Capítulo 2 — Família

2290 Words
Não demorou muito para eu voltar ao ringue, uma distensão muscular não me pararia. Desviei do cruzado de Mila um segundo antes de ela ser capaz de atingir meu rosto. O sorriso felino da minha amiga quase me fez tremer. Tinha pena de suas oponentes e agradecia a Deus por ela ter aumentado sua massa muscular e passado para outra categoria desde que se formara como personal trainer. Ela era Peso Leve, e eu, Peso Pena. Aqueles braços poderosos só chegavam perto de mim durante os treinos. Ao contrário do seu modo habitual, ela parecia inquieta, quase saltitante em vez de equilibrada, relapsa demais para a melhor treinadora feminina em Phoenix. O melhor do masculino era o meu pai, claro. Mila mantinha os pés juntos demais, desta vez ela beijaria a lona. Avancei. Jab de direita, para distrair, e cruzado de esquerda para derrubar. Ninguém segurava a pata do sul. Odiava esse termo, mas era o nome utilizado para definir lutadores canhotos, como eu. Nós éramos oponentes mais difíceis. Estava tão acostumada a treinar com destros, que nem mesmo eu gostava de competir contra outro pata do sul. Mila aceitou minha mão estendida. Não precisava reclamar por causa dos pés juntos demais, ela trabalhava para a academia e sabia perfeitamente bem qual tinha sido seu erro. Mas ainda questionei o motivo da agitação. — Nada não! Fim de semana está chegando, e eu quero aproveitar. — Ela estalou o pescoço enquanto falava, um hábito pouco saudável, mas que não conseguia largar. Fim de semana? Ainda era terça. Talvez tivesse algum namorado envolvido… Seria um frequentador da academia? O toque estridente de celular chamou minha atenção. Mila se secava com uma toalha quando pulei do ringue. O visor do telefone mostrava o número da minha sobrinha. Não eram dez horas da manhã, e ela estava me ligando. Preocupada, me afastei para ouvir melhor. Meu coração se aliviou um pouco ao ouvir a sua delicada voz, e não a de um sequestrador ou de um funcionário da escola avisando que algo r**m tinha acontecido. Seria bom eu dar uma pausa nas séries policiais. Apesar de a voz ser a mesma, havia uma urgência estranha. — Preciso que você fale com papai. Sinais de alerta tocarem em minha cabeça, a coisa não era boa. — O que você fez, Amanda? — questionei, desconfiada. Hesitação. Ela estava encrencada. — Eu fiz uma coisa errada na escola... — Ela baixou o tom de voz. — E mamãe tá furiosa. Ora, se a mãe dela estava envolvida, eu queria ficar bem longe. Holly jamais ganharia o título de cunhada favorita, apesar de ser a única que eu tinha. Tampouco seria mãe, nora ou esposa do ano. Na verdade, mesmo como ser humano, ela não era um bom exemplar. — Você acha que vou me meter numa briga dos seus pais? Quase fiquei surda com o “não” agudo, seguido por um “por favor” desesperado. Tinha que ser eu, sua tia amada e querida. — Alguém precisa ficar do meu lado, tia. Eu sempre estou no meio da briga, mas ninguém liga para o que eu quero. — Ela não estava me manipulando, era apenas uma criança perdida em meio à separação dos pais. Derek ainda amava a esposa, todavia ela não retribuía o sentimento com a mesma intensidade. Holly Herrington decidiu que casar aos dezoitos anos, após uma gravidez acidental, não era o seu sonho de infância. Ela detestava qualquer tipo de luta, por mais que o dinheiro utilizado para comprar seu condomínio de luxo tenha vindo dos ringues. Apesar de também não parecer avessa a disputas do tipo judiciais. O divórcio estava sendo longo e cansativo, principalmente para meu irmão e sua filha. Derek não queria sair de casa, porém não houve acordo: o matrimônio estava desfeito. Depois de muita discussão, ficou decidido que eles dividiriam o tempo com minha sobrinha. Mandy moraria com o pai durante a metade da semana. Como Derek voltou a morar conosco, eu tinha uma garotinha colada em mim durante três dias e meio. Holly tentou argumentar que nossa casa não era adequada para uma criança, como se ficássemos distribuindo socos pelos corredores! Apesar de seus argumentos, o juiz foi sensato e decidiu pela guarda compartilhada. Ela não parecia fazer questão de criar a filha, mas sabia que Derek se importava, e não queria dar a ele este prazer. Minha mãe ficou extasiada de ter a neta e o filho em casa com ela. Eu também estava, amava os dois, apesar de a