A Estrada em Chamas
O carro de Rafael rasgava o asfalto como se fosse feito de pura fúria. Os faróis de Henrique iluminavam o retrovisor, cada vez mais próximos. Clara segurava o painel com força, os olhos marejados.
— Ele não vai parar, Rafael! — gritou.
— Então também não vamos! — respondeu ele, os dentes cerrados, desviando por uma curva fechada.
O motor rugia, os pneus gritavam. A estrada secundária parecia não ter fim, serpenteando entre campos escuros e galpões abandonados. Mas Henrique não cedia, colado atrás deles, como um predador saboreando a presa.
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De repente, outro carro surgiu ao lado, forçando Rafael contra a cerca. Clara gritou.
— Eles são dois!
Rafael girou o volante com violência, escapando por centímetros. O carro inimigo bateu contra a mureta, mas voltou à perseguição.
— Ele não está sozinho — disse Rafael, a respiração acelerada. — Ele trouxe reforços.
Clara se virou, o coração em chamas. — Então somos só nós contra eles.
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A perseguição durou minutos que pareceram horas. Até que, num cruzamento m*l iluminado, Rafael puxou o freio de mão e fez o carro girar num semicírculo arriscado. Henrique, pego de surpresa, freou tarde demais. Os dois carros se enfrentaram frente a frente, motores roncando, os faróis iluminando a noite como holofotes.
Rafael saiu primeiro, puxando Clara pela mão. — Fica atrás de mim.
Henrique desceu em seguida, os olhos brilhando de raiva contida. Dois homens surgiram de dentro do carro auxiliar, fechando o cerco.
— Isso acaba agora — disse Henrique, a voz gélida. — Clara, venha comigo.
Ela deu um passo à frente, o rosto banhado de lágrimas, mas a voz firme como nunca. — Não. Eu não volto mais.
Henrique a encarou, incrédulo. — Você não sabe o que está dizendo.
— Eu sei, Henrique. — Ela ergueu o queixo. — Eu nunca te amei.
As palavras cortaram o ar como lâmina. Henrique tremeu, o rosto contraído pela fúria. — Então vai morrer com ele.
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O primeiro golpe foi rápido: um dos homens avançou contra Rafael. Ele reagiu instintivamente, desviando e acertando um soco. Outro veio por trás, e Clara gritou.
Rafael lutava com tudo o que tinha, mas eram dois contra um. Henrique observava, imóvel, como um maestro c***l.
Clara, desesperada, pegou uma pedra caída à beira da estrada e atingiu um dos homens na cabeça. Ele cambaleou, dando a Rafael a chance de derrubar o outro.
— Corre! — gritou Rafael, puxando-a.
Mas Henrique bloqueou a frente do carro deles, um revólver brilhando em sua mão.
— Vocês não vão a lugar nenhum.
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O tempo congelou. Clara olhou para a arma, depois para Rafael, e sentiu que aquele poderia ser o fim.
Mas Rafael deu um passo à frente, protegendo-a com o corpo. — Se quiser atirar, vai ter que ser em mim primeiro.
Henrique hesitou. O dedo tremia no gatilho. O ódio era real, mas também era o amor ferido.
Clara aproveitou o instante e avançou, empurrando o braço dele para cima. O disparo ecoou na noite, atingindo apenas o céu.
No caos, Rafael golpeou Henrique, derrubando-o. Pegou Clara pela mão e correram de volta ao carro.
— Vamos!
O motor gemeu, mas respondeu. Em segundos, estavam de volta à estrada, deixando para trás o som de passos e gritos.
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Clara chorava no banco, o corpo trêmulo. Rafael mantinha os olhos fixos na frente, os dedos manchados de sangue dos golpes recebidos.
— Você está ferido! — ela gritou.
— Não importa — respondeu, firme. — O que importa é que você está comigo.
Ela segurou a mão dele sobre o volante, entrelaçando os dedos. — Eu não vou te deixar, Rafael. Nem que o mundo desabe.
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Atrás deles, Henrique se levantava com dificuldade, o rosto marcado pela raiva e pela humilhação. O revólver ainda quente em sua mão.
— Isso não acabou — murmurou, os olhos fixos na estrada. — Isso só começou.
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A estrada seguia adiante, escura e incerta. Clara e Rafael tinham escapado por um fio, mas estavam mais unidos do que nunca. Sabiam que a guerra estava longe de terminar.
Mas também sabiam que, acontecesse o que acontecesse, aquele amor não poderia mais ser apagado.
E, com o coração em chamas e o corpo ferido, eles seguiram em frente — rumo ao desconhecido, rumo ao abismo, rumo à liberdade.
Capítulo 18 – Entre Curativos e Armadilhas
O carro parou finalmente num galpão esquecido às margens da estrada. Rafael desligou o motor e caiu contra o volante, respirando com dificuldade. Clara imediatamente segurou seu rosto, em pânico.
— Você está sangrando muito! — sussurrou, as mãos trêmulas.
Ele tentou sorrir. — Já apanhei pior…
— Não é hora de bravatas, Rafael! — Ela abriu a mochila às pressas, encontrando um pano, uma garrafa de água, qualquer coisa que pudesse servir. Rasgou o tecido da própria blusa para improvisar uma faixa.
Enquanto limpava as feridas dele, lágrimas escorriam. — Eu achei que ia te perder. Quando ouvi o disparo… eu achei que tinha acabado.
Rafael levou a mão ao rosto dela, apesar da dor. — Você nunca vai me perder. Nem que eu precise enfrentar o inferno.
Ela o beijou com urgência, como se aquele gesto fosse o único antídoto contra o medo. Era um beijo salgado de lágrimas e sangue, mas também de amor absoluto.
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Horas depois, Rafael dormia exausto, deitado no colchão improvisado. Clara permaneceu acordada, observando-o à luz fraca de uma lamparina. Cada corte no rosto dele era uma lembrança da violência de Henrique, mas também uma marca da coragem que os unia.
“Quanto mais ele tenta nos destruir, mais eu percebo que não posso viver sem Rafael”, pensou.
Mas o coração não deixava espaço para ilusões: Henrique não recuaria.
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Na cidade, Henrique caminhava pelo escritório como uma fera enjaulada. A mão ainda doía do golpe que recebera, mas a dor só alimentava a fúria.
— Eles pensam que venceram — murmurou, olhando pela janela. — Mas só compraram tempo.
Chamou o detetive. — Quero rastrear todos os lugares onde eles podem se esconder. E quero alguém próximo deles, alguém que ganhe confiança e depois os entregue.
— Está pensando em infiltrar alguém? — o homem perguntou.
Henrique sorriu frio. — Se eles acreditam que podem se proteger com amor e improviso, vão descobrir que o perigo pode estar onde menos esperam.
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De volta ao galpão, Clara cochilou ao lado de Rafael. O corpo exausto cedeu por alguns minutos. Mas, antes de se entregar ao sono, ela fez uma promessa silenciosa:
“Se Henrique quiser guerra, eu também sei lutar. E lutarei por nós.”
Do lado de fora, o vento uivava entre as frestas das paredes, como um presságio. A batalha estava apenas começando.