***
Irina
Quem me deitou na cama? — Perguntei tentando parecer brava, mas o medo assolou meu tom de voz. Senti meu lábio superior tremer no canto.
Você foi sozinha, ué! — Tarik respondeu sorrindo. Logo em seguida deu uma risada fraca e confusa.
Tarik, isso não tem graça! — Cruzei os braços.
Tá, se quiser, não acredita. — Ele deu de ombros e entrou para casa.
Mica...Me fala o que aconteceu, por favor! — Ok, dessa vez eu não consegui conter a súplica trêmula e chorosa.
Estávamos almoçando normalmente. E você terminou sua comida, colocou o prato na pia, pegou seu livro e foi pro quarto. — Mica respondeu, confuso.
Mas eu fui comer na sala e assistir um vídeo de uma fita cassete! Vocês todos viram eu me retirando da cozinha... — Protestei.
Me conta como era, e o que você fez depois de ter terminado? — Ele pareceu acreditar em mim.
Contei tudo, desde a hora que eu fui assistir até a que eu acordei dos dois sonhos.
Micael e Miguel se entreolharam, assustados.
Venha, entre!
— Miguel me puxa pelo braço e Micael tranca a porta, janelas e logo sobe para o andar de cima.
Miguel me pede para me sentar na poltrona, que ficava de frente pros sofás. Ele me encara e troca olhares com Tarik.
Micael desce as escadas e se junta a eles.
Irina...Temos que te contar uma coisa. Mas por favor, você DEVE acreditar em nós...Nada disso é brincadeira! — Tarik disse apertando suas mãos uma contra a outra, com dedos entrelaçados.
— Assenti.
Você acredita em demônios, anjos, crianças que nascem sendo “escolhidas” ou até amaldiçoadas? — Miguel perguntou.
Ah... Não!? — Falei segurando a risada e arqueando a sobrancelha, como se aquilo tudo fosse piada — mas o que isso tem a ver com meu sonho?!
Não tem “a ver” — Miguel fez aspas — com seu sonho e sim o que VAI acontecer.
Calma...Olha, — Micael suspirou — você foi amaldiçoada. Antes mesmo de ser gerada... Mas acontece que... Demônios anseiam pelo seu sangue, em te ter. E se eles conseguirem, você será a chave pro Apocalipse. A ordem final está lá fora, caçando você.
A maldição constituiu por uma divindade. — Miguel disse, fazendo uma pausa dramática. Parecia que ele ainda estava decidindo se continuava a falar.
E então, prosseguiu numa história absurda, da qual me arrepiou e ao mesmo tempo me deu uma vontade enorme de dar uma risada incrédula: Sei que você conhece a história de Deus, universo, anjos, demônios e afins. Mas, acima de tudo isso, haviam três divindades maiores que qualquer coisa, maiores que Deus. Você provém desta linhagem e nós sabemos de cada detalhe, mas não podemos lhe contar tudo. É para seu bem e sob ordem maior.
Que idiotice, vocês não servem nem para inventar uma historinha b***a! — Enfim, eu disse, dando risada enquanto cruzava os braços.
Historinha b***a?! Vai lá fora, agora...E fique lá até meia-noite. Você verá a historinha b***a! — Tarik vociferou, me fazendo desfazer o sorriso em questão de segundos — Você não sabe o risco que está correndo, garota. Eu e Micael estamos aqui pra te proteger, inclusive o Miguel. Iremos morrer em sua defesa, se for preciso.
Eu não acredito... Podem parar de palhaçada! — Me levantei, feroz — Se quiserem brincar de três mosqueteiros, que brinquem, mas não me ponham nessa idiotice! Quando nossos pais chegarem, vou contar toda essa palhaçada pra eles e o pai vai ficar muito bravo, ele não gosta que fiquem falando sobre demônios e coisas assim dentro de casa! — Me dirijo para as escadas, marchando. Meus pés faziam um barulho seco e fino sobre o piso de madeira laminado.
Senti algo quente segurar meu braço, fazendo meu corpo levemente virar-se e meus pés darem dois passos para trás.
