Capítulo 09 - Treino

1940 Words
Atena Oliveira 26/04 | Barcelona, ES Meus chutes acertavam o ar com precisão, mas cada movimento parecia arrancar mais do pouco fôlego que ainda me restava. Miguel se movia ao meu redor como se estivesse em câmera acelerada, trocando de posição para que eu o acompanhasse. Ele queria testar minha resistência, e eu estava determinada, mesmo que meu corpo gritasse por pausa. — Você precisa respirar, Atena — ele advertiu, desviando de um dos meus golpes com facilidade. — Sua respiração é o que te mantém de pé. Se você perde o controle dela, perde tudo. Fica lenta, fraca, exposta. Assenti, tentando forçar minha respiração a entrar em um ritmo estável, mas era inútil. Assim que me concentrava na respiração, perdia a agilidade. E quando buscava a agilidade, minha respiração desandava por completo. Foi nesse desequilíbrio que Miguel segurou minha perna no meio de um chute e me derrubou com precisão cirúrgica. — Se fosse uma briga pela sua vida… — disse ele, com a calma de quem comenta o clima. — Você estaria morta. Bati a mão no chão, frustrada, antes de me levantar com a ajuda dele. — Eu tento — admiti, com um suspiro pesado — mas não consigo focar nas duas coisas ao mesmo tempo. Não ainda. Miguel sorriu de lado, aquele sorriso irritantemente paciente. — Então treine durante as aulas que você dá. Ensine e respire junto. O corpo aprende quando é forçado a se adaptar — sugeriu. — Agora, pausa para hidratação. Caminhei até o bebedouro tentando ignorar o fato de que eu estava exausta. Meu rosto ardia, minha roupa grudava na pele e o suor queimava meus olhos. Antes que eu pudesse beber, Elena praticamente surgiu do nada ao meu lado, com um brilho exagerado nos olhos. — Você não tem ideia de quem acabou de chegar — ela falou, abanando as mãos como se tivesse dificuldade de controlar a excitação. Ergui uma sobrancelha, desconfiada. — Quem? A recepcionista apareceu de trás do balcão, chamando: — Atena! Tem um rapaz querendo falar com você! Meu coração deu um salto. Eu sabia quem era antes mesmo de olhar para Elena, que sorria como se fosse Natal. — Não. — foi tudo o que consegui murmurar. — Pois é — ela respondeu, triunfante — ele veio. Elena praticamente me empurrou até a recepção. E lá estava ele. Vicente. Ele parecia ainda mais marcante do que na noite da boate. Usava um terno impecável, preto, com detalhes sutis em dourado. O perfume dele chegou antes da voz, discreto, mas intenso. Assim que me viu, seu sorriso apareceu, pequeno, mas totalmente intencional. Porém, o que me pegou desprevenida foram seus olhos. Eles me analisaram por inteiro, lentamente, de baixo para cima. E só então percebi a minha situação. Eu estava de legging, top esportivo, suor escorrendo pelas têmporas, cabelo preso às pressas. Resumindo: eu estava o completo oposto da versão que ele conheceu. Ótimo. Porque não ser humilhada antes das dez da manhã, não é mesmo? — Então você me achou — falei, finalmente chegando perto. — Você duvidou que eu conseguiria — retrucou, com aquele tom de provocação tranquila. Sorri de canto, meio sem graça. — Talvez eu não esteja tão… apresentável quanto naquele dia. Ele negou com a cabeça, firme. — Sendo sincero, você está ainda mais bonita — disse, sem hesitar. Eu senti o calor subir, e não era do treino. Olhei para o lado, tentando recuperar o controle da minha própria cara. Ele observou o ambiente ao redor. — Então é aqui que você trabalha? Assenti. — Dou aulas de boxe para iniciantes. Seus olhos se arregalaram levemente, um misto de surpresa e admiração. — O quê? — soltei, rindo. — Achou que eu ficaria na recepção? Ele riu também. — Não combina com você — afirmou. — E agora que sei o que faz, não consigo imaginar