Capítulo 5 — Rosa

2782 Words
Estava há cinquenta dias treinando exaustivamente com Bersanni pela manhã e com meu pai à tarde. O Ukemi, a queda, eu já dominava, assim como os rolamentos. Victor começara a me ensinar os golpes básicos, o que era bem mais divertido. Desacelerei o passo, após a minha quinta volta correndo na pista de cooper, passando para uma leve caminhada ao lado de uma das pessoas que mais admirava no mundo. — E aí, vó? — Sorri para a mais bela das velhinhas. — Já deu quantas voltas? — Cinco, menina — ela respondeu, cansada. Com vovó Rose era sempre assim: “menina”. Jamais Diana, D, Clark, mulher e nem mesmo garota. Perto dela, eu era apenas sua menina. — Decidiu se vai comigo para Vegas? Eu precisava viajar para gravar um comercial, e Derek iria comigo, mas na mesma época teria uma apresentação na escola de Amanda. Uma encenação antes das férias de verão que me deixou sem meu companheiro de viagens. Seu olhar perfurava o meu ao me encarar por cima dos óculos escuros. Podia ouvir o “Está louca, menina? Não saio da minha casa nem por um milhão de dólares”. O boné rosa brilhava sob o sol forte, e o corpo magro se balançava ao ritmo da caminhada. Era estranho como ela parecia feita de pele e osso, quase sem carne, as roupas sobrando em seu corpo diminuto. Até a estatura estava menor. Não queria pensar em minha avó murchando como uma flor no deserto. Involuntariamente minha mão pousou na flor, tatuada na lateral da minha cintura. Suas pétalas, de um vermelho intenso, com o interior amarelado, começavam acima da última costela. O caule, fino e com espinhos no lugar de folhas, terminava no quadril. Era uma flor de cacto do deserto, das que minha avó cultivava em seu jardim. Eu fiz a tatuagem quando tinha dezoito anos e achava que vovó morreria de pneumonia. Quis marcá-la em minha pele, em uma tentativa de mantê-la junto a mim. Funcionou. Ela estava viva e caminhando ao meu lado, com saúde. Aconteceu pouco antes de um campeonato amador importante. Quando subi ao ringue com a tatuagem se destacando em minha pele exposta pelo top, ganhei o apelido que sempre carreguei: Diana “The Red Rose” Clark. Eu gostava muito de ser a Red Rose. Além de ser uma homenagem a vovó Rose, de longe o desenho parecia ser de uma flor vermelha comum. Mas observando mais de perto, se percebia que era uma rosa do deserto. Nascida bela, entre os espinhos do cacto, forjada no calor e na adversidade, uma sobrevivente no mundo traiçoeiro que a cercava. — Meu Deus! — Vovó parou e colocou a mão no peito, arfando de leve, com os olhos esbugalhados. O que eu fiz? Ela estava passando m*l! Será que conjurei algum m*l ao pensar na antiga doença dela? — O que foi, vó? Fala comigo! Eu estava prestes a pegá-la no colo e chamar uma ambulância, quando apontou o dedo em direção à piscina: — Quem é aquele que eu nunca vi antes? — A firmeza em sua voz foi um alívio imediato para o meu coração apreensivo. Ainda me recuperando do susto, ela caminhou pelo espaço que nos separava da borda da piscina com passos mais firmes. Corri atrás, mas não a tempo de impedi-la de chegar até ele e falar: — Olá, garoto. Victor se virou para a minha avó. E não era um Victor qualquer, era um Victor Bersanni só de sunga, com gotículas de água escorrendo por seu peito definido, adornado pelo mesmo colar dourado que o vira usar outras vezes. Ele largou a toalha com displicência em uma cadeira próxima e estendeu a mão para cumprimentar minha avó, mas ela aproveitou e o abraçou, com direito até a dar um beijo em cada lado de seu rosto. Nem com meus amigos mais próximos ela era tão carinhosa. A confusão estampada no rosto dele era hilária, e eu tentei me manter séria. — Vovó, este é o treinador novo que o papai contratou para mim — tratei de o apresentar. — Prazer em conhecê-la, senhora Clark — ele falou com toda a pompa. Tentei não revirar