garotinha me colocar em situações como esta. Ou me fazer assistir aos filmes de princesa. Nada contra, até gostava das histórias. O problema era assistir de novo, e de novo, sem parar. — E o que você quer, Mandy? — Tentei sondar o terreno antes de me envolver. Cerca de duas semanas atrás, inadvertidamente, eu me vi envolvida em uma briga familiar que nada tinha a ver comigo. Mandy veio a mim quando os pais estavam discutindo, e eu intercedi. Eles não percebiam o m*l que faziam à menina. No final da discussão, não sei por que, Holly terminou me culpando pela confusão. Eu não pretendia me envolver de novo, mas também não poderia virar as costas para minha sobrinha. — Quero ser como você, tia — sua voz mais se parecia com um sussurro. Segundo seu relato, ela se encontrava sozinha do lado de fora da diretoria de sua escola, esperando os pais chegarem — a mãe já havia passado um sermão pelo celular, e seria pior pessoalmente. Mandy estava com medo, e eu não podia deixá-la sem apoio. Ainda ouvindo a súplica de Amanda, comecei a caminhar em direção ao elevador, quando Mila me chamou. Queria saber para onde ia, de que horas voltava. Ela me fez prometer ir direto para lá. Ela escondia algo, só não sabia o que era e tampouco me importava naquele momento. Desisti do elevador, estava demorando demais, e preferi as escadas, dois degraus por vez enquanto dava uma olhada geral na academia. O Centro Esportivo de Boxe e Artes Marciais Machine Gun começou como uma academia pequena, um local para o meu pai trabalhar após aposentar as luvas. Ao longo dos últimos dez anos, cresceu de uma forma nunca imaginada. Além de ringues e tatames, contávamos com piscina, sauna, academia de musculação, centro médico e praça de alimentação com opções mais saudáveis. Dos amadores aos profissionais, tínhamos condições de atender às necessidades de todos. No Arizona, éramos referência no esporte. A minha sala era a segunda à direita, no setor de administração, no terceiro andar. Da minha janela, podia ver a piscina olímpica e a pista de cooper. Mais distante, o lado leste do centro de Phoenix era visível. Não podia parar e observar a vista, entretanto. Precisava descobrir o que Amanda Clark havia aprontado e como tirá-la daquele problema. Ponderei se daria ou não tempo para uma ducha rápida. Chegar lá com roupa de ginástica não seria adequado! Escolhi um conjunto formal mais apropriado e corri para os vestiários no térreo. Ainda bem que sempre deixava roupas sobressalentes para imprevistos! Geralmente eram reuniões com patrocinadores, não com escolas. Em vinte minutos, o couro do volante rangeu sob meu aperto. Acelerei, não estava com um bom pressentimento…   ***   O corredor da escola era iluminado, com paredes brancas, limpas, e quente como o inferno. Usar terno tão perto do deserto do Arizona não tinha sido uma boa ideia. Apesar disso, na minha cabeça, ao ver Amanda derrotada e cabisbaixa, sentada em uma cadeira dura de plástico, como uma condenada aguardando a sentença final, tudo ficou frio, sombrio e obscuro ao meu redor. Qual besteira Mandy tinha feito? Antes que eu pudesse chegar até minha sobrinha, uma mulher magra e curvada demais para ser considerada saudável abriu a porta de vidro com o nome “diretoria” estampado em letras garrafais. Ela me encarou de cima a baixo, e eu tentei não levantar o nariz ou usar minha usual máscara de arrogância — muitas vezes utilizada para me impor. Exibi apenas um largo sorriso como forma de cumprimento. A mulher não esboçou reação. O clique dos meus saltos contra o piso de linóleo soou mais alto ainda. — O que deseja? — A voz fina combinava com ela, era arrepiante. — Sou tia de Amanda Clark. Apontei com a cabeça para a menina de tranças desfeitas a poucos passos de nós. — Sei quem você é, mas o diretor já está ocupado com os pais dela. — A ênfase dada à palavra pais deixava claro que eu era peça sobressalente ali. A mulher se afastou, permitindo que eu entrasse no cubículo apertado que era a sua sala. Seu nome, Sara Greinberg, estava estampado em uma pequena placa metálica ao lado de uma confusão de papéis, canetas, pastas e um computador fabricado no século passado. Será que a escola exigia organização por parte dos alunos? Considerando a mesa da secretária, não. Vozes exaltadas vindas da sala do diretor podiam ser ouvidas, mesmo com a