Capítulo 3 — Surpresa

3495 Words
— Está preparada? — Encarei Mandy com seriedade. — Sua mãe não vai gostar muito da ideia. Nem o pai, ou a avó. Eu deveria ter pensado melhor antes de me oferecer como instrutora. Amanda parou para observar com deslumbre o prédio de três andares, ocupando um quarteirão quase todo. Tentei enxergar como ela aquele local: o edifício de pedra cinza, os janelões de vidro e toda a grandiosidade. Seu legado. Apesar de já ter vindo na academia antes, daquela vez era diferente, e Mandy sabia disso. O interior nos presenteou com o frescor do sistema de refrigeração. Por mais amor que eu tivesse à minha cidade, o calor era quase insuportável. O lobby estava estranhamente silencioso, sempre havia uma ou outra pessoa ociosa pelos sofás vermelhos, tomando um shake ou aguardando a chegada de alguma carona. Mas não naquele momento. Apenas o porteiro me deu um aceno de cabeça. À direita, do outro lado das paredes de vidro, uma pessoa nadava com velocidade impressionante de um lado ao outro da piscina. Pelo menos, nem todos tinham sido abduzidos… Mandy amarrava seus longos cabelos negros no alto da cabeça, sem se importar com os arredores, quando um assobio alto me fez olhar para trás. Mila caminhava até mim em toda sua graça e confiança. Sua pele de ébano brilhava com o suor ainda por secar, contrastando ainda mais com o conjunto de lycra lilás que marcava seu corpo. Amanda correu e a abraçou vigorosamente, já esperando ser pega no colo. Percebi, com certo pesar, que aquilo não ocorreria por muito mais tempo. Minha menininha estava crescendo, e em breve nos alcançaria. Ela já estava quase da altura de Mila! — Quando quer, você sabe arrasar! — Mila elogiou a minha roupa de executiva. Mandy sorriu para nós. — Quando não quer também, tia M. — Eu adoro essa menina! — Minha amiga beliscou a bochecha da garota e ganhou um olhar atravessado de volta. — Vamos, vocês estão atrasadas. Eu também estou, mas precisei correr para comprar uma coisa. Só então percebi que ela carregava uma sacola parda na mão. Mila não quis explicar o motivo de sua distração pela manhã ou para que estávamos atrasadas. Deveríamos subir logo em vez de perder tempo, ela disse. As pessoas desaparecidas do térreo estavam todas aglomeradas ao redor do telão e amontoadas entre os aparelhos de musculação. Tão concentradas nas imagens exibidas, que não notaram nossa chegada. O vídeo era um compilado de lutas com um único ponto em comum: Victor Bersanni. Eu o conheci quando participamos da mesma olimpíada. Eu estava presente na luta principal que garantiu sua medalha de ouro em judô. Victor era o atleta queridinho do momento entre os conterrâneos. Para ser honesta, não só entre os seus conterrâneos... Eu vi a sua luta. Acompanhei e vibrei por ele em cada segundo que o levou à vitória naquela final. Quando Bersanni ganhou sua medalha, eu senti uma alegria quase tão grande quanto o momento que eu ganhei a minha. O Brasil era mundialmente conhecido como país do futebol, mas ali eu vi como os brasileiros também amavam as artes marciais. E entendi como vinham tantos lutadores talentosos de lá. Eu o admirava. Porém dizem que quanto mais alto você sobe, maior é a queda. Alguns dias depois de ganhar a medalha de ouro, ela foi revogada. Victor havia sido pego no doping: esteroides. Sua carreira fora destruída, e não ouvi mais falar dele por quase um ano. E, assim como o povo brasileiro, a minha admiração por aquele homem se tornou em puro desprezo. Ele era a personificação de tudo o que o esporte rechaçava. E o herói da nação se tornou nada. — Por que estão vendo vídeos desse perdedor? Ele já deve estar murcho e definhando, igual à sua carreira — Eu pretendia falar isso apenas para Mila ouvir. Infelizmente, disse no momento mais inapropriado possível, exatamente quando o vídeo parou. Variadas expressões de choque se voltaram para mim. — Qual o problema? Este homem não merece ser lembrado, quem usa de subterfúgios para vencer não tem honra nenhuma. Mila sussurrou um “cala a boca”, e eu ainda estava sem entender o motivo da comoção, até papai se levantar, o rosto vermelho estampando a vergonha. Ver o meu pai envergonhado era uma oportunidade rara, devo ter presenciado um evento desse umas duas ou três vezes. Em toda a minha vida. — Diana, creio que você já conheça o Victor... — Ele apontou para o homem ao seu lado. Quando criança, gostava de assistir filmes de super-heróis mutantes e sempre ficava imaginando qual poder desejaria ter. Na maioria das vezes eu ficava em dúvida entre o teletransporte e a telecinesia. Naquele momento, entretanto, desejava ser uma telepata, assim seria capaz de apagar o último minuto da mente de cada pessoa ali presente. Eu deveria aprender a observar melhor o ambiente antes de abrir minha boca. Sentado ao lado do meu pai, parecendo maior e mais forte do que o jovem campeão que um dia perdera a medalha, estava Victor Bersanni em pessoa. Quando se virou para mim, o canto de sua boca permanecia repuxado em um meio sorriso presunçoso. Seu olhar era indecifrável, podia ser divertimento ou chateação. Eu não o conhecia o suficiente para diferenciar. — Fico feliz que não tenha problema algum em expressar sua opinião, facilita na hora em que eu for trabalhar em você — ele enfatizou o final. Pela postura rígida, a felicidade não estava correndo em suas veias. Ou talvez estivesse, se pensava que podia me fazer engolir as palavras. Sua voz imponente combinava bem com o corpo atlético. O sotaque, no entanto, era bem mais forte do que o de Mila. Ela morava aqui há muitos anos, e só não parecia americana quando se irritava e xingava em português. Já Victor precisava melhorar o inglês. Trabalhar em mim era bem diferente de trabalhar comigo... — Você é o novo treinador da Machine Gun? — perguntei de forma ríspida, olhando mais para o meu pai do que para Victor. Eu era uma das sócias da academia e deveria ter sido informada antes de qualquer nova contratação. Como puderam passar por cima de mim daquele jeito? Trazer um estranho sem nem ao menos me informar era um absurdo! — Não, filha — papai interveio, provavelmente percebendo que eu estava a um passo de pedir uma reunião de equipe. — A presença de Victor não é para a academia, é apenas para você. Exclusivo. — Ele se aproximou com determinação e sussurrou em meu ouvido: — Quero que você conquiste seus sonhos, meu amor. Sei quais são suas habilidades e fraquezas, ele é um meio para um fim. Surpresa?! A última palavra foi dita entre uma dúvida e uma desculpa. Surpresa resumia bem o meu sentimento. Depois de tantas discussões sobre artes marciais mistas ou boxe, papai levantara a bandeira branca no formato de um treinador carrancudo. Ele poderia ter me consultado antes de importar pessoas de outro país. Mas, na verdade, eu estava mais chateada pela minha falta de educação do que com a surpresa feita. Os alunos e treinadores da academia estavam em silêncio, nos observando de perto. Eu quase podia imaginar um balde de pipoca em suas mãos enquanto assistiam àquele encontro como se fôssemos algum dramalhão cinematográfico. Precisava corrigir o meu erro e começar de novo! Forcei o melhor sorriso e estendi a mão para Victor: — Seja bem-vindo à Machine Gun, podemos começar assim que você se adaptar. Ele me analisou da cabeça aos pés: os cabelos castanhos escuro presos, os olhos azuis evidenciados pela maquiagem leve, o colar de pérolas, o terninho grafite bem cortado, marcando as curvas do meu corpo nos lugares certos. Em conjunto com a saia lápis, os saltos bordô. Seu silêncio debochava de mim, como se eu estivesse inapropriada em meu próprio ambiente de trabalho. E eu estava, meu inconsciente zombava. Seu olhar dizia: “não com essas roupas.” — Claro, assim que você estiver pronta. — Sua voz não escondia o tom de sarcasmo. Mantive o sorriso no lugar, apesar da necessidade urgente de falar mais verdades. Por mais rude que tivesse sido, foi bom Victor saber qual era a minha posição sobre os eventos do ano anterior. Para mim, pessoas como ele eram escória e manchavam toda a filosofia do esporte. Ele era lixo, mas era um lixo muito bom na luta de chão. E eu estava desesperada para aprender. ∞ — Por que a gente tá fazendo isso de novo? — perguntei pela décima vez. Meu torturador... Ou melhor, treinador, não se dignou a desviar a atenção do celular antes de responder: — Porque se você quer aprender a lutar no chão, primeiro tem que saber cair direito. Ele dava a mesma resposta de sempre. Todas as vezes. E eu sabia qual seria o comando seguinte: trinta rolamentos variados pela pergunta estúpida. Depois de uma semana treinando com o grande e poderoso Victor Bersanni, esperava aprender mais do que me jogar no chão e rolar como um cachorrinho adestrado. Queria golpes e luta! Derrubá-lo no chão e pisar em cima até que ele não conseguisse rolar nunca mais na vida e… — Muito bem! — Victor disse em sua voz formal de professor, largando o aparelho para finalmente me dar atenção. — Mais vinte e teremos um intervalo. Filho da mãe! Ajoelhei-me no tatame e o encarei. Enquanto eu estava suada, suja e ofegante, com o quimono de judô quase solto da faixa amarela, ele permanecia sentado no banco, pegando do cooler uma garrafa com água gelada para se refrescar. O quimono permanecia aberto, revelando a camiseta verde que marcava seu tórax. Tranquilo e relaxado. — Isso é algum castigo pelo que eu falei? Já te pedi desculpas! — Minha voz saiu mais irritada do que planejara. Os olhos de Victor fixaram nos meus ao questionar com seriedade: — Você acha que já sabe de tudo? Com a paciente esgotada e o cansaço me tornando menos racional, respondi sem pensar. — Sei o suficiente para não ser uma trapaceira de merda! — esbravejei, irritada. E agora que tinha falado, não tomaria as palavras de volta. A curiosidade me corroera por anos, eu precisava ao menos perguntar. — Por quê? Por que recorrer aos esteroides?  Você estava no auge, não precisava disso! Ou sua carreira inteira foi uma mentira?   Victor ficou em pé, dando o nó na faixa preta ao redor de sua cintura para ajustar o quimono. Ele não respondeu nenhuma das minhas indagações, os lábios selados com determinação enquanto caminhava para mim. Não havia nada de casual em sua forma de andar. Cada passo era certeiro, como se ele calculasse o melhor ponto do chão para apoiar os pés. Que pensamento mais absurdo! Ninguém tinha tanto controle sobre si. O calor devia estar fritando o meu cérebro. Levantei-me. Com a mão direita, ele me puxou para perto, pela gola do meu quimono. Com a esquerda, travou o meu braço direito pela manga. A clássica “pegada” do judô. Uma forma de dominar o oponente, se defender e se preparar para aplicar um golpe. Espelhando seu movimento, fiz a pegada nele. Estávamos próximos. Muito próximos. Victor olhou para baixo, notando que os meus pés já se encontravam em base, devidamente afastados e alinhados com os ombros. Podia ter dificuldade, mas estava muito longe de ser uma novata. — O seu problema, Diana, é ser apressada e falar demais — ele comentou com calma letal. — Quer aprender tudo tão rápido que pula etapas. Se você conseguir se soltar de mim, eu passo a te ensinar apenas os golpes. Você tem três minutos. Senti vontade de gargalhar. O tempo era algo muito relativo. Três minutos de tempo ocioso, em frente à televisão, ou conversando com os amigos, passavam voando. Dentro do ringue, não. Era uma eternidade. Em três minutos, uma vitória poderia ser decidida. Ganhar aquele desafio bobo seria uma pequena e deliciosa conquista. Girei o meu antebraço esquerdo para usar de alavanca e empurrar sua mão para baixo, livrando-me da sua pegada, porém Victor segurou mais firme. Ele era muito forte. O desgraçado m*l estava suando, enquanto eu puxava e forçava, mas não conseguia me livrar. E se eu trapaceasse só um pouquinho? Ele não falou nada sobre usar as duas mãos! Poderia soltar a gola do seu quimono e… Não! Forcei mais e quase pude sentir o grosso tecido trançado soltando do seu firme aperto. Ou era o que eu pensava… O movimento foi rápido e inesperado, não tive tempo para reagir: um desequilíbrio no pé esquerdo, meu peito sendo jogado contra o tronco dele, uma rasteira no pé direito, e eu fui arremessada de costas no tatame, com o meu oponente caindo em cima de mim. Dor reverberou pela minha coluna. Todo o ar escapou dos meus pulmões e não havia retornado ainda, mas Victor já tinha minha cabeça sob guarda. O gancho de direita vinha em velocidade na direção ao meu rosto. Cerrei as pálpebras, preparando-me para o impacto. Meu nariz seria quebrado pela terceira vez, com certeza. Porém, o golpe nunca veio. Voltei a abrir os olhos, o punho fechado pairava sobre mim. Muito perto. Assim como o braço e o homem conectado a ele. Ofegante, Victor me encarava com a respiração muito próxima da minha. — O nome deste golpe é harai-goshi, bastante simples e eficiente no MMA. Posso ter perdido a medalha, mas lutei muito para conquistá-la. Sei o que estou fazendo. — Ele forçou mais a guarda, fazendo-me sentir cada músculo ao redor do pescoço tensionado. — Ficou indefesa e com as costas doendo? Treine mais e pergunte menos. Aprenda o ukemi, a queda, depois passe a golpear. Não há tempo para te transformar em uma faixa preta, mas eu posso te ajudar a ser campeã. Não espero que você me respeite, porém exijo que tenha maturidade suficiente para fazer o que mando. Lá fora você pode ser o que quiser, mas aqui é o meu tatame, e eu sou o sensei. Guarde as suas indagações para você. Não há tempo para ficar questionando a mim ou ao meu método. Estamos entendidos? O grande relógio na parede marcava onze horas da manhã. Quatro minutos passaram. Engoli em seco, havia perdido o desafio. — Sim, sensei. — Foi a única coisa que consegui verbalizar com ele tão próximo a mim, respirando o mesmo ar que eu. Após a surra no tatame, almocei no escritório, o cabelo molhado, com cheiro de jasmim, manchando o tecido do sofá creme. Remexia a marmita com a combinação ideal de proteínas, carboidratos, com baixo teor de glicose e fibras, devidamente pensada pela nutricionista. Contudo não comia. Sentia-me perdida, pensando nos próximos meses. Eu precisaria de pelo menos um ano para estar realmente pronta. Menos, se fizesse um treino muito intenso… Na televisão, coloquei uma reprise das lutas de Victor e relembrei o que há muito havia esquecido: sua técnica era perfeita. Quanto mais o mais conhecia, menos entendia suas motivações. Vencer era sempre o objetivo, claro. Porém a honra valia muito mais do que a vitória. De outro modo, ela seria apenas vazia, sem sentido. Tudo que eu queria era um vislumbre de sua mente. Descobrir se o interior daquele lindo homem era tão podre quanto eu imaginava. — Posso entrar? — Papai questionou. Gritei um sim para ser ouvido através da parede, e ele abriu a porta, marmita em mãos. — Não te vi no restaurante, achei que poderia querer companhia. Havia pedido para trazerem minha comida porque não queria ver ninguém quando saí do treino. Apenas tomar um banho, ficar sozinha e pensar. — Claro, pai, sente-se. — Nunca diria não para ele. O sofá ao meu lado afundou um pouco sob seu peso. Desliguei a pequena televisão de tela plana presa à parede, já que não ia prestar mais atenção. Almoçar com ele era normal, e os primeiros minutos foram em um silêncio confortável. A sala era preenchida apenas pelo raspar dos nossos talheres no fundo do depósito. — Qual é o problema? Ele foi direto ao ponto, sem rodeios, como sempre costumava fazer. — Estou fora dos ringues há quase um ano e precisarei de meses antes de ser capaz de competir entre os profissionais de MMA... — Nosso esporte tinha prazo de validade, e ele sabia. A aposentadoria geralmente vinha cedo para os lutadores. — Victor disse que estava pulando etapas. Mas e se este não for o problema? E se o problema for comigo? — Já te contei sobre quando sua mãe ficou grávida? — Neguei com