheço Rafael melhor do que conheço a mim mesma. Dona Lúcia virou o rosto, os olhos marejados. — Eu só não quero te perder. — Então confie em mim — pediu Clara, com voz doce, mas carregada de firmeza. — Confie que eu sei o que estou fazendo. --- Naquela mesma noite, Rafael esperava por ela no carro estacionado a alguns quarteirões. Assim que Clara entrou, ele percebeu a tensão no rosto dela. — Ela não confia — disse Clara, cansada. — Mas também não me impediu. Rafael ligou o carro, o motor rugindo baixo. — Então seguimos com o plano. Clara assentiu, os olhos fixos na estrada. — Henrique pode até tentar destruir tudo… mas não vai destruir o que sentimos. Rafael sorriu de lado, apertando sua mão sobre o câmbio. — Então é agora. A cidade inteira pode estar contra nós. Mas ainda somos nós dois contra o mundo. E, enquanto o carro avançava pelas ruas iluminadas, eles sabiam que cada quilômetro os aproximava da liberdade — mas também da linha de fogo de Henrique, que não estava disposto a perder. Capítulo 16 – A Estrada e o Abismo O ateliê estava mergulhado em silêncio. Clara e Rafael tinham passado o dia escondidos ali, longe das ruas conhecidas, longe das portas que Henrique começava a fechar uma a uma. A cidade parecia mais hostil a cada hora, mas, naquele pequeno espaço, havia uma espécie de trégua. Sentados lado a lado no colchão improvisado, eles observavam o pôr do sol tingir de laranja as paredes descascadas. Clara se inclinou contra o peito de Rafael, escutando o ritmo firme de seu coração. — Eu queria congelar esse momento — disse ela, num sussurro. — Só nós dois, sem medo, sem pressa. Rafael acariciou seus cabelos. — Então vamos gravar aqui dentro — apontou para o peito. — Para que nem o tempo consiga apagar. Beijaram-se devagar, como se o mundo não existisse. Foi um beijo terno e profundo, um último respiro antes do mergulho. --- À noite, arrumaram as poucas malas. Documentos escondidos, dinheiro contado, roupas dobradas às pressas. O plano era simples: sair antes do amanhecer, seguir por estradas secundárias, alcançar uma cidade do interior onde poderiam recomeçar. — Temos que ser rápidos — disse Rafael, colocando a câmera dentro da mochila. — Ele pode estar esperando em cada esquina. Clara olhou em volta, o coração apertado. — Parece que estamos abandonando tudo… — Não, Clara. Estamos escolhendo o que importa. — Ele a encarou, firme. — Nós dois. --- A madrugada chegou fria, úmida. O carro de Rafael estava estacionado em uma rua deserta. Jogaram as malas no porta-malas, trocaram um olhar cúmplice e entraram. — Pronta? — perguntou ele, ligando o motor. — Sempre — respondeu Clara, segurando-lhe a mão. O carro avançou pelas ruas adormecidas, cortando o silêncio da cidade. Cada semáforo verde parecia um sinal de esperança. Mas essa esperança durou pouco. --- A poucos quilômetros da saída, um farol forte os cegou. Um carro preto bloqueava a estrada. Rafael freou bruscamente, o coração disparando. — Não… — Clara sussurrou, sentindo o sangue gelar. Do veículo desceu Henrique. O terno impecável, o rosto iluminado pelo farol, mas os olhos eram puro abismo. — Eu avisei — disse, a voz calma, quase serena. — Vocês realmente acharam que poderiam fugir de mim? Clara abriu a porta antes que Rafael pudesse segurá-la. — Chega, Henrique! Eu não sou sua propriedade! Henrique deu um passo à frente, os olhos fixos nela. — Você é minha esposa. Meu compromisso. Minha vida. E não vou deixar que um aventureiro de rua roube tudo de mim. Rafael saiu também, posicionando-se ao lado de Clara. — Ela não é um troféu, Henrique. Ela é livre. O silêncio da estrada parecia segurar a respiração. Por um instante, apenas o vento noturno atravessava a cena. Henrique sorriu de canto, mas era um sorriso c***l. — Livre? Veremos quanto tempo dura essa liberdade. E, antes que qualquer um pudesse reagir, ele fez sinal para dois homens que saíram do carro preto. --- Clara agarrou a mão de Rafael, o coração em chamas. — A gente precisa correr. Agora! Rafael a puxou de volta para o carro, acelerando com violência. Os pneus cantaram, o motor rugiu, e a estrada virou campo de batalha. Henrique os seguiu, os faróis na cola, como se fosse a própria sombra do destino. Clara apertava os olhos, o medo misturado à adrenalina. Rafael mantinha o volante firme, a respiração pesada. — Não vou deixar que ele nos leve, Clara. Nunca. Ela olhou para ele, as lágrimas cortando o rosto, e percebeu a verdade: estavam em guerra. Não apenas contra Henrique, mas contra um mundo inteiro que parecia conspirar contra o amor deles. --- A estrada se estendia diante deles, escura e incerta. O futuro era um abismo, mas estavam juntos. E, naquele instante, Clara teve certeza: acontecesse o que acontecesse, o amor deles jamais seria vencido pelo medo.
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