Eu me importo com você...Por favor, tome muito cuidado com as pessoas e por onde você anda. — Micael me disse gentilmente. Seus olhos brilhavam, preocupados. Senti um gosto metálico na boca e meu coração palpitou. Senti medo de algo do qual eu não sabia o que era e pena de Micael.
Eu assenti, mas não conseguia acreditar. Fui pro meu quarto e me deitei na cama.
Sinto meu corpo despertar-se. Dormi sem meu edredom, e naquela noite estava frio. Me dei conta de que dormi, mas parecia apenas que eu havia apagado. Sonolenta, olho ao redor do quarto e encontro a porta entreaberta. A alguns centímetros ao lado, na estante, avistei meu console que estava de volta.
Fui até a cozinha pegar algo pra comer, e meus pais estavam lá...Eles conversavam em sussurros e quando me viram, se calaram.
Por que todo mundo nessa casa, quando me veem, param de falar? Qual é? — eu disse pegando uma maçã.
Assuntos pessoais. Bom, eu e seu pai vamos dormir, amanhã temos que voltar ao trabalho extra.
Eu: Que?! Vocês estão trabalhando de que?
— Meus pais se encaram.
Num Evento...É, evento! — Meu pai não sabe nem disfarçar. Deveria desistir de ser um mentiroso.
Sei... — Eu disse franzindo o cenho e dando uma mordida grande na maçã.
Eles não disseram nada e subiram. Eu fiquei sentada, comendo... Até que eu ouço uma voz gélida e metálica sussurrar em meu ouvido: “Pesadelo!” Eu me assusto e a luz da cozinha pisca. Olho em volta e não havia ninguém, apenas o silêncio e sons fracos de grilos cricrilantes.
Termino de comer minha maçã rapidamente, jogo o talo no lixo e me dirijo até a pia para lavar as mãos. A água estava como gelo, o que fez minha mão doer e parecer adormecer.
Enquanto eu secava as mãos, vi de relance através da grande janela que ficava de frente para a pia, que algo clareou o campo lá fora.
Ergui a cabeça imediatamente e como em uma bola de luz incandescente, algo acabara de cair um pouco distante, dentro da floresta. Pude ouvir estalos secos de galhos se partindo...Foi meio longe, não se dava para ver mais nada, pois tudo voltou a ficar escuro. Abri a gaveta, peguei uma lanterninha de plástico e saí, correndo em direção a luz.
— Super normal, você vê uma bola luminosa vindo da p**a que pariu e depois vai atrás dela! – Sussurrei pra mim mesma.
Eu estava bem longe de casa e comecei a sentir o cheiro de enxofre, que parecia queimar minhas narinas. A medida em que eu me aproximava, o cheiro ficava mais forte.
Quando cheguei bem perto, só tinha a grama queimada e um círculo quase perfeito em forma de uma rasa cratera sobre o chão arenoso. Deduzi que aquilo foi apenas um raio... Afinal, árvores atraem raios.
Me virei e automaticamente olhei mais adiante. Havia alguém deitado no chão, de costas pra mim. Não deu pra ver direito as características dele... Mas esse garoto está bem m*l.
Cheguei com cautela perto dele e suas roupas estavam meio rasgadas e queimadas. Sua pele branca estava suja por lama. O chamei, chacoalhei e até dei leves toques com os pés...Mas ele não reagiu. Será que tá morto?!
Cheguei a respiração e os batimentos, que apesar de fracos, estavam presentes.
Resolvi levá-lo para casa. Mas ele era pesado demais, talvez o dobro do meu peso. Guardei a lanterninha no bolso, peguei o garoto pelas pernas e fui o arrastando. O chão deslizante ajudou bastante no trajeto, a grama fofa era uma ótima aliada.
Acho que as costas dele vão ficar só o p*u da rabiola. E tenho certeza de que ele acordará todo quebrado.
Cheguei na porta de casa e a abri. Consegui arrastar o tal rapaz pelas escadinhas que davam para a entrada de casa. Com muito cuidado o subi as escadas e o arrastei até meu quarto. Meus pulmões pareciam que iam explodir, meu corpo doía pelo esforço que eu estava fazendo; minhas costas pareciam que ia se esfarelar.