parede nos separando. — Vim pela minha sobrinha, prefiro aguardar lá fora com ela. — Tentei soar o menos hostil possível. Mandy já tinha problemas suficientes, não precisava da tia discutindo com a secretária da escola. Amanda me abraçou assim que sentei ao seu lado. O rosto estava úmido de lágrimas, a mochila, largada no chão. Ela estava muito nervosa, abria e fechava a mão, dedos avermelhados, quase esfolados. Não tive tempo de perguntar o que tinha ocorrido, o barulho de vozes exaltadas se tornou mais alto. Derek e Holly surgiram no corredor com expressões controladas, a raiva escondida em um semblante cortês. Holly, que havia decidido ser ruiva para combinar com os olhos verdes e o novo status de solteira, me acusou de ser a culpada. Segundo ela, Amanda havia quebrado uma das principais regras da escola: não brigar com outra criança. Ambos se machucaram, e o diretor passou as últimas duas horas convencendo os pais do garoto a não abrir um processo. — A violência nunca é a resposta! — Ela puxou a menina com força pelo braço. Se não fosse a pequena careta que Mandy tentou esconder ao ter o braço fincado pelas unhas da mãe, eu riria da ironia daquelas atitudes. — Você acha que para mim é? — Ouvi a severidade em minha voz e sabia que ela tinha percebido também. Pela primeira vez, Holly parecia desconfortável. — E-eu não disse… — Não disse — Derek a interrompeu, pegando a filha no colo. — Mas pensou. O ultraje de Holly era evidente em toda sua cara azeda. A ira se transformou em desdém quando se virou para mim, me analisando da cabeça aos pés: — Acha que é mulher só porque está toda elegante em um salto alto? Você é uma selvagem, todos são. Eu não aguento mais essa família! — A única problemática aqui é você, Holly! — Olhei para Amanda escondendo o rosto no pescoço do pai. — Veja o que essas brigas fazem com a sua filha. E nenhuma foi em ringue, tudo por causa da língua afiada e falta de noção dos dois. Discutam seus problemas sozinhos e deixem a menina de fora. Sua filha me ligou porque estava preocupada e com medo da sua reação, e eu sou a selvagem? Fingi não notar o leve rubor colorindo as outrora pálidas bochechas de Holly ao perceber a ênfase que dei em algumas palavras. Aquele era outro lado r**m da luta. As pessoas nos viam como selvagens ou brigões. Muitos tinham a terrível mania de me julgar e achavam que eu precisava ser bruta e pouco feminina. — Ela tem razão — Derek interveio, percebendo que a ex-esposa estava prestes a explodir de raiva. Para uma mulher supostamente elegante e pacifista, Holly tinha pouco autocontrole. — Diana, leva a Mandy para a academia, por favor. Preciso ter uma conversa com a mãe dela. Amanda e eu andamos em silêncio até o carro. Ela m*l sentou no banco detrás, e eu já havia começado o meu sermão: — Que ideia foi essa? Você quer ser tirada de nós? Acha que chamando atenção vai unir seus pais? — disparei e respirei fundo, percebendo que, sim, talvez ela quisesse aquelas coisas. — Nós não lutamos fora do ringue, ok? Por favor, meu amor, me conte tudo. Mandy largou a mochila rosa em cima do banco de couro e levantou a cabeça para falar comigo. Aquele era um dia de surpresas. Eu esperava encontrar olhos vermelhos e chorosos, algum sinal de arrependimento. Contudo, ao se sentir segura e longe da fúria dos pais, encontrei em minha sobrinha apenas determinação. Até seu timbre era firme quando falou: — O garoto disse que eu era muito fraca para ser uma Clark e espalhou para a escola que eu era adotada. Pensei em você, tia. Em como você me faz rir, como gosta de dançar comigo e em como é outra pessoa quando sobe no ringue. Tentei ser igual e descobri como posso ser forte. Agora ele sabe disso também. Amanda tinha mais percepção do que muitos adultos. Ela tinha razão, eu me tornava outra pessoa. Focada e feroz. Obstinada. Como poderia brigar com aquela garota, se ela era como eu quando criança? Eu tinha um ano a menos que ela quando comecei no boxe! A vida era feita de escolhas, e eu estava prestes a fazer mais uma. — Vou te dar uma escolha — Acionei o motor do carro e encarei seus olhos azuis através do retrovisor. — Você pode treinar comigo e nunca mais brigar na escola ou… Não precisei dar outra alternativa, o êxtase em seu semblante me dizia tudo. Boa garota.  
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD