O Clique do Destino
A tarde caía sobre a cidade quando Clara chegou à galeria. O espaço era pequeno, escondido numa rua antiga, de paralelepípedos gastos pelo tempo. Do lado de fora, quase ninguém teria imaginado que ali dentro se reuniam olhares atentos, taças de vinho e telas iluminadas por focos de luz cuidadosamente posicionados.
Clara não costumava ir a exposições de fotografia. Seu mundo era feito de linhas retas, maquetes em miniatura e cálculos precisos. Mas algo naquela mostra a atraíra. Talvez fosse o título — Rostos da Cidade — ou talvez uma curiosidade inexplicável, como se uma força silenciosa a tivesse empurrado até ali.
Assim que entrou, sentiu o aroma de madeira polida e vinho tinto. As paredes estavam cobertas de quadros em preto e branco, retratos de pessoas anônimas: um vendedor de balas no semáforo, uma criança brincando com pipa no telhado, uma senhora segurando sacolas pesadas na escada do metrô.
Clara caminhava devagar, absorvendo cada imagem, quando parou diante de uma foto que lhe cortou a respiração.
Era ela.
O clique na chuva. O olhar distraído, quase severo, os cabelos presos apressadamente, a luz refletida em seu rosto. A lembrança voltou inteira: o som da câmera, o sorriso atrevido, a frase inesperada.
Clara aproximou-se ainda mais, o coração acelerado. Não havia dúvida. Era a foto tirada por aquele estranho.
— Bonita, não é? — uma voz conhecida soou atrás dela.
Clara se virou. E lá estava ele.
Rafael.
Vestia camisa simples, mangas dobradas, um colar discreto de couro no pescoço. Os olhos escuros brilhavam como naquela noite. Ele sorria, e o sorriso parecia uma revelação.
— Você… — Clara começou, surpresa. — Essa foto…
— É sua — disse ele, calmo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Ou melhor, é um pedaço de você. O que eu vi naquele instante.
Clara sentiu um arrepio. Parte dela quis protestar, reclamar pela ousadia. Mas outra parte — aquela que respirava fundo diante de cada obstáculo — estava fascinada.
— Você não deveria ter exposto isso sem me pedir — disse, tentando manter a firmeza.
Rafael deu de ombros. — Às vezes, a cidade não pede licença. Ela acontece. E você… aconteceu diante da minha lente.
Houve um silêncio entre eles. Não um silêncio constrangedor, mas cheio de eletricidade. Pessoas passavam ao redor, riam, comentavam, mas Clara e Rafael pareciam isolados, como se o mundo tivesse diminuído de volume.
— Eu não deveria estar aqui — murmurou Clara, mais para si mesma do que para ele.
— Mas está — respondeu Rafael, com um sorriso suave. — E eu também. Talvez seja porque algumas coisas não têm escolha.
Clara desviou o olhar para a foto. Viu a si mesma retratada com uma intensidade que nunca havia reconhecido. Não era a noiva perfeita, a arquiteta exemplar, a filha obediente. Era apenas uma mulher atravessando a cidade, vulnerável e inteira.
— Você me vê diferente — disse, sem perceber que falava em voz alta.
— Eu vejo você — corrigiu Rafael, firme, mas sem arrogância.
O coração de Clara deu um salto.
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Eles caminharam juntos pela galeria. Rafael falava de suas fotos como quem fala de amigos antigos: conhecia a história de cada rosto, de cada instante congelado. Clara o ouvia, fascinada pela paixão que ele carregava. Havia nele uma liberdade que a desconcertava, mas que também a atraía como um ímã.
Quando chegaram ao último quadro, ficaram frente a frente, mais próximos do que deveriam. Clara podia sentir a respiração dele, o cheiro de café e chuva impregnado em suas roupas.
— Posso te oferecer uma taça de vinho? — perguntou Rafael.
Ela hesitou. Lembrou-se do noivo, dos compromissos, do jantar formal marcado para o fim de semana. Mas, naquele instante, tudo parecia distante, quase irreal.
