PERSONAGENS

1501 Words
Capítulo 1 – Rostos na Cidade O relógio marcava 18h47 quando Clara deixou o escritório. Os vidros espelhados do prédio refletiam o céu tingido de cinza e as luzes da avenida, que começavam a piscar no fim da tarde. Do lado de dentro, colegas ainda permaneciam diante das telas, mas ela não tinha mais forças para mais uma noite estendida. Um jantar esperava por ela: o noivo, a família dele, conversas formais sobre o casamento. Enquanto atravessava o hall, Clara ajeitou os cabelos castanhos presos num coque firme e verificou o celular. Dez mensagens não lidas de sua mãe, lembrando-a de confirmar os convites da cerimônia. Outras tantas de Henrique, todas curtas e práticas: “Jantar às 20h. Não atrase.” Suspirou. Às vezes sentia que a vida era um roteiro escrito por outras mãos. Era a noiva perfeita, a profissional exemplar, a filha que não dava problemas. Tinha orgulho disso — ou pelo menos tentava se convencer. Mas havia um espaço dentro dela, um vazio que nenhum projeto concluído ou elogio da sogra parecia preencher. Apressou o passo até o metrô. Chovia. O salto ecoava no chão molhado, misturando-se ao barulho das buzinas e ao arrastar das pessoas correndo para escapar da água. Clara mantinha a expressão séria, o olhar fixo à frente. Foi então que aconteceu. Um clique. Ela virou a cabeça de repente e viu um homem parado alguns metros à frente, segurando uma câmera. A lente ainda apontada para ela. O coração de Clara disparou, não de medo, mas de surpresa. — Desculpa — disse o homem, sorrindo de um jeito leve, quase travesso. — A luz estava perfeita. Clara ergueu as sobrancelhas, incrédula. Não estava acostumada a ser interrompida por estranhos, muito menos por um com um olhar tão direto, tão sem filtros. O homem tinha cabelos escuros desalinhados pela chuva, barba por fazer e roupas simples, gastas. Não havia nele nada da formalidade impecável de Henrique. Ainda assim, havia algo impossível de ignorar: intensidade. — Não tire fotos de desconhecidos assim — respondeu Clara, tentando soar firme. — Então me diga seu nome — rebateu ele, guardando a câmera com um movimento rápido. — Aí já não somos desconhecidos. Clara sentiu as bochechas corarem. Virou-se e retomou o passo apressado. Mas a imagem daquele sorriso ficou gravada. --- O nome dele era Rafael Viana. Naquela mesma noite, em um café de esquina onde o teto gotejava em silêncio, Rafael revisava as fotos do dia. Pessoas correndo na chuva, crianças brincando com guarda-chuvas coloridos, um vendedor de flores ajeitando um buquê. E então, no meio de tudo, a imagem dela. O clique capturara não só a expressão austera de Clara, mas algo além: a faísca nos olhos de alguém que carrega mais do que mostra. Rafael ampliou a foto e sorriu. Ele sabia reconhecer um rosto que escondia histórias. Rafael não tinha pressa na vida. Sobrevivía de trabalhos esporádicos: ensaios para revistas independentes, exposições coletivas, registros de casamentos simples. Não tinha um teto fixo nem contas robustas no banco, mas tinha algo que, para ele, valia mais: liberdade. A cidade era sua casa, e cada esquina lhe oferecia uma narrativa diferente. Gostava de observar pessoas. Gostava de congelar instantes que ninguém mais notava. Por isso, quando fotografou Clara, não foi apenas pela luz. Foi pelo contraste entre a pressa dela e a calma que ele carregava. --- Dias depois, eles se reencontrariam em circunstâncias inesperadas. Mas, naquela noite, voltaram cada um ao seu mundo. Clara chegou ao restaurante elegante onde Henrique a esperava. Ele levantou-se para beijá-la, breve, protocolar, como sempre fazia. Sentaram-se à mesa diante da família dele. Entre taças de vinho e comentários sobre investimentos, Clara se esforçava para sorrir. Henrique, com sua postura impecável e fala medida, parecia a personificação de estabilidade. Ele era correto, educado, confiável. Mas, quando falava, Clara sentia como se estivesse ouvindo um discurso já ensaiado mil vezes. O rosto de Rafael, no entanto, surgia em flashes na mente dela. O olhar intenso, o sorriso fácil. Ela se repreendeu em silêncio. Não fazia sentido. Era só um estranho na rua, um fotógrafo inconveniente. E ainda assim, em meio àquela mesa perfeita, ela pensava nele. Henrique percebeu sua distração. — Está tudo bem? — perguntou, mantendo a voz baixa, sem quebrar a compostura. — Sim, só um pouco cansada — respondeu ela, bebendo um gole de vinho para disfarçar. --- Na madrugada, Clara voltou para casa exausta. Deixou os sapatos no canto, desfez o coque e sentiu o peso do dia escorrer junto com os fios soltos. Sentou-se na cama e encarou o próprio reflexo no espelho. “Quem sou eu quando ninguém olha?” — pensou. Não tinha resposta. --- Do outro lado da cidade, Rafael subia a laje de um prédio antigo para fotografar as luzes da madrugada. Sentou-se na beira, com os pés balançando no vazio, e levantou a câmera. Registrou a cidade que nunca dormia, os letreiros piscando, os carros ainda correndo. Mas no visor, de repente, tudo parecia incompleto. Faltava o brilho que vira nos olhos daquela desconhecida. Ele não sabia o nome dela, mas já estava gravada em sua memória. E, sem que nenhum dos dois pudesse imaginar, o destino trataria de cruzar seus caminhos outra vez. Os Antagonistas Henrique Torres – O Noivo Perfeito Henrique sempre foi o orgulho da família. Advogado de renome em um dos escritórios mais influentes da cidade, ele aprendeu desde cedo que disciplina e aparência eram tudo. Vestia ternos impecáveis, falava com calma calculada e tinha um jeito de sorrir apenas o necessário, nunca em excesso. Para muitos, ele era a definição de estabilidade. Para Clara, Henrique representava o caminho seguro: um homem confiável, respeitado, um parceiro que oferecia o futuro que todos diziam ser ideal. Mas havia algo que ele não mostrava facilmente: um desejo quase obsessivo por controle. Não gritava, não perdia a compostura, mas seu olhar carregava uma exigência silenciosa de perfeição. Henrique amava Clara à sua maneira — ou pelo menos acreditava amar. Para ele, amor era sinônimo de compromisso, de tradição, de estabilidade. O problema é que nunca percebeu que, enquanto oferecia segurança, sufocava a alma dela. Quando começa a sentir o distanciamento de Clara, a obsessão pelo controle se intensifica. Ele não se permite perder: nem no tribunal, nem na vida pessoal. Para ele, Rafael não é apenas um rival, mas uma ameaça ao equilíbrio cuidadosamente construído. Henrique é um antagonista complexo: não é c***l, mas é cego. Sua incapacidade de entender o que Clara realmente deseja o transforma em barreira quase intransponível. --- Dona Lúcia Albuquerque – A Mãe que Sonha Alto Lúcia, mãe de Clara, é uma mulher que passou a vida inteira abrindo mão de seus sonhos para garantir que a filha tivesse tudo que ela não teve. Trabalhou em empregos que odiava, sustentou a casa sozinha por anos, e se orgulha de ter dado a Clara a chance de estudar, de ser alguém no mundo. Mas, no processo, Lúcia criou expectativas quase inalcançáveis. Para ela, o noivado com Henrique é o maior triunfo — a prova de que todo sacrifício valeu a pena. Vê nele não apenas um bom partido, mas a realização de seu próprio sonho frustrado de ascensão social. Quando percebe a hesitação da filha, Lúcia reage com severidade. Não aceita a ideia de que Clara possa colocar tudo a perder por um “fotógrafo sem futuro”. Sua voz não é apenas julgamento: é a pressão de uma vida inteira de renúncias. Amar Rafael significa, para Clara, enfrentar também o peso da decepção da mãe. --- A Cidade – A Testemunha Impiedosa Mais do que cenário, a cidade é um personagem vivo. Ela é ao mesmo tempo cúmplice e antagonista. As ruas iluminadas oferecem encontros secretos, mas também guardam olhos atentos. O trânsito caótico separa e atrasa. As pressões do trabalho, os jantares formais, os compromissos intermináveis — tudo na cidade parece conspirar para manter Clara presa ao mundo que conhece. Enquanto Rafael vê liberdade em cada esquina, Clara vê dever. A cidade é o espaço de contradições, onde o amor deles floresce e, ao mesmo tempo, onde é mais difícil mantê-lo. --- O Tempo – O Inimigo Silencioso O maior obstáculo de Clara e Rafael talvez não seja uma pessoa, mas o próprio tempo. Cada dia que passa aproxima Clara do casamento, dos compromissos selados, das decisões definitivas. Cada encontro furtivo com Rafael é também uma contagem regressiva. O tempo não espera — ele pressiona, sufoca, força escolhas. Rafael, acostumado a viver o presente, sente essa urgência com medo: e se Clara nunca tiver coragem de romper? Clara, por sua vez, sente o peso de cada segundo perdido, dividida entre adiar e enfrentar. --- Resumo dos Antagonistas Henrique: o noivo perfeito, cujo amor é feito de controle e convenções. Lúcia: a mãe de Clara, que vê no casamento uma vitória pessoal e social. A Cidade: a força urbana que tanto acolhe quanto oprime. O Tempo: o inimigo silencioso, que não permite adiamentos infinitos.
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