Capítulo 4 — Calor e revelações

3518 Words
— Isso, Amanda! Os jabs são os socos rápidos. Vamos lá, faça junto comigo: direita, esquerda, direita, esquerda. Rápido! Vamos! Meu pai mantinha firme o saco de pancada que eu estava socando repetidas vezes sem parar, e Derek fazia o mesmo por sua filha. Nos dias em que não estava com a mãe, Mandy vinha da escola para a academia e treinava ao meu lado por uma hora. Então eu reservava esses momentos para coisas mais leves, como correr ou praticar movimentação com os pés e as mãos. Vê-la lutando me dava uma sensação nostálgica, de um tempo inocente e mais simples. Holly não sabia de nada disso, mas a aprovação de Derek já era suficiente para mim. — Mais forte, Diana! — papai comandou, e eu apliquei toda a minha força. Sempre que treinava assim, imaginava uma pessoa no lugar do saco de pancadas, e geralmente era o próximo adversário. Como não tinha nenhuma luta marcada, meu inconsciente conjurou a imagem de Victor Bersanni, o carrasco que vinha me torturando há semanas. Ainda mais depois de vencer aquela aposta. O desgraçado não me deixava em paz nem enquanto eu dormia! Na noite anterior, tive o disparate de sonhar que estava treinando rolamentos no chão com ele. E o pior, ele rolava por cima de mim, ficando na mesma posição em que me passou o imenso sermão, mas em vez de falar, me beijava! E suas mãos... Meu Deus do céu! Elas estavam em todo lugar, e eu continuava a clamar por mais. Foram escorregando pelo meu corpo, apalpando sem piedade todos os lugares que a ele deveriam ser proibidos. Balancei a cabeça. Foco, Diana! Foi só um delírio de sua mente cansada. Ele é mentiroso e trapaceiro. Um perdedor! Voltei a me concentrar no saco de pancadas: jabs e diretos no seu rosto, fígado e linha de cintura. Sem parar. Os nós dos meus dedos começaram a doer, estava sem luvas, usando apenas uma faixa. Era osso contra tecido, com um impacto intenso. De novo, e de novo, mostrando que socos podiam definir uma luta tanto quanto uma pegada. Talvez até mais… — Muito bem, essa é minha garota! Uma metralhadora como eu era! A empolgação do Machine Gun me tirou do frenesi. Abri e fechei as mãos, a dor era bem-vinda, ajudava a dissipar a adrenalina bombeada em minhas veias. A concentração era tanta, que m*l senti o gosto do isotônico descendo garganta abaixo. O que tinha acabado de acontecer? Uma coisa era me imaginar derrotando a próxima oponente, outra era fazer isso com o treinador só por causa do meu orgulho ferido. — Vamos sair hoje? — Mila se aproximou, retirando as bandagens elásticas de seus punhos. De repente, seus movimentos não estavam mais concentrados em se livrar da faixa, mantendo os pequenos ossos e juntas de sua mão firmes e unidos. Mila estava em outro lugar… Mila Mathias era uma adolescente quando chegou aos Estados Unidos. Aos quatorze anos, ela não sabia se ficava animada por morar em outro país, ou se permanecia ressentida com o pai por levá-la para longe de seus amigos e de tudo que lhe era familiar. Estava preparada para o bullying e uma difícil adaptação, porém logo descobriu que falar uma língua latina no Arizona não era algo incomum. O clima árido e as pessoas calorosas a lembravam de casa, do nordeste brasileiro. Entretanto ela só se sentiu em um novo lar quando entrou na academia e conheceu toda a família Clark… E não por causa de mim. No início, eu não estava à vontade com outra competidora talentosa, tinha quinze anos e era imatura, e ela também não era muito diferente. Derek, notando o clima estranho entre nós, interferiu e nos chamou para uma conversa séria sobre espírito esportivo e união. “Vocês são melhor do que essa briga i****a! Deixem a competição para o ringue. São as únicas garotas daqui com talento para seguir no boxe, e é isso que querem no início de suas carreiras? Ser alvo de chacota das piadinhas machistas quando estão brigando feito duas crianças birrentas?” O sermão nos fez sentir vergonha de como éramos imaturas e mesquinhas em nossas implicâncias. Com o fim de nossas brigas, se deu início