a cabeça, e ele continuou: — Eu era um pouco mais novo do que você e estava começando a subir no boxe. Éramos jovens e inconsequentes. Sua mãe ficou desesperada, achou que perderia a carreira de modelo. Eu pensei… — Papai suspirou, perdido em pensamentos de um passado distante. — Achei que seria melhor abandonar o sonho de ser lutador e me tornar algo mais seguro, algo que não arriscasse minha vida e me desse estabilidade financeira. Às vezes, as lutas só paravam quando um ficava inconsciente. Naquela época, os ringues eram brutais, e o lucro era bem pouco. Não ganhávamos tanto dinheiro quanto se recebe hoje. — Mas você não parou — eu o incitei a continuar a história. Seus olhos brilharam, e o canto da boca se elevou com um ar de nostalgia e orgulho. — Pensei que precisaríamos abandonar os nossos sonhos. Largar tudo. Mas aí eu vi sua mãe à beira da piscina, ela passava protetor solar na barriga ainda plana. Alisando, como se pudesse acariciar o bebê. O sol batia em seu rosto, e ela estava tão linda, que eu me apaixonei de novo. Naquela manhã, percebi algo incrível: vocês eram o meu sonho mais importante. Consegui um emprego, troquei os ringues por um escritório de quatro paredes apertadas. Sabia disso, já tinha visto em diversas reportagens sobre a carreira do meu pai. Papai passou mais de seis meses afastado e até perdeu um pouco do físico de atleta. Demorou um ano para que voltasse a lutar. Antes, nunca tinha me dito o motivo real para quase ter desistido do boxe. — Foi uma época muito difícil, estava feliz e triste ao mesmo tempo. Sentia falta de quem eu havia sido, mas gostava do homem de família que estava me tornando. Eu não deixava sua mãe perceber esses sentimentos, era o final da gravidez. Não queria estresse! Mas a sua avó… Ela sabia que algo estava errado. Não pensou duas vezes antes de hipotecar a casa e montar a academia. Foi um dos melhores presentes que recebi, um lugar para treinar e trabalhar. Era bem pequena e não se parecia em nada com o prédio de hoje, mas era minha. Quanto mais vitórias eu tinha, mais frequentadores vinham. Não só os moradores aqui de Phoenix, mas também de Tempe, Glendale e várias outras cidades do Vale do Sol. Demorou, porém um dia o meu nome começou a se tornar uma marca e cresceu mais do que eu esperava. Estava encantada com aquela história. Na minha mente, a trajetória do Machine Gun havia sido fácil e gloriosa, praticamente mágica. Eu o via com outros olhos. Até o grisalho de seus cabelos passou a ter outra conotação. Era alguém que lutou e sofreu mais do que eu imaginara. — Por que nunca me contou essa história? Meu pai não era muito de falar sobre o que aconteceu quando éramos crianças. Talvez fosse por isso, porque era um tempo mais difícil e que não pretendia reviver. Ele costumava falar das vitórias, destas sempre se vangloriava, mas a vida pessoal era dificilmente mencionada. — Porque não queria parecer fraco ou que pensassem que já me senti infeliz por causa de vocês… — Ele parecia envergonhado. — Jamais pensaria tal coisa, pai! — Aproximei-me para descansar a cabeça em seu ombro. — Quem atrapalhou sua carreira foi Derek, não eu. A risada profunda preencheu o escritório. Como eu amava meu pai! O mundo o via como um grande e feroz lutador, uma fortaleza de músculo, aço e determinação. Para mim, ele era sinônimo de amor e afeto, perseverança e conquista, amizade e companheirismo. Sim, ele era uma fortaleza, de fato. O meu porto seguro. — Diana, tem um motivo para eu te contar essa história. — Ele me abraçou e beijou minha testa com carinho. — Seu irmão é filho de um sonhador, mas você veio de um campeão. Eu já pedi desculpas por não ter te consultado sobre Victor, apesar de saber que você não o aprovaria por causa do doping. Com ou sem esteroides, ele é o melhor, e eu sempre vou querer o melhor para ti. E era isso que eu jamais entenderia! Se Victor era o melhor, por que apelar para o doping?
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