O Peso da Perfeição
Henrique Torres acordava todos os dias às seis em ponto. O alarme do celular tocava apenas uma vez; ele nunca precisou da função “soneca”. Saltava da cama com precisão quase militar, como se cada gesto tivesse sido ensaiado. Escovar os dentes, preparar o café preto sem açúcar, revisar os e-mails antes mesmo de sair de casa: tudo obedecia a uma rotina cuidadosamente estabelecida.
Para Henrique, disciplina não era apenas hábito — era identidade. Filho de um juiz aposentado e de uma professora rígida, crescera ouvindo que sucesso era questão de honra. Não havia espaço para falhas. Na faculdade de Direito, destacara-se não apenas pelo intelecto, mas pela frieza. Onde outros vacilavam diante da pressão, ele mantinha a calma. Essa serenidade lhe abrira portas: primeiro o estágio nos melhores escritórios, depois a sociedade com apenas trinta anos.
Aos trinta e quatro, Henrique já era visto como referência. Carreira sólida, apartamento de luxo, carro importado. E, claro, o noivado com Clara Albuquerque — a arquiteta promissora que completava a imagem perfeita que ele cultivava diante do mundo.
Clara era, para ele, mais do que companheira. Era símbolo. Representava estabilidade, respeito social, continuidade. Ele não era homem de grandes arroubos românticos, mas acreditava que amor se media em constância, não em paixão passageira. A paixão, dizia, era chama que queimava rápido. A constância, essa sim, sustentava um lar.
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Naquela manhã de quarta-feira, Henrique entrou em seu escritório com o olhar sério. A secretária entregou-lhe uma pilha de processos, e ele os revisou com rapidez meticulosa. O caso mais importante do dia era uma disputa milionária entre duas construtoras — justamente o setor em que Clara trabalhava. Não pôde evitar um breve sorriso: seria interessante contar a ela, no jantar daquela noite, como tinha garantido vitória ao cliente. Clara sempre parecia admirar quando ele falava sobre conquistas profissionais.
Mas, ultimamente, havia algo diferente nela. Henrique percebia, ainda que Clara tentasse disfarçar. O olhar dela vagava durante os jantares. O sorriso vinha tardio. Às vezes parecia distante mesmo quando estava ao seu lado.
Ele atribuía aquilo ao estresse do trabalho, ou talvez à pressão natural dos preparativos para o casamento. Mas uma sombra de inquietação começava a rondar seus pensamentos.
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À noite, encontrou Clara no restaurante escolhido a dedo: ambiente sofisticado, menu cuidadosamente harmonizado. Henrique acreditava que momentos a dois deveriam ter qualidade, não improviso.
— Como foi seu dia? — perguntou, após o garçom recolher os cardápios.
— Corrido… — Clara respondeu, mexendo no guardanapo. — Tive reunião com o conselho sobre um novo projeto.
Henrique assentiu. Ele conhecia bem a dedicação dela ao trabalho. Admirava isso, ainda que, em silêncio, acreditasse que depois do casamento ela deveria desacelerar, talvez pensar em filhos. Não dizia em voz alta — sabia que Clara era orgulhosa da própria carreira — mas dentro de si via o casamento como etapa de mudança.
— Vai passar — disse, oferecendo um sorriso breve. — O casamento está próximo. Logo tudo se acalma.
Clara ergueu os olhos, e por um instante Henrique viu algo neles: hesitação. Uma chama estranha, como se ela carregasse um segredo.
— Está feliz, não está? — perguntou ele, firme, mas sem alterar o tom.
— Claro que sim… — respondeu, mas a pausa antes das palavras foi suficiente para acender um alerta dentro dele.
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Naquela noite, ao deitar-se, Henrique ficou mais tempo acordado do que de costume. Observava o teto, os dedos entrelaçados sobre o peito. Ele não era homem de inseguranças, mas a sensação de perder controle o incomodava profundamente. Clara era sua noiva, seu futuro. Qualquer fissura naquela estrutura lhe parecia ameaça pessoal.
Henrique não se via como ciumento. Não vasculhava celulares, não fazia cenas. Orgulhava-se de sua racionalidade. Mas racionalidade também podia ser arma afiada: observava gestos, silêncios, detalhes. E Clara, ultimamente, parecia carregar uma ausência que não sabia explicar.
“Não vou perder”, pensou. Não de maneira possessiva, mas com a convicção de quem nunca aceitara derrotas.