a uma duradoura amizade. Mila tornou-se amiga íntima da família inteira. Ela estava fazendo uma bola com as bandagens, observando distraidamente Derek se abaixar para tirar as luvas de Mandy. Demorou meses para eu notar que algo a mais tinha se iniciado após a conversa com meu irmão. Só percebi porque o coração da minha amiga fora estraçalhado em diminutos pedaços quando Derek anunciou o casamento com Holly. A doce Mila se tornou mais feroz, parecia descontar nos ringues a dor em seu peito. Curiosamente, assim como o pai, Mandy conquistou com facilidade a jovem lutadora brasileira, como se ela tivesse percebido que a vida da garotinha valesse a dor de um coração partido. Há sete anos eu não via aquele olhar apaixonado nela. A notícia do divórcio iminente deveria ter reacendido as brasas há muito esquecidas, as transformando em chamas novamente. Eu costumava me perguntar se Derek alguma vez desconfiou dos sentimentos de Mila, afinal ele não era o mais perspicaz em termos de romance. Agora me perguntava se deveria ou não fazer algo a respeito… — Não estou muito animada... — já tivera surpresas demais por um dia — Mas vocês dois podiam ir sem mim. Derek vai mofar de tanto ficar em casa. Eu fico com a Mandy, e vocês vão. Ambos me encararam com expressões questionadoras, eram bons em fingir não compreender o motivo por trás da minha sugestão. Mila parecia constrangida, e quase tive vontade de pontuar que se Holly estava aproveitando bem sua vida de mulher divorciada, meu irmão podia também. — Depois da manhã que tive, uma bebida seria bom! — Derek disse para Mila. Deixei os dois fazendo planos e fui para os vestiários. Queria jogar uma água no rosto e refrescar o meu pescoço antes da última atividade do dia. Estava distraída, checando as mensagens no celular, quando trombei em outra pessoa, e mãos firmes me seguraram. A minha cabeça estava na altura de um peito masculino. Adorava esses novos frequentadores com camisetas cavadas, deixando à mostra toda aquela delícia de músculos bem delineados, pescoço grosso e… Afastei-me dando um passo para trás. — Desculpa… — Se eu preenchesse o silêncio, ele não perceberia como estive cobiçando seu corpo um segundo antes? Sempre o via de quimono, que escondia alguns atributos admiráveis. — Pensei que já tivesse ido embora. A cabeça de Victor pendeu para o lado, e os curtos cabelos castanhos refletiram a luz fluorescente, deixando-os com um tom quase dourado. Sua testa franziu, como se observasse um enigma, e não a mim: — Seu pai disse que quando eu não estivesse com você, era livre para usar as funcionalidades da academia. Se tiver algum problema, eu posso procurar outro lugar para me exercitar. — Bersanni parecia constrangido. Meu Deus! Ele pensava que eu o proibiria de andar pela academia? Talvez estivesse sendo hostil demais... — Não precisa se preocupar, não vejo problema algum. — Eu me obriguei a manter o olhar acima do pescoço. Ele sorriu, e seus olhos brilharam como ônix. Eu nunca tinha visto um semblante tão relaxado em seu rosto. Era tão contagiante, que falei a primeira coisa i****a que passou na minha cabeça: — Eu vou fazer uma caminhada agora na pista de cooper, quer ir comigo? A minha intenção inicial era correr vinte voltas, porém dez minutos depois estávamos andando a um ritmo mais lento, quase uma caminhada. Como era fim de tarde, o sol não estava mais tão intenso, tornando o clima o mais perto do agradável possível. — Separei algumas gravações que gostaria de mostrar para você. Tem alguma sala de vídeo mais privativa? Uma que não seja um telão no meio dos aparelhos de musculação? — Apesar do sorriso encantador, pelo tom de voz sugestivo, ele estava lembrando da minha entrada não muito espetacular durante a sua chegada. Permaneci com a expressão vazia, sem mostrar que ainda me sentia envergonhada quando lembrava daquele dia. Havia tantas coisas sobre Victor Bersanni que eu insistia em manter escondidas profundamente dentro de mim... Em outros tempos, eu teria ficado deslumbrada por tê-lo como treinador. Naquela