os olhos para o excesso de cordialidade na voz grave de Victor. Minha avó, por outro lado, amou. — Deixe de bobagem, me chame de Rose! — ela disse e se virou para mim. — Olha, você evoluiu muito, menina. De treinar com seu pai e irmão, para treinar com esse aí. Até eu quero aprender a lutar. — Me desculpe, Rose — Victor se inclinou em uma pequena reverência —, mas eu sou exclusivo de sua neta. Ele nem terminou de falar, e a mão dela foi para o seu bíceps. Eu adoraria dizer que vovó estava só se apoiando nele, ou que era daquelas pessoas efusivas que sempre tocava nos outros durante uma conversa. Estaria mentindo para mim se afirmasse qualquer uma das duas opções. Eu estava tão desconcertada com a mão saliente da minha avó, que não conseguia interferir naquela conversa sem ter um acesso de risos. — Ora, se este é o caso, então você vai com ela para Vegas, né? Não sei o que passa na cabeça da menina, mas ela quer ir comigo. Quem viaja para Vegas com a avó? Ninguém, né? — Ela não esperou que nenhum de nós dois respondesse. — Perfeito, falarei com seu pai e organizarei tudo. Vou tomar uma vitamina antes de assistir ao treino de vocês. Ambos a observamos partir em seus passinhos decididos até o lobby da academia. Eu queria que o Grand Canyon fosse naquela piscina, e não a quatro horas de viagem, para eu me enfiar dentro dele e sumir. — Sua avó acabou de me apalpar? — Diante de seu questionamento, balancei a cabeça concordando. — E ela quer que viaje com você para Las Vegas? Sim, ela era a traiçoeira que eu mais amava. — Isso, mas é claro que não precisa. — Tentei consertar. — Não faço ideia por que ela te convidou! Ah, naquele momento eu era a mentirosa. Eu sabia exatamente o que se passava na cabeça da velha casamenteira. Tinha certeza que Victor também sabia. — Se você quiser, posso ir. Sempre quis conhecer os cassinos! Te espero no tatame, em dez minutos. — Ele resgatou a toalha da cadeira, porém não havia mais necessidade dela, o sol já tinha secado seu corpo. E, sim… Eu parei para notar este detalhe. Quarenta minutos depois, estava comprando ingressos para o fim de semana pelo celular. Com a quantidade de atrações em Vegas, eu precisava planejar bem meu tempo. — Pronto, menina. — Vovó sentou-se ao meu lado, no banco em frente ao tatame, onde eu esperava meu treinador chegar. — Já falei com seu pai sobre a viagem. Larguei o telefone na bolsa e encarei a velhinha cuja expressão inocente não me enganava. — A senhora pensou em primeiro me perguntar com quem pretendo ir? — ralhei com ela. — Eu queria ir sozinha! — Você quer tanto ir sozinha, que convidou sua avó de oitenta e oito anos! — Ela apontou o dedo para mim. — Além disso, não dá certo uma menina inocente sozinha em Las Vegas. Menina inocente… Eu não era menina ou inocente havia uns cinco anos. — Agora você vai ser vovó puritana? — indaguei, com sarcasmo. — O que aconteceu com a mulher que meia hora atrás estava dando em cima de um rapaz bem mais novo? Ela sorriu de leve, uma expressão sonhadora se espalhando por todo o rosto. — Ah, se eu tivesse cinquenta anos a menos... — Vovó! — Meu tom de repreensão foi arruinado pelo acesso de riso. Pelo menos Victor não estava ali, ou ela falaria aquilo na frente dele. — Presta atenção, menina. Viu que vai ter MMA no sábado? É uma boa oportunidade para você e Victor analisarem os lutadores de perto. Isso nem foi ideia minha, viu? — Ela se defendeu antes que eu a acusasse de armar situações inconvenientes. — Foi de Derek, ele queria analisar o treinamento físico dos profissionais, mas com a festa da Mandy e seu pai sendo convidado de honra, não deu! Afinal, qual o seu problema com o garoto novo? Eu estava trabalhando com Victor havia semanas, e ele era um cara legal. Talvez esse fosse o problema, eu queria que ele fosse r**m e correspondesse à pessoa de mau caráter em minha mente, capaz