— Só uma — respondeu, como se isso fosse suficiente para limitar o perigo.
Sentaram-se num canto da galeria, copos na mão. O vinho era encorpado, mas Clara m*l o sentia. O que a embriagava era o olhar de Rafael, sempre tão fixo, como se ela fosse a única pessoa naquele espaço.
— Você não se parece em nada com essa cidade — disse ele, após um gole. — É como se estivesse sempre fora do ritmo, tentando se encaixar onde não pertence.
Clara franziu o cenho. — E você se acha capaz de me ler assim, em tão pouco tempo?
— Não preciso de tempo. Preciso de olhos.
A frase a desarmou. Ninguém nunca falara com ela daquele jeito. Sempre fora elogiada pelo talento, pela disciplina, pela beleza discreta. Mas nunca por algo tão íntimo, tão profundo.
Clara riu, nervosa. — Você fala como se fosse fácil me decifrar.
— Não é fácil — respondeu Rafael, sério. — Mas é inevitável.
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Quando saíram da galeria, a noite já cobria a cidade. O ar estava fresco, ainda úmido da chuva. Clara olhou para o relógio, assustada com o tempo.
— Preciso ir.
— Eu sei — disse Rafael, com calma. — Mas vai voltar.
— Como pode ter tanta certeza?
Ele sorriu. — Porque o que aconteceu aqui não se repete. E você sabe que não quer perder.
Clara engoliu em seco. Não respondeu. Apenas virou-se, chamou um táxi e partiu.
Do banco de trás, olhou pela janela e o viu parado na calçada, mãos nos bolsos, olhando para ela como se guardasse um segredo.
No peito, um turbilhão: culpa, medo, fascínio.
Mas uma certeza ecoava em silêncio: aquele reencontro não era acaso. Era começo.
Capítulo 2 – O Peso do Silêncio
Clara acordou no domingo com a mente em turbilhão. O rosto de Rafael, o sorriso dele, o som de sua voz — tudo vinha como flashs insistentes, como se tivesse sido tatuado em sua memória. Tentou espantar a lembrança mergulhando nos compromissos: revisar projetos, organizar relatórios, preparar-se para a reunião de segunda. Mas, entre as linhas dos desenhos, via o olhar dele.
“Isso não pode estar acontecendo”, repetia para si mesma. “É só uma distração. Um erro passageiro.”
O noivo perfeito a esperava. Henrique, com sua calma racional, era o homem certo. O casamento estava às portas. Nada deveria tirá-la do caminho traçado.
E ainda assim, quando o celular vibrou, o coração disparou.
Uma mensagem desconhecida:
“Foi bom te reencontrar. A foto ainda é sua, se quiser. – R.”
Clara ficou paralisada. Não lembrava de ter dado o número a ele. Talvez tivesse deixado escapar num cartão esquecido na galeria. O certo era ignorar. Apagar a mensagem. Fingir que nada acontecera.
Mas seus dedos, traidores, escreveram:
“Não devia ter feito aquilo.”
A resposta veio em segundos:
“Nem você devia ter parado para olhar tanto tempo para aquela foto.”
Clara largou o celular, assustada com a precisão. Respirou fundo, como se pudesse apagar o calor que subia pelo corpo.
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Na segunda-feira, o dia foi longo. Reuniões, apresentações, prazos. O escritório era um mundo de vidro e aço, onde cada erro custava caro. Clara manteve a postura firme, o sorriso controlado. Mas por dentro, uma expectativa latejava.
À tarde, recebeu outra mensagem.
“Tem um café perto da Praça das Letras. O mais simples da cidade, mas o mais verdadeiro. Te espero lá, só para devolver a foto.”
Clara fechou os olhos. Deveria dizer não. Qualquer passo fora da linha seria traição, um mergulho no proibido. Mas a imagem da fotografia, dela mesma retratada de um jeito que nunca tinha visto, a assombrava. Precisava vê-la de novo. Só por isso.
Pelo menos era o que dizia a si mesma.
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O café era pequeno, com mesas de madeira riscadas por nomes e datas. O cheiro de pão fresco misturava-se ao de café forte. Nada ali combinava com o mundo sofisticado de Clara, mas ao mesmo tempo havia um conforto quase infantil.
Rafael já a esperava, câmera pendurada no ombro. Levantou-se ao vê-la entrar, como se fosse o reencontro de velhos conhecidos.
— Achei que não viria — disse, sem esconder o alívio.
— Só vim pegar a foto — respondeu Clara, tentando manter distância.
Ele abriu uma pasta de couro e retirou a fotografia impressa em papel fosco. Entregou-a a ela, sem cerimônia. Clara segurou-a com cuidado. Ver-se daquele jeito — tão natural, tão verdadeira — a deixou sem palavras.
— Não é só uma imagem — disse Rafael, olhando-a com calma. — É você quando esquece do mundo.
Clara engoliu em seco. — Você não sabe nada sobre mim.
— Sei o suficiente — rebateu ele. — Sei que você vive presa a um roteiro que não escreveu.
As palavras a atingiram em cheio. Ninguém nunca ousara falar com tanta clareza. Clara quis se levantar, fugir, mas algo a manteve ali.
— E se for verdade? — perguntou, baixinho.
Rafael sorriu. — Então talvez esteja na hora de rasgar o roteiro.
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Ficaram horas conversando. Sobre a cidade, sobre arte, sobre infância. Rafael falava com paixão de cada foto que tirava, como se cada instante fosse único. Clara, em silêncio, descobria-se dizendo coisas que nunca admitira nem para si mesma: os medos, as pressões, a sensação de estar sempre representando.
Quando percebeu, já era noite.
— Preciso ir — disse, levantando-se às pressas.
— Eu sei — respondeu Rafael, sem pedir nada além. — Mas vai voltar.
Clara não respondeu. Saiu com passos rápidos, mas o coração ficara lá dentro, preso naquele café de esquina.
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Nos dias seguintes, tentou se afastar. Evitou mensagens, evitou pensar nele. Mas era inútil. Cada olhar de Henrique, cada comentário protocolar nos jantares de família, só aumentava a distância entre o que tinha e o que desejava.
Até que, numa tarde, Rafael apareceu do nada. Estava na frente do prédio do escritório, câmera em mãos, esperando.
— O que faz aqui? — perguntou Clara, nervosa.
— A cidade me trouxe — disse ele, sorrindo. — E eu trouxe um segredo.
Mostrou-lhe outra foto. Não dela, mas de um prédio antigo, prestes a ser demolido. As janelas quebradas refletiam o pôr do sol, e no reflexo havia o vulto dela, passando apressada na rua.
— Você sempre aparece sem perceber — murmurou Rafael. — É como se a cidade conspirasse para que eu te encontrasse.
Clara sentiu o chão tremer sob os pés. A razão gritava para se afastar, mas o coração batia mais forte a cada palavra dele.
— Isso é errado — disse, com voz trêmula. — Eu… eu sou noiva.
— Eu sei — respondeu Rafael, sem desviar os olhos. — Mas o que sente não é errado. Só é proibido.
O silêncio entre eles pesou. Gente passava, buzinas soavam, mas era como se o mundo tivesse desaparecido. Clara sentia o corpo inteiro em alerta, como se estivesse à beira de um precipício.
E, pela primeira vez, pensou seriamente em pular.
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Naquela noite, deitada ao lado de Henrique, quase não conseguiu dormir. Ele falava sobre um novo caso no escritório, sobre clientes influentes, sobre planos para a lua de mel. Clara assentia, sorria quando necessário, mas a mente estava em outro lugar: no café simples, na fotografia refletida, nos olhos de Rafael.
Sentia-se culpada, dividida, mas também viva como não se lembrava de ter estado nos últimos anos.
O coração era uma cidade em guerra: de um lado, as estruturas sólidas de Henrique, feitas de concreto e previsibilidade; do outro, as ruas livres de Rafael, cheias de luz e caos.
Clara sabia que, em algum momento, teria de escolher.
Mas, por enquanto, deixava-se perder no silêncio do proibido.