época, tinha fantasiado até com algo mais, como se eu fosse alguma adolescente hormonal vendo um cara gostoso lutando. Agora ele era aquilo que eu não queria ser. — Sabe? — ele continuou ante o meu silêncio. — Você fica mais bonita quando está envergonhada... Que audácia! Boquiaberta, o encarei. — Eu não estou... — Está, sim! Suas bochechas ficam rosadas, é por isso que eu te lembro daquele dia — Victor cortou a minha negação e acrescentou. — Além do mais, sempre fica de boca fechada, sem perguntas inconvenientes... Um bônus que eu sempre aprecio. Seu dar de ombros foi muito casual, como se não tivesse acabado de revelar que me provocava de propósito. Ora, eu só tinha insistido no assunto do doping umas três ou quatro vezes em quase um mês de treino. Pensei em xingar um pouco mais, porém era isso que ele queria: me desequilibrar para dar mais um sermão sobre maturidade. Idiota. Os lábios de Victor se levantaram com sarcasmo, esperando uma reação minha. Fazendo-me relembrar do sonho que tive na noite passada. Eu e ele sozinhos na academia, rolando pelo tatame. Suspirei. Gostando ou não, era ele quem eu tinha e precisava para alcançar meus objetivos. E este objetivo não incluía descobrir se seu beijo na vida real era tão bom quanto nos sonhos. Precisava de um lugar mais neutro, um que tivesse mais pessoas para garantir a minha sanidade. — Só se for lá em casa… — sugeri. Combinamos de ele me mostrar os tais vídeos à noite, por volta das oito horas. Era isso ou ficar na academia depois que todos já tivessem ido embora. Ir para o seu apartamento  estava fora de cogitação. Minha casa, minhas regras. Caminhamos por mais um tempo, deixando que o momento constrangedor de segundos antes passasse para silêncio reconfortante, até que ele voltou a falar: — Sabe, quando decidi morar nos Estados Unidos, achei que teria um alívio do calor do Rio de Janeiro. Queria ver a neve, vi apenas quando era criança e ainda morava no sul… É a segunda vez que abandono minha casa por causa do judô. Primeiro para morar e treinar no Rio, depois para cá. — Victor desistiu da camiseta, limpou o suor do rosto nela e a jogou na mesa perto da piscina semiolímpica. — Desculpa, deve ser o sol me fazendo falar sem parar... Ele achou que meu silêncio era porque não queria ouvir sua história. Eu até queria conhecê-lo um pouco melhor, entretanto meu cérebro tinha entrado em curto-circuito ao vê-lo sem camisa pela primeira vez. Desvia, desvia, desvia... Tentei me obrigar. Meu olhar permaneceu fixo no caminho: pista de corrida dividida em quatro faixas, ao redor da piscina, cuja água estava bem convidativa, límpida e sem mais ninguém. Isso! Sem observar o cara ao seu lado. Ele é seu treinador em um esporte de contato. Não tenha pensamentos impróprios, vai ser pior para você depois. Pelo canto do olho, o vi beber um isotônico diretamente da garrafa. Sua garganta trabalhando para engolir o líquido refrescante, o peito definido subindo e descendo a cada respiração. Um brilho dourado se destacava, um colar, que brilhava contra a sua pele nua. Com esforço, desviei minha atenção. Eu não podia me permitir ter esse tipo de distração. — Se você queria neve, não deveria morar tão perto do deserto do Arizona. — Voltei a olhar para frente, torcendo para que ele não notasse o meu pequeno deslize. — Aqui é quente mesmo de noite. A gente costuma brincar dizendo que temos dois climas: o calor escaldante e o inverno de congelar os ossos. Neve só no norte do estado. Aqui, no máximo, você terá neve misturada com chuva. Isso... Mantenha a conversa em um terreno mais seguro, como o clima. — É onde fica o Grand Canyon? — Balancei a cabeça concordando, e ele pareceu genuinamente curioso. — Nunca vi foto de lá com neve. A gente vai ter que ir lá no inverno também… Tentei esconder minha surpresa por ele fazer planos comigo mesmo tendo acabado de me conhecer, porém falhei. — A gente? — Sim! Eu e Mila vamos no carro dela — Victor sorriu para mim e deu de ombros. — Se você quiser ir, ela não deve se importar. Afinal, vocês são amigas, não é? Ah. Seria Victor o motivo do constrangimento de Mila quando sugeri a saída dela com Derek? Como eu era estúpida! Deveria ter perguntado em vez de forçá-la a um encontro arranjado. Só esperava que meu irmão não sofresse outra decepção amorosa. Principalmente se a culpa fosse minha… Pensei nas vezes em que vi os dois conversando em português, diálogos incompreensíveis para aqueles ao nosso redor, como se estivessem em um mundo só deles. Como pude não notar logo? Victor Bersanni e Mila Mathias eram um casal glorioso, eu tinha de admitir. Fazia sentido também: dois lutadores brasileiros tentando fazer carreira no exterior. Era chato de tão previsível que os dois se juntassem. — É, sou amiga dela — declarei. Uma péssima amiga. Horas depois, o céu azul estava manchado pelo laranja crepuscular, e o sol se escondia quando estacionei na garagem de casa, perto do carro do meu irmão. Derek surgiu ao meu lado, olhos cansados e impacientes, ombros tensos. Algo o estava aborrecendo. Bastou descer do veículo para ouvir os gritos vindos de dentro da casa. — O que aconteceu? — perguntei, assustada. A nossa casa raramente tinha discussões. Talvez brigássemos tanto no ringue, que não tínhamos força para discutir por banalidades. — Mandy chegou tão animada do treino, ela contou para… — Derek não teve tempo de terminar a frase, a porta foi aberta com um supetão, e mamãe saiu embravecida. Ao me ver, seu rosto se transfigurou em uma carranca. Ou o mais próximo disso, tendo em vista que o último Botox a deixou um pouco sem expressão. — A culpa é sua, Diana! — Chloe Clark, ex-miss Arizona, esbravejou. — Que invenção foi essa de dar aulas para a Mandy? Hum... Isso explicava a raiva. Mamãe ficava angustiada a cada vez que um de nós se machucava. Quando quebrei o nariz pela primeira vez, ela quase enfartou. — Boa noite, mãe. — Tentei espantar o sarcasmo da minha voz. Ser dramática era a sua especialidade, deveria ter sido atriz, e não modelo. — São apenas algumas aulas e… — Apenas algumas aulas? Você também começou com “apenas umas aulas”, depois vieram o olho roxo, o nariz quebrado, o tornozelo torcido... Como pode ser tão irresponsável, Diana? Se Holly desistir de deixar minha neta aqui porque permitimos que mulheres da nossa família se machuquem, você vai se ver comigo! Eu quase pude ver o meu cérebro de tanto que revirei os olhos. Não sabia por onde começar a argumentar. Como uma mãe e esposa de lutadores poderia ter uma visão tão arcaica? As mulheres eram livres para seguirem a carreira que desejassem. As barreiras entre gêneros há muito foram quebradas. Mas fiquei calada. A preocupação da mamãe não era completamente infundada, e ela estava certa… Havia o risco de se machucar. Porém toda criança se machuca na vida. Já vi muitos tornozelos torcidos, narizes quebrados e olhos roxos que nada tinham a ver com o boxe. Derek suspirou pesadamente, ele e papai deveriam estar nesta discussão com ela desde que chegaram da academia. Na verdade, este tipo de desentendimento era bem recorrente, minha mãe ainda nutria a esperança de me ver fora dos ringues. Para ela, não importava a minha idade ou que meus socos se mostrassem tão eficientes e rápidos quanto os de meu pai. Eu sempre seria a sua princesa. Com a neta, então, era pior. Sissi — como as pessoas chamavam minha mãe por causa de suas iniciais C. C. — pousou uma mão em cada lado da testa e esticou a pele para não criar rugas de preocupação. Precisava conversar com ela sobre sua recém-adquirida fixação por plásticas. Começara um mês antes, após seu aniversário, e pelo modo como agia, parecia que havia completado cinco séculos ao vez de cinco décadas. — Eu sou o pai dela — Derek interveio. — Se eu digo que Amanda treinará boxe, ela vai treinar. Os olhos azul índigo da minha mãe se encheram de lágrimas prestes a serem derramadas. Seus braços abaixaram, esquecidos das possíveis rugas, e ela desinflou. Toda a vontade de discutir parecia ter sido drenada de seu corpo. — Você se parece tanto com o seu pai… É assustador, às