O Primeiro Abismo
Os dias seguintes foram de silêncio e tensão. Clara tentava se manter firme nos compromissos, nos preparativos do casamento, mas o coração já não obedecia. Cada vez que fechava os olhos, via Rafael. O sorriso, o jeito livre de falar, os olhos que pareciam atravessá-la.
Uma noite, depois de uma reunião cansativa, Clara caminhava pela avenida iluminada, tentando respirar fundo. O celular vibrou. Uma mensagem curta:
“Estou no café. Só para te ver de longe. Não precisa entrar.”
O peito dela disparou. Sabia que deveria ignorar, mas os pés tomaram outro rumo. Quando percebeu, já estava diante da porta de vidro do café.
Rafael estava lá, sozinho, uma xícara pela metade diante dele. Não sorriu quando a viu. Apenas levantou o olhar, como se tivesse certeza de que ela viria.
Clara entrou.
— Eu disse que não ia entrar — murmurou, nervosa.
— E eu disse que você voltaria — respondeu Rafael, com a mesma calma de sempre.
O silêncio que se seguiu foi elétrico. O barulho das conversas ao redor parecia distante. Clara sentia-se suspensa, como se cada passo dali em diante fosse irreversível.
— Não posso ficar — disse, mas não se moveu.
— Então só sente — pediu ele. — Sem pressa.
E ela se sentou.
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Conversaram pouco. Bastava estarem ali, dividindo o mesmo espaço. Rafael falava sobre um ensaio de fotos que faria numa antiga estação de trem. Clara ouvia, mas sua mente estava em outra direção: cada detalhe dele a atraía, como se fosse impossível resistir.
Quando saíram juntos, a noite estava fria. Clara parou na calçada, hesitante.
— Preciso ir — disse, repetindo as palavras que já não tinham força.
Rafael se aproximou. Não a tocou, não a forçou. Apenas ficou ali, tão perto que ela podia sentir a respiração dele.
— Você tem medo? — perguntou.
Clara o encarou. — Tenho.
— De mim?
Ela balançou a cabeça. — De mim mesma.
Foi nesse instante que aconteceu. Clara deu o primeiro passo. Aproximou-se, quase contra a própria vontade, e deixou que os lábios dele encontrassem os seus.
O beijo foi suave no começo, como um segredo compartilhado. Mas logo ganhou intensidade, como se ambos tivessem esperado por aquilo desde sempre. Clara sentiu o mundo girar, o corpo inteiro em chamas, o coração acelerado de um jeito quase doloroso.
Quando se afastaram, ela estava sem fôlego.
— Isso é errado — sussurrou, mas os olhos brilhavam.
Rafael acariciou de leve o rosto dela. — Errado seria fingir que não aconteceu.
Clara não respondeu. Apenas encostou a testa na dele, deixando-se ficar por alguns segundos.
E ali, naquela esquina qualquer da cidade, soube que havia cruzado o ponto sem retorno.
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Na madrugada, deitada em sua cama, Clara não conseguiu dormir. Sentia os lábios ainda quentes, o coração em sobressalto. Ao lado, o celular piscava com mensagens de Henrique: lembretes sobre convites, confirmações de fornecedores, coisas práticas, seguras.
Mas a mente dela estava longe, no abismo que havia acabado de saltar.
Sabia que não deveria continuar. Mas também sabia que não conseguiria parar.
O silêncio da noite foi quebrado por um pensamento claro, quase doloroso:
“Estou me perdendo. Mas, talvez, seja exatamente isso que eu quero.”
Capítulo 4 – O Fio da Vertigem
Clara vivia em dois mundos.
De dia, ao lado de Henrique, discutia listas de convidados, cores de guardanapos, detalhes da cerimônia. À noite, deitada ao lado dele, fingia dormir enquanto a mente ardia em lembranças do beijo na calçada, da respiração entrecortada, do olhar de Rafael.
Era como viver entre duas cidades: uma feita de concreto seguro, previsível, erguido por Henrique; a outra, um labirinto vibrante, desordenado, mas cheio de vida, criado por Rafael.
E, a cada dia, Clara sentia-se mais cidadã do segundo mundo.
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Encontraram-se outra vez, numa tarde chuvosa, na estação de trem abandonada que Rafael usava como cenário de fotos. O espaço, cheio de grafites e janelas quebradas, parecia espelhar o estado de Clara: fragmentado, mas repleto de cor.
— Pensei que não viesse — disse Rafael, ajustando a câmera.
— Eu também pensei — respondeu ela, sem esconder o nervosismo.
Ele a observou por alguns segundos. — Você está tentando fugir de mim.
— De você… e de mim mesma.
Rafael sorriu. — Então talvez precise parar de correr.
Clara não respondeu. Mas quando ele a chamou para posar, não recusou. Ficou diante da lente, os cabelos soltos, o olhar profundo. Não se preocupou em sorrir ou parecer perfeita. Pela primeira vez, não precisou representar nada.
— É assim que eu te vejo — disse Rafael, após clicar várias vezes.
Clara se aproximou, tomada por uma coragem inesperada. — E se for assim que eu quero me ver daqui em diante?
O beijo aconteceu de novo, mais intenso, mais urgente. As mãos se encontraram, os corpos se aproximaram. O mundo desapareceu, restando apenas os dois, mergulhados no instante.
Quando se afastaram, Clara tremia.
— Estamos passando do limite — murmurou.
— Não existe limite quando é verdade — respondeu Rafael, firme.
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Naquela mesma semana, durante um jantar na casa dos pais de Henrique, Clara sentiu o peso do outro mundo. Dona Lúcia estava lá, elegante em um vestido azul-marinho, orgulhosa da filha que se tornava noiva de um advogado respeitado.
— Você está radiante, Clara — disse a mãe, sorrindo. — É a felicidade, não é?
Clara quase engasgou com o vinho. Forçou um sorriso. — Sim, mãe… felicidade.
Henrique, sempre atento, pousou a mão sobre a dela. — Estamos quase prontos para o grande dia.
O toque dele, seguro e protocolar, fez Clara estremecer. Não de paixão, mas de culpa. O rosto de Rafael invadiu sua mente, como uma sombra impossível de afastar.
Foi nesse instante que percebeu Henrique a observando com uma atenção diferente. Não o olhar distraído de sempre, mas um brilho de desconfiança.
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Na volta para casa, Henrique dirigia em silêncio. O carro avançava pelas ruas iluminadas, e Clara sentia o ar pesado.
— Você anda distante — disse ele, finalmente.
— É só cansaço com o trabalho — respondeu, evitando o olhar.
Henrique não insistiu, mas o silêncio que se seguiu foi pior que qualquer acusação.
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Dois mundos. Dois homens. Dois destinos.
Clara sabia que não conseguiria equilibrar essa vida dupla por muito tempo. Mas também sabia que, por mais que tentasse, não seria capaz de renunciar a Rafael.
Era como estar suspensa num fio: de um lado, a segurança que a mãe sempre sonhou para ela; do outro, a vertigem de um amor que a consumia.
E, no fundo, Clara já sabia para qual lado o coração pendia.