Tranquei a porta do quarto e o levei até o banheiro e despi o rapaz, o deixando só de cuecas. O corpo dele era um pouco magricela, mas definido. Estava com hematomas, cortes e muito sujo.
Eu o coloquei embaixo do chuveiro, deixando a água quente limpá-lo, lavei o cabelo dele, esfreguei sua pele gélida devagar com a bucha e quando olhei as costas dele, estava toda arranhada, com ferimentos em buracos pequenininhos - Aquilo até me fez ter uma sensação de como deve ser ter tripofobia.
Terminei, o enxuguei, penteei o cabelo dele e com dificuldade, o deitei sob meu tapete felpudo que ficava entre minha cama e a parede que havia a janela.
Fui até a gaveta e procurei algo que me ajudaria a tratar os machucados. Só achei algodão e gaze. Desci até a dispensa, peguei soro, pomada e tornei a seguir para meu quarto, quando me deparo com Tarik, que estava no meio do corredor. Ele iria passar na frente do meu quarto pelo jeito. Eu simulei uma queda e ele se virou em minha direção, confuso.
Peguei as coisas que caíram no chão e corri; por fim, tranquei a porta. — Eu sabia que isso iria me dar problemas pela manhã.
Cuidei do garoto que caiu do céu ou até mesmo que levou um raio na cabeça. E me deitei na cama, analisando-o atentamente. Eu não sabia se chamava meus pais ou apenas deixava tudo como está. Não teria como ligar pra polícia ou ambulância, pois aqui o sinal no celular é escasso, mas eu sentia também que não deveria contar pra todo mundo.
Acabei perdendo o sono e fiquei encarando-o... seus lábios estavam desidratados e com um corte na lateral. Os cabelos dele pareciam ficar mais bonitos a cada minuto, era um loiro sedoso que dava até vontade de ficar tocando. O rapaz estava respirando com dificuldade, pelo jeito, mas eu não podia desvirá-lo. Não parei de encará-lo pois ele ou algo nele hipnotizante...
Meus devaneios são quebrados no momento em que ele abre os olhos. Olhos azuis como o céu. Eu me assusto e caio da cama, em cima do meu braço esquerdo, o que fez formigar brevemente, logo esqueci aquele desconforto quando me lembrei daquele olhar frio.
Eu me afastei rapidamente e peguei um livro de Wikipédia e apontei pra ele, eu sentia meu coração bater descontroladamente e um grito se prender em minha garganta como em um nó.
Não-Não ouse fazer nada... E-eu tenho uma Wikipédia e não tenho medo de usá-la! — Eu estava tão assustada que nem percebi a m***a que falei.
Vai fazer o que com ela?! Jogar na minha cabeça e me transformar em Stephen Hawking? — o garoto disse dando risada.
Pensei logo: AI QUE DEUS GREGO É ESSE? NÃO, ELE PODE SER UM PSICOPATA! É POR ISSO QUE AS PESSOAS MORREM!
Como você melhorou tão rápido? alguns segundos atrás você estava morrendo! — Me recompus, ainda apontando a Wikipedia em direção a ele em posição de quem estivera prestes a atacar.
Não sei...O que estou fazendo aqui? — Parecia que ele se recobrou à realidade, pois sua expressão de confusão e susto era visível.
Acho que você estava andando e um raio te atingiu e eu te encontrei caído na floresta... — Falei, insegura.
Obrigado — Disse ele.
Como você se chama? — Falei ficando com postura ereta, mas não soltei a wiki.
Hm...— semicerrou os olhos, tentando se lembrar — É... Ai! — ele colocou as mãos na cabeça — Me desculpe, e-eu não consigo me lembrar de nada...
Tudo bem, ...Mas consegue me dizer se você é um e********r? — Perguntei
Se eu for, me libertei, porque não sei qual a definição dessa palavra. — Ele arqueou a sobrancelha. Pareceu ter dito a verdade.
Ah, de boa então... — Suspirei.
Qual seu nome? — Perguntou.
Irina. — Falei secamente.
Já que eu não sei meu nome, me chame de... Sier. É a única coisa que me veio na mente, mas sinto que este não é o meu nome. — Ele se sentou na ponta da minha cama, parecendo abatido e cansado.