você fazendo outra coisa. Um elogio legítimo. E eu senti. — Bom — ele continuou — agora que finalmente te encontrei, posso ter seu contato? A parte racional da minha mente gritou que eu estava cometendo um erro. Eu não podia me distrair. Não aqui. Não agora. Mas a outra parte de mim, aquela que reconheceu algo nele desde o primeiro instante, pegou o papel e a caneta antes mesmo que eu pensasse. Entreguei o número. Ele sorriu — lento, satisfeito. — Mais uma coisa — disse. — O quê? — perguntei. — Quero me inscrever no boxe. Eu pisquei, sem acreditar. — Está falando sério? Ele se aproximou da bancada. — Passo tempo demais preso em reuniões. Preciso de algo que me mantenha vivo. Havia algo nos olhos dele. Não era só vontade de treinar. Era algo que queimava baixo, silencioso, como se ele precisasse descarregar um peso que ninguém via. — A matrícula é ali — falei, apontando. E ele foi. Enquanto conversava com a recepcionista, senti meu coração acelerar levemente, pois só agora percebi que eu que lhe daria aulas. (...) Vicente não foi embora, muito pelo contrário, foi até o carro e pegou uma mochila. Trocou de roupa e veio para o treino. Ele literalmente tinha acabado de se matricular e já queria treinar. Ele estava parado no centro do tatame, observando a movimentação da academia, como se estivesse tentando absorver tudo ao mesmo tempo. Ele ainda trajava uma camiseta preta simples, exibindo seus braços tatuados e musculosos, e uma calça de treino leve. Nada de terno, mas mesmo assim, ele parecia ocupar espaço demais. Como se a sala inteira girasse ao redor da presença dele. Respirei fundo antes de me aproximar. Eu precisava manter minha postura. Aqui, eu não era a garota da boate. Eu era a instrutora. — Primeira regra — falei, chamando sua atenção — aqui dentro, você me escuta. Se fizer algo errado, eu corrijo. Se achar que sabe mais do que eu, vai se machucar. Ele ergueu uma sobrancelha, mas não em desafio. Parecia… curioso. — Entendido — respondeu. Assenti e bati levemente no seu braço, indicando que me seguisse. Parei diante do espelho grande que cobria a parede principal. — Primeiro, postura. — toquei seu ombro — Afrouxa aqui. Você está muito rígido. Ele tentou relaxar, mas continuava parecendo prestes a entrar em batalha. — Não é uma reunião, Vicente. Pode respirar. — coloquei minha mão no centro de seu peito — Respira aqui. Não só no pulmão. No corpo todo. Ele seguiu minha instrução. Devagar. Quase solene. — Agora, pés — toquei seu tornozelo com a ponta do meu pé — o esquerdo fica um pouco à frente. Corpo inclinado levemente. Peso distribuído. Você não é pedra. Se ficar duro demais, qualquer um te derruba. Ele ajustou, e ficou… perfeitamente alinhado. Como se tivesse feito isso antes. — Você já lutou. — afirmei, não perguntei. — Já. Mas nada de boxe. — respondeu, sincero e breve. — Isso ajuda de qualquer forma, mas aqui, sua força não importa se sua técnica for r**m. Ele sorriu com o canto da boca. Aquela expressão de quem aceitou o desafio. — Me mostra — disse, me olhando. Ergui meus punhos, demonstrando devagar. — Jab. Movimento direto, rápido. Punho fechado, mas o braço relaxado. Você não golpeia com o braço, golpeia com o corpo. Mostrei o golpe no ar, leve, controlado. O impacto não conta se ele não for preciso. Ele me observava como se cada pequeno movimento tivesse significado. Havia algo na forma como ele prestava atenção… como se estivesse me vendo além do exterior. E isso era assustador. — Sua vez. — disse, tentando tirar o peso do seu olhar de mim. Ele ergueu os punhos. E, no primeiro movimento, errou. Força demais. Rigidez demais. A mão passou rápida, mas dura, como se fosse quebrar algo. Segurei seu punho no ar. — Não é