Um brasileiro em Phoenix

595 Words
Victor Bersanni estava acostumado a ficar longe de casa. Perdeu a mãe cedo e encontrou no esporte uma forma de aplacar a dor. Ainda criança, já amava as lutas que via pela televisão. Com os bonecos de ação que ganhava de aniversário, em vez de brincar de guerra, como os amiguinhos faziam, brincava de luta. Montava pequenos ringues com barbantes e palitos de dente, presos em isopor. Um pingente redondo de ouro de sua mãe, com linhas douradas em círculos concêntricos, passou a ser um cinturão. Assim, durante as tardes, transformava brinquedos em campeões. A única outra coisa que o menino Bersanni gostava de fazer era andar pela pitoresca cidade. Ele não conhecia muito do mundo, além das ruas de Bento Gonçalves e da capital, Porto Alegre, que ficava a menos de duas horas de distância quando seu pai o levava para passear de carro por lá. Ele gostava de respirar fundo e sentir o ar entrando, carregado com um ar puro das diversas árvores que o cercavam. Ele pegava sua bicicleta e pedalava até os trilhos mais próximos de sua casa, adorava ver a Maria Fumaça passar, expelindo a nuvem acinzentada que se espalhava no céu como fazia o fumo do cigarro de senhor Babieri, seu vizinho carrancudo. Ao contrário do velho rabugento, as pessoas que passavam no trem eram cheias de alegria e música. Turistas vendo as belezas das cidades sulistas que faziam parte da rota do vinho. Quando tinha sorte, ele conseguia um relance de mulheres em vestidos coloniais dançando com seus parceiros e contando a história de um povo rico em cultura. Victor amava sua cidade, mas quando o talento para o judô ultrapassou os pequenos limites geográficos dela, o pai o levou para o Rio de Janeiro. Rapidamente o garoto franzino e tímido cresceu. Ganhou músculos e técnica. Estudou, se esforçou e aprendeu as manhas da cidade grande. Não demorou muito para que Victor Bersanni se transformasse em um nome conhecido. Um sensei muito esperto, já prevendo o que o jovem poderia conquistar, se ofereceu para lhe ensinar em seu dojo, fazendo-o melhor. E melhor foi o que Victor se tornou. Campeão mundial, sensação nacional... E a vergonha de um país. Ele se tornou aquilo que mais abominava. Isolou-se por escolha própria. Cansado de ser alvo de chacotas e fofocas, formou-se com louvor, tornando-se o melhor da turma, principalmente no último ano da universidade. Os halteres e os livros eram seus únicos companheiros e tornaram-se também a sua saída. Uma proposta para sair do país que o desprezava e trabalhar para a família que ele admirava parecia a solução ideal. Uma nova chance, um recomeço. O seu retorno para o mundo das lutas. Até a mulher com olhos azuis gélidos de desprezo mostrar que não havia escapatória. Victor, que tanto ansiava conhecê-la, ficou sem palavras. Diana era capaz de desarmá-lo de uma forma que ele jamais imaginou ser possível. Com uma beleza arrebatadora e uma dedicação impressionante, a Red Rose era linda, letal e inalcançável. Então, vestido com uma armadura de indiferença, ele a treinava. Para um olhar incauto, principalmente quando sorria distraída, Diana poderia parecer delicada. Mas ele sabia que não era. Victor decidiu que não importava se ela o desprezava ou se ele tinha vontade de tocar em sua pele para saber se era tão macia quanto parecia, cumpriria sua função e a treinaria. “O caminho suave”, como o judô era conhecido, vinha cheio de pedras. Faria Diana Clark descobrir que apesar de ele ter perdido a medalha, precisou trabalhar arduamente para tê-la em mãos.
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