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Dois dias depois, no escritório, um colega comentou sobre uma exposição de fotografia que estava atraindo atenção na cidade. Henrique ouviu sem dar muita importância, até que, naquela noite, Clara mencionou casualmente que pensava em visitar a mostra com uma amiga.
Henrique franziu o cenho. Não era comum Clara se interessar por arte contemporânea. Sua vida era feita de linhas retas, de projetos sólidos, de cálculos exatos. Uma exposição de rua não parecia combinar com ela.
— Fotografia? — perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Pensei que preferisse arquitetura clássica.
Clara sorriu de forma estranha.
— Achei interessante. Quero ver como captam a cidade.
Henrique não insistiu. Mas guardou a informação.
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Na semana seguinte, acompanhou-a em um jantar com amigos. Notou novamente os olhares distantes, as risadas que não alcançavam os olhos. Ao sair, no carro, segurou a mão dela com firmeza.
— Você anda diferente, Clara. O que está acontecendo?
Ela hesitou, encarando a rua pela janela.
— Nada. Só… cansaço.
Henrique respirou fundo. Não discutiu. Mas, dentro de si, a inquietação tornava-se certeza: algo havia mudado.
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Henrique não era homem que aceitava incertezas. Para ele, problemas existiam para serem solucionados. Se Clara estava confusa, ele encontraria a origem. Se havia uma ameaça, ele a eliminaria. Essa determinação, que o tornara advogado brilhante, agora se voltava para a vida pessoal.
Mas havia algo que ele não compreendia: o amor não se defendia com argumentos, não se ganhava com lógica. Henrique acreditava que bastava ser o homem perfeito, o noivo exemplar, o provedor confiável. Nunca imaginou que Clara pudesse desejar algo diferente: imperfeição, intensidade, risco.
E era justamente isso que, sem que ele soubesse, começava a afastá-la.
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Na madrugada, Henrique levantou-se, foi até a varanda do apartamento e acendeu um charuto — hábito que mantinha em segredo, pois não combinava com sua imagem impecável. Olhou para a cidade iluminada, pensativo.
— Se há alguém… — murmurou, sem completar a frase.
O silêncio da noite devolveu-lhe apenas o eco da dúvida.
Henrique não sabia ainda quem era Rafael. Não sabia que a chama que começava a consumir Clara vinha de um fotógrafo de rua com sorriso fácil e olhos que viam além das fachadas. Mas sabia, com a convicção que sempre o guiara, que não perderia.
Nem um caso no tribunal, nem a mulher que escolhera para compartilhar a vida.
Capítulo – O Amor que Aperta
Dona Lúcia Albuquerque acordava todos os dias antes do sol. O corpo, acostumado por décadas de trabalho duro, já não precisava de despertador. Vestia o mesmo avental gasto, preparava o café forte e, mesmo morando sozinha desde que Clara saíra de casa, punha duas xícaras na mesa. Hábito antigo, memória de tempos em que dividia as manhãs com a filha.
Aos cinquenta e oito anos, Lúcia carregava nos olhos castanhos o cansaço de uma vida inteira de renúncias. Fora balconista, cozinheira, faxineira. Nunca escolheu seus empregos: aceitava o que aparecia, porque a prioridade era Clara. Desde que o marido as abandonara, quando a menina tinha apenas oito anos, Lúcia se tornou pai e mãe, protetora e provedora.
— Você vai ser alguém na vida — repetia à filha, enquanto lhe penteava os cabelos antes da escola. — Não vai viver como eu.
Esse mantra virou combustível. Cada noite de ônibus lotado, cada hora extra, cada comida requentada era suportada com a certeza de que estava pavimentando um futuro melhor para Clara.
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O dia em que Clara entrou na faculdade de Arquitetura foi, para Lúcia, um triunfo pessoal. Lembrou-se das vezes em que ouvira vizinhos dizerem que a menina talvez não fosse longe. Orgulhosa, repetia para todos:
— Minha filha vai ser arquiteta.
Anos depois, quando Clara apareceu em casa de mãos dadas com Henrique, o advogado impecável, Lúcia sentiu o coração se inflar. Não era apenas um noivo. Era a confirmação de que sua filha estava ascendendo a um mundo que sempre lhe fora negado. Famílias influentes, estabilidade financeira, respeito social. Para Lúcia, era como se, finalmente, Clara estivesse colhendo os frutos que ela plantara com tanto esforço.
— Ele é o homem certo, minha filha — dizia, com convicção. — Ao lado dele, você nunca vai passar necessidade.
O que Lúcia não percebia era que, ao enxergar Henrique como símbolo de vitória, tratava o amor da filha como contrato social.
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Naquela tarde de sábado, Lúcia preparava feijão na panela de pressão quando Clara chegou para visitá-la. A filha entrou com os cabelos soltos, roupas elegantes, perfume discreto. Sempre linda, sempre impecável. Mas os olhos… Lúcia conhecia aqueles olhos. Eram os mesmos que, na infância, se enchiam de lágrimas escondidas quando sentia falta do pai.
— Está tudo bem? — perguntou Lúcia, enquanto servia o almoço.
— Claro — respondeu Clara, sentando-se à mesa.
Mas a mãe percebeu a pausa longa demais, o garfo girando distraído entre os dedos.
— Você anda estranha, filha. Não vai me dizer que é nervoso do casamento?
Clara suspirou. — Talvez seja só cansaço.
Lúcia pousou a mão sobre a dela. — Ouça o que vou dizer: casamento dá trabalho, mas vale a pena. Henrique é um bom homem. Você não vai encontrar outro igual.
Clara desviou o olhar. — Eu sei, mãe…
Mas a hesitação em sua voz deixou Lúcia em alerta. Um frio percorreu-lhe o corpo.
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À noite, sozinha em seu quarto, Lúcia refletia. Não podia admitir que Clara colocasse tudo a perder. Não depois de tanto sacrifício. Lembrou-se das vezes em que não comprara roupas novas para poder pagar o curso de inglês da filha. Das madrugadas em que chorara de dor nas mãos, inchadas de tanto esfregar roupas, mas ainda assim acordava cedo para preparar o café da menina.
“Não pode ser em vão”, pensou. “Ela não pode jogar fora a chance que eu nunca tive.”
Esse pensamento, embora nascesse do amor, era também prisão. Lúcia não percebia que projetava sobre Clara sua própria frustração.
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Alguns dias depois, encontrou Henrique em uma reunião informal para tratar dos preparativos do casamento. O rapaz, educado como sempre, falava sobre o buffet, os convites, a lista de convidados. Lúcia o ouvia encantada.
— Clara é de sorte — comentou, com brilho nos olhos. — Você é um homem íntegro, Henrique.
Ele sorriu, agradecido. Mas não deixou de notar quando ela completou:
— Espero que minha filha saiba o tesouro que tem.
Henrique ficou em silêncio, mas guardou aquelas palavras. A desconfiança que já carregava em relação à distração de Clara ganhou ainda mais peso.
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Uma semana depois, Clara voltou à casa da mãe. Estava diferente: mais leve, com um brilho estranho no olhar. Lúcia, atenta, percebeu de imediato.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, enquanto servia café.
Clara hesitou. — Não, nada… Só estou feliz.
Mas a felicidade parecia vinda de um lugar secreto. Lúcia franziu o cenho. Conhecia a filha como ninguém. E aquilo não era sobre Henrique.
Uma inquietação tomou conta dela. Quem estaria mexendo com o coração da filha?
— Clara, olhe para mim — disse, séria. — Você não pode colocar tudo a perder.
— A perder? — Clara repetiu, confusa.
— Esse casamento. Esse futuro. Você acha que no mundo lá fora existe homem melhor que Henrique? Existe segurança maior que a que ele te oferece?
Os olhos de Clara marejaram, mas ela não respondeu. Levantou-se, disse que precisava ir, e deixou a xícara pela metade.
Lúcia ficou sozinha à mesa, o coração apertado. Não era raiva. Era medo. Medo de ver a filha repetir sua história, de sofrer como ela sofreu, de perder tudo o que conquistara com sacrifício.
Mas o medo, em Lúcia, vinha disfarçado de dureza.
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Naquela noite, deitada em sua cama, rezou em silêncio.
— Deus, não deixe minha filha errar… Não deixe que ela desperdice a vida que lutei para dar.
As lágrimas escorreram pelo rosto cansado. Não eram lágrimas de egoísmo. Eram de uma mãe que amava tanto que não sabia amar de forma livre.
Porque o amor de Lúcia era como o feijão que preparava todos os domingos: forte, nutritivo, mas pesado. Um amor que alimentava, mas também sufocava.
E, sem perceber, esse amor se tornava mais um obstáculo no caminho de Clara.