Carmelita estava preocupada, apesar de feliz.
A conversa que teve com Sônia ainda estava em sua cabeça, afinal, depois de quase 19 anos sua irmã havia resolvido fazer uma ligação para pedir um favor. Apesar de não guardar rancor pelo abandono, ainda sentia certo receio, sua irmã havia deixado um grande buraco em seu coração quando se foi sem sequer querer saber como ela ficaria.
Sônia e Carmelita sempre foram diferentes demais e, quando os pais faleceram, a diferença só se tornou ainda mais gritante. Enquanto Carmelita não se importava com a vida simples e gostava de estar entre as pessoas, Sônia queria mais, queria ser superior. Quando Carlos se interessou por ela, a mulher sentiu que tinha tirado a sorte grande e tratou de casar-se o mais rápido possível com o bancário.
Quando ela se foi, não olhou para trás e nem falou com Carmelita de novo, nem quando sua filha nasceu, Juliana nunca conheceu a tia ou soube de onde sua mãe vinha, sempre acreditou que Sônia era filha de ricos empresários que haviam falecido quando ela inda era jovem. A senhora Gonçalvez sempre fez de tudo para esconder suas origens e, agora, seria obrigada a voltar para o morro.
Mas, apesar da história complicada, Carmelita jamais deixaria sua irmã e sua sobrinha passando necessidades. Estava feliz e animada para conhecer Juliana e, antes mesmo que as duas chegassem naquele dia, a mulher havia se levantado bem cedo e, antes mesmo do meio dia, já havia passado na escola mais próxima para cuidar de conseguir uma vaga para sua sobrinha.
Também havia ajeitado o quarto que estava sobrando para Juliana, acreditava que uma jovem daquela idade precisava do próprio espaço e, por isso, dividiria um quarto com sua irmã e deixaria o outro para Juliana. Nele ela havia colocado uma cama de solteiro que havia comprado de segunda mão com sua vizinha, um colchão fofo e confortável, uma mesinha para que ela conseguisse estudar e também um ventilador. A cama estava forrada com uma colcha bonita e decorada com várias florzinhas de várias cores, na janela que trazia iluminação ao melhor quarto da casa, havia uma cortina rosa que impedia que o sol entrasse completamente, mas que ainda permitia a iluminação.
A casa estava cheirando a aromatizantes florais e todos os vizinhos já sabiam que ela iria receber seus parentes, afinal, Carmelita fez questão de avisar a todos que sua irmã e sua sobrinha iriam passar uns tempos na casa dela. Então, antes mesmo que elas chegassem, todos já estavam sabendo que vinham, afinal, Carmelita era a tia das cocadas mais gostosas dali, logo, todos a conheciam.
Não que a fofoca fosse algo que não se espalhasse fácil no morro da Babilônia, principalmente uma como aquela.A esposa e a filha de um banqueiro que foi preso estavam se mudando, tinha como ser mais empolgante?
Enquanto Carmelita arrumava a casa e fazia um almoço bem reforçado para quando as duas chegassem, do outro lado do Rio de Janeiro, Juliana e Sônia terminavam de arrumar as malas. Enquanto sua mãe o fazia com a maior rapidez possível, tentando fugir do sentimento de fracasso que a consumia, Juliana colocava lentamente suas roupas numa mala, seus pertences pessoais em caixas e tudo o que podia levar consigo em grandes embalagens.
Ainda não conseguia aceitar que estavam saindo da casa onde nasceu e cresceu, que estava sendo obrigada a deixar toda sua vida para trás para se mudar para um lugar que nunca viu na vida. Era uma coisa que não entrava na cabeça dela não ainda.
Para piorar tudo, ainda havia a ligação do dia anterior que não saia de sua cabeça, o garoto que estava, supostamente, apaixonado por ela agora tinha algo com sua “melhor amiga”. No fim, naquele momento, Juliana sabia que tudo o que viveu foi um jogo de poder e influência, Carla era mais influente que ela agora e Jonas havia feito uma troca de modelo, escolhendo o melhor e mais vantajoso.
Quando terminou de arrumar tudo e desceu as escadas, sua mãe já estava esperando próxima a porta de entrada. Sônia estava tão silenciosa quanto Juliana e, quando as duas saíram, levando suas malas para fora com a ajuda do taxista, foi impossível não notar os rostos curiosos do lado de fora. As duas conheciam todos eles, eram seus vizinhos, antigos amigos que agora pareciam urubus loucos pelo fracasso das duas mulheres, observando o que, para eles, significava a derrota das duas.
Enquanto entrava no carro, Juliana não conseguia encarar os olhares curiosos de todos, diferente de sua mãe, que caminhava de cabeça erguida. Sonia jamais daria o gostinho para todas aquelas pessoas de sair de cabeça baixa como uma derrotada e, depois de bater a porta do carro e por o cinto de segurança, ela jurou que, um dia, voltaria a morar naquele lugar somente para esfregar na cara de todos que não era uma fracassada.
— Mãe, pra onde vamos? — ela perguntou, olhando para a mãe com preocupação. — Onde vamos morar?
—Juliana, você precisa entender que tudo vai ser diferente agora — sua mãe falou se virando para ela e colocando a mão direita em seu ombro. — Vamos para a casa da minha irmã, você vai conhecer sua tia.
— Eu… Eu não sabia que você tinha uma irmã — ela respondeu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Vamos morar com ela?
— Vamos sim, mas as coisas não vão ser como eram na nossa casa, você vai precisar se acostumar — então, dito isto, Sônia se calou e virou o rosto para a janela, observando enquanto o carro seguia para fora do condomínio.
O caminho foi silencioso.
Juliana percebeu seu bairro ficando para trás, as ruas bonitas e elegantes ficando para trás cada vez mais. Passaram pelo centro comercial, pelas ruas abarrotadas de lojas e pessoas, por locais que Juliana nunca havia visitado, mesmo morando no Rio desde que nasceu. Ruas mais populares foram entrando em seu campo de visão enquanto ela encarava a janela, chocada com o tamanho das casas e a distância entre uma e outra.
Mas seu choque foi ainda maior quando o carro começou a subir uma grande ladeira, onde as casas seguiam o mesmo padrão de serem extremamente próximas. Enquanto o veículo subia devagar, Juliana conseguia ver crianças correndo e brincando aqui e ali, garotas com estilos muito diferentes do dela andando tranquilamente pelas ruas. Haviam casas maiores, outras menores, algumas ainda em construção, algumas com carros com som ligado nas alturas nas portas.
Com certeza aquilo era novidade para a patricinha.
O taxista fez uma parada quando alguns homens se aproximaram do carro abaixando o vidro do seu lado e pondo a mão para fora, cumprimentando um dos homens e rindo para um outro que deu dois toques na janela de Juliana e acenou.
— Oh, Juca — o que estava ao lado da janela de Juliana chamou. — Quem são essas duas tias ai? Aquela ali não me parece estranha — ele apontou para Sônia, que se encolheu no banco. — Eu não mordo não, tia!
— Essas são parentes da Carmelita, cara — Juca respondeu olhando para trás. — Trouxe elas duas lá do Leblon, acredita?
— Leblon? Que que essas dondocas tão fazendo aqui? — Um outro cara se aproximou do carro, apontando para Sônia. — O tia, avisa pra Carmelita que mais tarde eu vou dar uma passada lá.
— Tudo… tudo bem — Sônia respondeu, tão baixo que eles m*l a ouviram.
— Pode subir, cara, achei que era gente estranha! — Um outro falou, dando dois tapinhas no ombro de Juca. — Malvadão mandou a gente ficar de olho hoje, disseram pra ele que tava tendo um movimento estranho lá pra baixo.
— Tudo bem, já já eu to descendo — Juca falou, voltando a acelerar o carro e olhando para as duas mulheres no fundo. — Esses caras são gente boa, mexem com aquelas coisas, sabe? Mas ainda assim são bem tranquilos.
— Não sei como pessoas que cometem crimes podem ser “tranquilas” — Sônia retrucou, fazendo aspas com as mãos, claramente contrária a fala do motorista.
— Oh, dona — Juca começou, seguindo com o carro em direção a casa de Carmelita. — Tu não tem muita moral pra falar sobre isso não, né? Vi o caso do teu marido.
A resposta do motorista calou Sônia sem muito esforço e, olhando para o lado, ela notou a expressão congelada da filha. Juliana estava em choque, sua mãe não havia lhe falado para onde estavam indo e saber, mesmo que associação, que morariam ali a fez querer sair correndo do carro e voltar para a casa que nem era sua mais.
— Mãe… Para onde estamos indo? Vamos morar… aqui? — ela perguntou, sua voz ficou um pouco mais fina quando pronunciou a palavra final, apontando para a janela.
— Conversamos sobre isso depois, Juliana — Sônia falou de forma bem direta. — Sem ataques agora.
— Fica assim não, menina — Juca se intrometeu, enquanto estacionava o carro. — Vai gostar daqui.
Dito isto, o carro parou na porta de uma casinha mediana e simples de paredes amarelas, mas desbotadas pelo tempo. A pintura já estava um pouco descascada, mas, mesmo assim, a casa ainda era a mesma que Sônia se lembrava.
Quando saiu do carro, foi direto no porta-malas ajudar Juca a descarregar tudo, mas Juliana continuou no carro. Enquanto ela tentava puxar a grande mala de sua filha, penando para conseguir levantá-la, ela ouviu uma voz atrás de si:
— Sônia! — Carmelita correu até a irmã, a abraçando sem timidez alguma, fechando os braços ao redor de sua irmã com carinho. — Senti tanto sua falta!
As duas se abraçaram enquanto Juca tirava uma das malas do carro, levando para a calçada da casa de Carmelita. Apesar de jurar que não ia voltar, Sônia não estava realmente triste, na verdade, ver sua irmã foi mais gostoso do que ela imaginou, abraçar Carmelita trouxe um calor para seu coração e espantou a tristeza.
— Sonia! Você não mudou nadinha, tem a mesma cara de quando a gente era adolescente! — A voz conhecida chamou a atenção das duas mulheres, que se soltaram uma da outra. — Lembra de mim?
Suzana tinha um grande sorriso no rosto, estava de folga do trabalho no hospital naquele dia, a enfermeira havia acabado de acordar somente para ir receber a antiga amiga de adolescência que estava realmente, bem parecida com a última vez que a viu.
Sônia não deixou de reparar em Suzana e em como ela também não havia mudado muito, tirando as olheiras escuras abaixo dos olhos castanhos. As duas se abraçaram e, só depois de soltá-la, a mulher percebeu o bonito rapaz que tirava uma das malas de dentro do carro.
— Olha ali, aquele é meu menino — Suzana apontou para o rapaz. — Um menino de ouro, Mateus, vem cá!
Quando ouviu sua mãe o chamar, Mateus se virou para o grupo de mulheres e sorriu, sabia que, com certeza, sua mãe começaria a falar para as outras duas sobre como ele era um menino bom e como ajudava em casa sempre que podia. Ele sempre ficava envergonhado nesses momentos, mas não podia tirar de dona Suzana o momento que ela mais gostava nessas visitas, falar bem do seu menino.
Ele estava usando uma bermuda e chinelos, sua camisa estava pendurada em seu ombro por causa do calor e seus cachos estavam meio bagunçados, o que dava um aspecto ainda mais bonito ao seu rosto, afinal, alguns cachinhos caiam sobre seus olhos vez ou outra.
— Mateus, essa é Sônia, uma amiga minha da época que eu estudava, ela é irmã da Carmelita, acredita? — Suzana falou, sorrindo para o filho.
— Oi, tia — ele falou, acenando para Sonia e sorrindo. — Tem mais mala para pegar?
— Juca já levou o resto, obrigada, meu filho — Carmelita falou, porém, enquanto olhava para Mateus, seus olhos escuros brilharam levemente e ela se virou para a irmã. — Sônia, cadê tua menina? Mateus estuda na mesma escola que matriculei ela!
Só então Sônia lembrou que Juliana havia continuado no carro e, quando se virou, viu a filha praticamente deitada no banco na esperança de passar despercebida, o que a fez querer rir. Sabia que aquele seria um baque para a menina, mas não havia o que fazer e, no geral, as pessoas estavam sendo bem mais simpáticas do que ela imaginou.
— Ela é tímida — Sônia falou, se virando para ir até o carro e dando dois toquinhos no vidro, olhando para a filha. — Não vai poder morar aí, Juliana.
A fala de sua mãe chegou meio abafada dentro do carro, mas Juliana sabia que precisava sair, então, se ajeitando e passando a destra nos cabelos, ela abriu a porta, saindo do carro com os ombros escolhidos. Estava apavorada e não sabia onde enfiar a cara, envergonhada por estar sendo alvo dos olhares curiosos de Suzana e Carmelita.
Quando ergueu os olhos, pronta para cumprimentar a todos e finalmente conhecer a tia misteriosa que morava naquele fim de mundo, seus olhos caíram sobre um garoto que, sem sombra de dúvidas, era, para ela, o garoto mais bonito que havia visto.
Seus olhos desceram do rosto dele para o peitoral largo e forte, observando a pele caramelada e quase brilhante, voltando para cima para encarar os lábios bem desenhados e carnudos, os olhos de um castanho intenso e bonito e, só então, percebeu que estava babando descaradamente em cima dele na frente de todos.
Mateus estava com um sorriso descontraído nos lábios enquanto falava com sua mãe, mas quando ela apontou para Juliana, ele voltou os olhos para ela e seu sorriso morreu lentamente enquanto a observava. Percebeu o olhar de Juliana o analisando demoradamente e não conseguiu evitar fazer o mesmo seus olhos se fixaram nela e, diferente da loira, que desviou os olhos quando se viu pega no flagra, ele continuou encarando.
— Essa é minha filha, Juliana — Sonia apresentou, assim que se aproximou junto com a garota. — Fala um oi menina, o gato comeu sua língua?
Ver o garoto desconhecido de perto fez sua garganta trancar e ela ficou longos instantes para conseguir recuperar o comando de sua própria voz de novo, afinal, mesmo que ela quisesse falar e deixar de parecer uma idiot4, simplesmente não conseguiu, principalmente quando sentiu o perfume dele e quando o viu estreitar ainda mais a distancia entre os dois, sorrindo e inclinando a cabeça para o lado enquanto falava:
— E ai, loirinha!
— Meu... Meu nome é Juliana, não Loirinha! — ela respondeu, quando voltou a si, soando um pouco mais na defensiva do que esperava.
— Desculpa aí, você é brava, né? — ele voltou a provocar, recebendo um olhar mortal dela, que o fez erguer as mãos em sinal de rendição. — Não tá mais aqui quem falou, Loirinha.
— Não provoca a menina — Suzana reclamou, batendo no ombro do filho, que somente riu, passando a mão no braço. — Ela é uma beleza só, Sônia!
— Juliana, aquela ali é Carmelita, a partir de hoje, nós vamos morar com ela! — Sônia comunicou fazendo Juliana dar um sorriso amarelo para a tia.
Carmelita a abraçou e fez um carinho em seus cabelos, deixando um beijo em sua bochecha e, depois de se afastar, segurou seu rosto entre as mãos, olhando para Juliana com um sorriso e falando:
— Oh, menina, eu entendo que não é o que você tá acostumada, mas é uma casa de muito amor!