vezes. Aquele comentário pairava no ar entre mim e Derek minutos depois dela se virar e entrar em casa. Eu me perguntava se ele estava pensando no porquê de minha mãe ter feito aquilo soar como uma coisa r**m. Eu não tinha certeza se devia ou não me sentir culpada por ter seguido uma carreira que a angustiava. Ter a aprovação de um dos pais sempre foi o suficiente, e se ela havia se casado com um lutador, não deveria odiar o boxe tanto assim… Seria assim em outras famílias? Talvez a esposa do policial também desejasse que ele aposentasse o distintivo, ou a mãe do astronauta sonhasse em nunca ver o filho entrar em um ônibus espacial, partindo rumo ao desconhecido. — Você acha que eu fui egoísta? — quebrei o silêncio. Os ombros de Derek se levantaram e voltaram a baixar. Eu não esperava uma resposta, mas obtive uma antes que meu irmão seguisse os passos de mamãe: — Nós somos seres egoístas, a vida nos torna assim. Horas depois, Derek me deixou com Amanda e foi beber tequila no Plaza Bar, em Scottsdale, no centro da cidade. Victor chegou assim que terminamos de fazer a pipoca. A sala de cinema, como meu pai costumava chamar nossa sala de televisão, parecia um pequeno teatro. Tinha poltronas reclináveis e um imenso telão em alta definição. A barraquinha de pipoca, ele tinha ganhado dos funcionários da academia como presente de aniversário, ao completar cinquenta e dois anos de vida. Mandy ficaria conosco para assistir aos tais vídeos de Victor porque ela adorava o mundo da luta. E porque eu não queria ficar sozinha com ele. Mila não deu importância quando eu comentei sobre a ideia de Victor. Eu queria que ela soubesse a verdade: eu não tinha armado a saída dela com Derek no mesmo dia de propósito. Foi apenas uma infeliz coincidência. Victor nos mostrou vídeos de lutas extraídas da internet. Como a imagem era projetada na parede, ele se levantava para apontar a posição dos lutadores e demonstrar o movimento feito, as finalizações. — Esse é um boxeador como você. — Ele apontou para a imagem congelada e voltou a reproduzir o vídeo. — Veja como ele se aproxima com jabs curtos e rápidos, mas o quadril já está entrando em posição para agarrar o oponente, jogá-lo no chão e finalizar a luta. Isso você pode fazer com socos na cabeça ou com o armlock. Já fez uma chave-de-braço antes? Balancei a cabeça negando e lembrei-me do dia em que esfolei a mão ao lutar com Mila, ela tinha demonstrado alguns métodos antes de me derrubar. Sim, eu sabia de alguns, mas Victor queria me mostrar mais. Porém, apenas depois que eu tivesse aprendido o básico. A defesa é o melhor ataque, ou qualquer bobagem dessa. Em todo esse tempo treinando com ele, nunca tinha visto Victor falar tantas frases juntas, exceto no sermão de semanas antes. Primeiro imaginei uma barreira linguística, talvez o inglês não fosse tão bom. Afinal, quando estava apenas com Mila, ele sempre se mostrava bem eloquente em sua língua natal. Mas não… Era o seu jeito. Um observador. Mandy adormeceu na poltrona quando a hora começou a avançar. Victor e eu ficamos em pé, de frente ao telão, enquanto ele me mostrava e demonstrava o que eu deveria aprender nos próximos meses. Aproximei-me da tela, o projetor lançando luzes sobre nossa pele. Imitar os movimentos dos campeões naquele ambiente, meio na penumbra, parecia uma dança só nossa. Movimentos agressivos feitos de forma lenta, para aprender suas nuances. A forma como Victor se mexia era hipnotizante, em total controle do seu corpo e movimentos. Era encantador assistir. Parecia estranho como uma palavra tão elegante se encaixava tão bem em um homem de aparência rústica, com o queixo quadrado e expressão austera. Mas era a verdade. Naquele momento eu entendia como o seu país o tinha adorado! Deveria ter sido decepcionante para eles verem o queridinho perder a medalha e descobrirem que não era feito de beleza e honra. Por mais encantador que Victor Bersanni fosse, eu precisava me lembrar a verdade: ele era um trapaceiro.  
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