Capítulo 1 - Tarik

1252 Words
Tarik Confesso, Irina tem estado muito diferente ultimamente. Eu diria que era a presença de Miguel que a deixava mais retraída, mas não. Eu sabia que os eventos já iniciavam para ela. Não sei o que ela está passando ao certo. Ela está aqui, mas ao mesmo tempo, parece estar em uma realidade totalmente diferente a nossa. É quase palpável esse mundo novo em que ela está, eu posso sentir, e não é nada bom. Sinto que algo está cada vez mais perto, mas não sei o que é... É como um som distante, que parece vir de todos os lados, que procuramos atentamente a direção, mas parece não estar em nenhum canto. Mas sabemos que está ali. Não sei a hora certa de contar a verdade sobre nossos pais — Algo me impede. Eu já cheguei várias vezes até a porta do quarto dela, parei, pensei e desisti. Foram anos escondendo a verdade, e se eu contar agora, vai parecer que estou vomitando a realidade em cima dela, sem mais nem menos. Eu não deveria me importar tanto, aliás, eu sou só uma encarnação no corpo do irmão gêmeo dela... — Mas algo dele permaneceu aqui: O amor. Eu nunca havia sentido antes, em milênios de vida. É algo tão forte que me deixa como se eu estivesse acorrentado a este corpo, a ela. Eu nunca imaginei como o laço de família é forte. Um amor genuíno e puro... A necessidade constante em proteger quem é família, quem está ligado a mim de alguma forma. Ela é a minha irmã desde o momento em que me prendi a este corpo. É a única coisa que tenho. Eu sou um demônio. E Irina não é uma humana comum, mas pelos céus, espero que ela jamais se lembre de quem é. *** Após o tenso momento de discussão, as coisas se apaziguam. Os três rapazes estavam exercendo seus afazeres terrestres. – Digo, manter uma casa e cuidar de alimentação. Seus corpos ainda frágeis e carnais tinham suas necessidades. Até mesmo Miguel não conseguiu se manter firme em sua decisão de não se alimentar com a comida humana. Quase uma hora depois, Irina aparece. Um alívio para os rapazes que tinham uma missão: Mantê-la sã e salva. Mas do que? Apenas eles podem dizer a respeito. Irina soltando um suspiro embargado, deposita gentilmente as sacolas de compras em cima do balcão de mármore em formato de “L”, que rodeava metade da parede direita da cozinha. Isso mesmo, á sua direita – que servia de suporte para o fogão embutido, a pia com alguns pratos e talheres sujos, entre outras coisas. A preparação do jantar sucedeu-se normalmente após as compras necessárias chegar. Os rapazes conversavam sobre assuntos de...rapazes. Irina apenas sentou-se com seu novo livro e começara a ler. A garota parecia estar totalmente imersa à leitura. Os rapazes não puderam deixar de notar o silêncio quase mortal que Irina proporcionava em seu canto, numa pequena mesinha de madeira falsa que havia logo ali, num pequeno espaço entre a entrada da cozinha e a geladeira. Os garotos se entreolhavam, parecia que ela não estava ali. Pelo menos, não mentalmente... *** O jantar está quase pronto, mana! – Tarik disse, na esperança de trazê-la de volta ao real. Irina o ignora completamente. Esse livro deve realmente ser muito bom! – Micael disse, dando um sorrisinho, soltando um arfo involuntário. Às vezes sua irmã me deixa quase que com medo. Olha só, parece que nem é ela ali... – Miguel, como sempre desconfiado, disse olhando fixamente pros olhos de Irina. Por um momento pôde jurar que seu olhar até parecia fosco demais. Parecia até que estava empalhada. Deixem-na! Se não fosse estranha, não seria ela. – Tarik deu de ombros. O jantar estava pronto. O aroma de uma boa comida caseira dominava o ambiente. Fazia estômagos roncarem quase em coro. Micael delicadamente tocou o ombro de Irina, tentado acordá-la do transe da suposta boa história da qual ela lia. A garota sorriu, gentilmente, agradecendo por avisá-la. Então, ela se levantou, calmamente e fechou seu livro. Ela encarou Micael, a poucos centímetros de seu rosto. Parecia analisá-lo até a alma. O olhar castanho de pupilas semi-dilatadas percorreu o rosto de Mica, deslizou para seu nariz levemente achatado e estacionou em seus lábios carnudos. Irina suspirou, quase angelical demais. Seu sorriso antes aberto, tornou-se em um sorriso de canto, como se pensasse algo mais que não deveria estar pensando. Nunca te observei sob essa perspectiva, Micael. – Disse enfim, Irina. Micael corou levemente sob sua pele morena. Ela então caminhou quase bailando até a mesa de jantar, onde as panelas estavam postas. Tarik e Miguel olhavam confusos para o que acabara de acontecer. Ambos não conseguiam proferir uma palavra sequer. A garganta parecia ter um nó, que parecia impedir até que a comida descesse. Irina enfim, sentou-se e se serviu, com um sorriso leve em seu delicado rosto oval. Passou uma mexa de seu cabelo para trás da orelha e sentou-se. Micael veio logo em seguida, e atônito, serviu-se sem dizer um pio sequer. O jantar sucedeu, silencioso. Então, Irina... qual é o nome do livro que você está lendo? – Perguntou Miguel, quebrando o gelo. Anjos e Demônios, 1887! – Ela disse normalmente. Pareceu que tinha voltado ao normal – Se tiver interesse, te empresto assim que eu terminar de ler. – Disse enquanto depositava em sua boca, uma garfada de arroz com bife. Ótimo, estou precisando de algo diferente para passar o tempo! – Miguel disse, corando. A garota não respondeu imediatamente, mas soltou um suspiro de risada. Te deixei acanhado, Miguel? – Enfim, Irina deu um sorriso malicioso. Todos puderam notar a ênfase que ela deu ao dizer o nome “Miguel”. Você? – Miguel gargalhou, sarcástico. Irina continuou com aquele sorriso durante todo o jantar. Sem dúvidas o clima estava muito mais estranho que de costume – e parecia piorar a cada segundo. Todos terminaram e recolheram a mesa. Irina recolheu seu livro e subiu para o quarto, dando um breve “Boa noite” aos garotos. Todos observaram o modo do qual ela andava... Era muito diferente do comum, era como se ela fosse uma bailarina – A delicadeza ao tocar os pés no chão, parecia até que estava pisando em nuvens a cada degrau curto da escada de madeira. Assim que ela desapareceu no segundo andar de corredor escuro, os garotos se entreolharam. Transmitiam um olhar de pavor... E isso assustava-os mais ainda: Saber que todos ali estavam sentindo medo. Que p***a foi essa?! – Micael disse, tropeçando nas palavras. Cara, certamente não era ela ali! – Miguel disse, dando um t**a no braço de Tarik, que se não fosse o que era atualmente, teria sentido como se seu braço se descolasse do corpo. Vocês acham que não percebi?! – Tarik disse, sem preocupação nenhuma em demonstrar seu pavor – O que podemos fazer? Parece que ela está tentando recobrar a consciência. E vocês sabem a quem me refiro no “ela”. Também me faz arrepiar até onde eu não sabia que era possível, ao pensar em pronunciar o nome dela. – Micael disse abraçando a si próprio. Não se preocupem, nós já sabíamos o que poderia acontecer um dia, e é por isso que estamos aqui. Ela não é algo assim tão r**m, é só fazermos o certo. – Miguel disse semicerrando seus lábios que já voltaram a serem rosados, após a palidez de pavor.
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