de enganar uma nação inteira — até mesmo o mundo todo — por causa de uma medalha de ouro. Não conseguia enxergar esse tipo de pessoa em Victor e ficava esperando que ele deslizasse, caísse em contradição e mostrasse um lado sombrio. — Não sei, vó. Acho que fico esperando o dia em que ele trairá a mim, a academia... — revelei a verdade oculta. Vovó ponderou por um momento, antes de retorquir com uma pergunta: — Por causa do doping? Fiquei surpresa com seu questionamento, não pensava que vovó soubesse do problema de Victor com esteroides. Ela costumava ter uma opinião tão forte quanto eu em relação ao espírito esportivo. Acenei com a cabeça, assentindo. — Acho que estou sendo muito dura... — ponderei. — Todo mundo erra, né? — Um erro não define quem você é, menina! — Vovó me encarou, exasperada. — O importante é aquilo que você faz depois de ter errado. Ele pode estar arrependido, mas ainda ser aquela pessoa... Eu me sentia confusa em tudo que se relacionava a Victor. Revi documentários na internet sobre sua carreira. A maioria era em português, e eu não conseguia compreender. Mas as lutas... Mesmo que eu não fosse uma expert em judô, sabia que ele era bom. Tão bom, que meu pai o contratou, apesar de tudo. Ou talvez papai tenha enxergado em Victor algo que ainda era invisível aos meus olhos. — Para uma vovó assanhada, a senhora tá bem filosófica — sorri sem muito humor, chutando uma poeira invisível no chão. — Sou viúva, não cega. — Ela piscou um olho e deu de ombros. Será que ela tinha razão? Provavelmente o meu pré-julgamento em relação a Victor era isso mesmo, apenas um julgamento prévio, sem conhecê-lo de verdade. Não faria m*l algum baixar um pouco a guarda, dar um voto de confiança. Meu celular apitou com uma mensagem de texto de Derek avisando que não teria treino de judô porque Victor estava ocupado com nosso pai. Fúria subiu pelas minhas veias, não era possível que papai tivesse decidido com eles sobre a viagem sem me consultar! Seria a segunda vez em menos de três meses que ele tomava uma decisão importante para minha vida sem levar em consideração o que eu sentia. Aquilo era muito estranho! Papai sempre foi muito ativo, mas parecia aéreo nos últimos tempos. Um calafrio arrepiou todos os meus pelos ao pensar em todos os lutadores de boxe que já tiveram alguma sequela cerebral devido ao número de pancadas na cabeça ao longo da carreira. Não o meu pai! Precisava ter uma conversa com ele! Porém não queria deixar vovó sozinha, ela já vinha tão poucas vezes à academia. Achei melhor levá-la até Mila enquanto resolvia esta pequena pendência. O elevador parecia muito lerdo e, ao subir até o terceiro andar, esperava encontrar meu pai fazendo uma reunião importante sem mim, mas sua sala se encontrava vazia. Fiz uma busca em todas as salas do andar, mas eles não estavam em lugar nenhum. De volta ao lobby, uma mão segurou meu ombro: Victor, mais branco do que o normal e com um pouco de suor na testa, me encarou por longos segundos. — Você está bem? — Quebrei o silêncio entre nós. — A gente pode almoçar agora? — ele questionou. — Só nós dois? Estranhei seu comportamento errático, o habitual era um Victor centrado e com emoções bem controladas. — Claro... — concordei. Fomos a um dos muitos restaurantes de comida mexicana na avenida Central. Com fachada azul royal e letreiro amarelo, o Bistrô Tacos era aconchegante, com seus pratos quentes e garçons sorridentes. Victor estava muito calado e m*l olhou as mesas de madeira escura ou os sombreiros pendurados na parede. Ele pediu taco de carne, e eu optei por um vegetariano. Sua atenção se fixou na diversidade de molhos apimentados disponíveis em cada mesa. Apesar do Arizona ser rico na cultura nativo-americana, eram os mexicanos que coloriam nossas ruas com restaurantes de comida típica e música mariachi. — Gracias! — agradeci ao