sobre destruir — falei, olhando direto nos olhos dele — é sobre direcionar. Nossos rostos estavam perto demais. Eu senti a respiração dele encostar na minha bochecha. Meu coração deu um passo à frente antes de mim. Soltei sua mão, voltando ao meu lugar, enquanto meu peito batia forte. — De novo. — ordenei. Ele tentou de novo. Dessa vez, mais fluido. Mais leve. Mais certo. — Isso. — elogiei, sem esconder. — Parece fácil quando você faz. — ele murmurou. — Só parece — respondi, com uma meia risada. Treinamos por longos minutos. Golpes, respirações, posturas. Ele se esforçava, se ajustava, aprendia. Era disciplinado. O tipo de pessoa que não aceita fazer algo pela metade. No final, ele estava com o peito subindo e descendo rápido. Suor marcava sua camiseta. Seus cabelos estavam um pouco bagunçados. E seus olhos… estavam fixos em mim. — Esse foi o treino de hoje — falei, entregando a ele uma garrafa de água. — Tem alguma dúvida? Ele assentiu, e foquei minha atenção nele. — Gostaria de saber se minha professora gostaria de almoçar comigo? — perguntou, me pegando desprevenida. Senti novamente meu rosto esquentar, mas fingi naturalidade. Mas, antes de responder, pensei em algo melhor. — Bom… eu aceito, caso você me vença em um golpe. — falei e vi ele arquear a sobrancelha, surpreso. — Você gosta mesmo de um desafio, né? Assenti, sorrindo. — Preciso te levar ao chão? — Se você conseguir. — desafiei e ele gargalhou. Ele avançou primeiro, como eu esperava. Ombros firmes, olhar focado. Vicente tinha uma postura surpreendentemente boa para alguém no primeiro dia, o que só confirmava o que eu já sabia: disciplina não era problema para ele. Desviei do primeiro cruzado com facilidade, toquei sua guarda com as pontas dos dedos, provocando. — Mantenha o cotovelo mais próximo do corpo — instruí, circulando ao redor dele. Ele corrigiu. Rápido. Os olhos dele brilhavam, como se cada segundo ali fosse uma pequena vitória. Quando ele veio de novo, tentei o mesmo movimento anterior, pronta para desviar. Mas ele aprendeu. No instante em que meu peso mudou para a perna esquerda, a mão dele segurou meu braço, o ombro dele veio para frente e, antes que eu pudesse reagir, meu corpo já estava no chão. O impacto não doeu. O que doeu foi o que veio depois. Ele caiu junto, mas de forma controlada, me imobilizando. Uma das pernas dele prendia a minha. A mão dele segurava meu pulso acima da minha cabeça. E a outra estava apoiada perto da minha cintura, firme o bastante para me manter ali, suave o bastante para não parecer agressivo. A respiração dele batia no meu rosto, quente. Eu podia sentir o perfume dele misturado ao suor. E os olhos dele… tão próximos. Tão atentos. Tão perigosos. Meu coração bateu forte, alto demais dentro do peito. Era ridículo. Eu não perdia o fôlego assim. Não por ninguém. Mas ali, presa sob ele, eu senti meu corpo reagir antes da minha mente. — Parece… — ele começou, a voz baixa, rouca pelo esforço, — que você subestimou seu aluno. Eu tentei manter a expressão neutra, mas minha garganta secou. Ele sabia. Claro que sabia. Me soltei rápido, virando o rosto para o lado antes que ele percebesse o vermelho subindo pela minha pele. Só que ele percebeu. Óbvio que percebeu. Ele riu pelo nariz, não de deboche, mas de quem acabou de ganhar mais do que uma aposta. Se afastou devagar, deixando espaço suficiente para que eu respirasse de novo. Eu me sentei, recompondo o r**o de cavalo, focando em qualquer coisa que não fosse o fato de que meu corpo ainda lembrava o toque dele. Ele se levantou, e estendeu a mão para mim. Peguei por reflexo. Quando fiquei de pé, ele só disse: — Então… acho que ganhei o almoço.
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