garçom. Saber espanhol era uma necessidade para toda criança nascida ali. Encarei o homem taciturno, que remexia o almoço com desconfiança. — O que aconteceu, Victor? Ele largou o garfo, mantendo a comida intocada: — Quando seu pai me contratou, eu vi uma oportunidade de recomeçar. Novo lugar, novas pessoas, nova carreira… Aí você surge e suas boas-vindas foram como um tapa na minha cara. Não importava que tivesse atravessado o continente, sempre seria eu — Victor falou tudo em um fôlego só. — O que não era tão r**m, posso ter feito besteira, mas sei do meu valor como lutador. — Eu não tinha o direito de dizer aquilo — coloquei pimenta no taco, só para ter algo para fazer com as mãos. Definitivamente eu me sentia m*l por ter dito aquilo. Se eu pudesse voltar atrás, mudaria o rumo daquele fatídico dia. — Seu pai falou comigo hoje sobre Vegas. Agora já sei de onde você puxou a agilidade, sua avó foi bem rápida em dar a ideia para o Machine Gun. — Victor se recostou na cadeira, menos tenso, e começou a comer. Vovó Rose tinha a capacidade de aliviar um ambiente pesado mesmo quando não estava por perto. — Ele achou que você tinha tido a boa ideia de irmos juntos para observar a luta e a preparação do sábado. Mas eu sei a verdade, vi como ficou surpresa quando ela sugeriu. Você me quer lá, Diana? Podia ter sido toda a insinuação da vovó Rose ou coisa da minha cabeça, porém eu estava mais consciente da proximidade de Victor, de como a sua pele ficou avermelhada por causa da pimenta no chimichanga, do seu sorriso torto quando falou da minha agilidade, do leve cheiro de cloro em sua pele, apesar da chuveirada rápida que tomou. Estava próxima o suficiente para notar os pontinhos verdes mesclados ao marrom de seus olhos e para notar como a gente estava perto naquela pequena mesa. Viajar com Victor era uma péssima ideia… — Acontece uma coisa curiosa com as filhas mais novas: os outros pensam que sabem do que a gente precisa ou quer. Você foi o único a me perguntar se era o que eu queria antes de tomar uma decisão por mim. Então, sim… Eu quero você lá. Ele parecia satisfeito com minha resposta. Continuamos provando a comida enquanto eu contava um pouco sobre a cidade, e ele me falava do Brasil, dos pratos que gostava. Algumas comidas eu já tinha provado em restaurantes brasileiros com Mila, mas ele disse que não tinham o mesmo sabor do feito em sua terra natal. Estávamos caminhando na Avenida Central, de volta para a academia, quando me lembrei de sua estranha palidez. Eu não queria perguntar, porém fiquei curiosa para entender o porquê de ele parecer um fantasma mais cedo. Victor observou a rua com um ar envergonhado: — Seu pai tem um jeito peculiar de conversar. Ele estava treinando no saco de pancadas enquanto avisava que me responsabilizaria pessoalmente por qualquer dano feito a você durante a viagem. Ele está muito em forma para um cinquentão, então passei quase uma hora vendo a “metralhadora de socos” do seu pai em ação. Tentei o meu melhor para não rir, papai já tinha utilizado essa tática diversas vezes antes e sempre funcionava bem. — Você imaginou sua cabeça no lugar do saco de pancadas? — questionei depois de ter certeza que não começaria a gargalhar como uma louca. — Sim. — Seus olhos esbugalhados se voltaram para mim. — Pensei que estava ficando louco! Sua expressão fingida de pânico era hilária e mais do que eu conseguia aguentar. Comecei a rir em plena rua, e ele me seguiu, numa gargalhada sincera que iluminava todo o seu rosto. Parecíamos dois malucos e não nos importávamos. — Venha, eu te pago um sorvete de sobremesa — entrelacei seu braço com o meu. Paramos diante daquele primeiro toque como amigos, sem intenção de luta ou treino. Logo voltamos a andar, como se aquilo não significasse nada. Mas eu sabia que significava.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD