Capítulo 10 - Almoço.

1240 Words
Dom Castilla 26/04 | Barcelona, ES O cheiro que invadiu minhas narinas quando entramos no Arcano Restaurant era um convite perigoso. Aquele aroma de azeite trufado e vinho caro misturado ao perfume de Atena era o tipo de combinação que poderia enlouquecer qualquer homem com um mínimo de instinto. O lugar tinha uma aura intimista. Luzes amareladas, música suave em um volume quase imperceptível, e mesas dispostas para garantir privacidade. Madeira escura, velas discretas e o som distante de taças se tocando. Um refúgio elegante no meio de Barcelona. Atena caminhava ao meu lado, ainda um pouco suada do treino, o corpo coberto apenas pela roupa esportiva. Isso não parecia incomodar ela, mas assumo que em mim um leve incomodo queimava, principalmente após perceber alguns olhares sobre ela, mesmo estando acompanhada por mim, alguns homens não pareciam se importar. Entretanto, eu sabia que a sua confiança preenchia o ambiente com a mesma intensidade que o cheiro do vinho aberto. Quando nos sentamos frente a frente, pedi vinho tinto e ela, água com gás. Fizemos o pedido e, quando o garçom se afastou, notei que ela ainda observava os detalhes do lugar, com um leve franzir no cenho. — Algo incomoda você? — perguntei, apoiando o cotovelo na mesa. Admirei cada detalhe do seu rosto. Atena tinha olhos extremamente azuis, quase cinza. Eles eram levemente curvados para cima no canto exterior, deixando seu olhar ainda mais marcante. — Estou pensando em como minhas roupas parecem completamente fora de lugar aqui — respondeu, sem rodeios. Dei uma risada curta, observando como ela não parecia envergonhada, apenas consciente. Apreciei isso nela, normalmente as mulheres com quem eu costumava sair com certeza prezariam pela elegância do que pelo conforto, Atena parecia pensar o contrário disso, o que a tornava cada vez mais intrigante. — Aposto que ninguém aqui se importa — afirmei. — Aliás, se alguém reparar em você, não será pelas roupas. Sua presença com certeza está chamando mais atenção do que suas roupas. Ela arqueou uma sobrancelha, e um pequeno sorriso se formou em seus lábios. Eram carnudos, rosados, do tipo que chamava atenção sem esforço. Percebi isso desde a noite na boate e o pensamento de beijá-la me atravessou de novo, intenso, inoportuno. Era estranho. Eu nunca fui o tipo de homem que se perdia em beijos. Sempre pulei essa parte, indo direto ao que realmente importava. Beijar parecia íntimo demais, quase pessoal, e costumava deixar as mulheres sentimentais. Mas com ela… a ideia soava menos como perda de tempo e mais como tentação. — Isso foi um elogio disfarçado? — Foi um fato — retruquei, olhando fixamente para ela. Silêncio por alguns segundos. O tipo de silêncio que não incomoda, nada com ela incomodava e isso de certa forma parecia assustador. Apenas resolvi ignorar. Ela encostou o copo de água nos lábios, bebendo devagar. O movimento foi hipnotizante. Senti meu corpo estremecer e uma parte de mim ganhar vida. Mierdå. — Você fala como um homem que sabe o efeito que causa — disse, pousando o copo na mesa, enquanto seus lábios curvaram em um sorriso provocativo. Tentei ajeitar minha calça, sem demonstrar meu problema evidente. Que merda estava acontecendo comigo? Pareço um cão em condicionamento. Dios mío! — E você como uma mulher que não se deixa afetar. — Talvez eu só esconda bem — provocou. Sorri. Ela era perigosa. Do tipo que sabe o que diz e o que quer. Eu gostava disso. Para um caralhø. O garçom trouxe mais vinho e serviu em silêncio. Quando ele se afastou, inclinei levemente à frente, cruzando os braços em uma postura prepotente. — E o que uma mulher como você faz ensinando boxe? Minha pergunta carregava uma curiosidade genuína. — Ensinar boxe é libertador, de certa forma às vezes é terapêutico. — respondeu, rápida. — Mas não é só isso. Eu gosto da sensação de controle. Do foco. Do domínio sobre o próprio corpo. A palavra “domínio” em seus lábios soou extremamente atraente. Ela parecia ser uma pessoa dominadora, e eu não ficava atrás. Isso deixava tudo mais interessante… — Já lutou antes de ser instrutora? — perguntei, interessado. Ela se recostou na cadeira, cruzando as pernas. — Fui militar por alguns anos. Aquilo me pegou de surpresa. Putå mierdå. Essa mulher conseguia ficar ainda mais sexy ao decorrer do quanto eu ia conhecendo-a. — Militar? — repeti, estudando seu rosto. Sem esconder minha surpresa. — Sim. — Ela sustentou o olhar, firme. — Meu pai foi militar, me treinou para resistir, obedecer e reagir. Mas, eventualmente, aprendi a desobedecer também. Sorri de lado. — Gosto da parte da desobediência. Atena riu baixo, mordendo levemente os lábios. — Aposto que gosta. O ar pareceu mais denso, o ambiente mais quente. Os olhos dela prenderam os meus, e eu percebi a maneira como a luz refletia no azul de suas íris. Era impossível não notar a força ali. Um tipo de beleza que não implorava atenção, apenas a exigia. — E “Atena”? — perguntei, curioso. — Nome um pouco incomum. — Meus pais eram obcecados por deuses gregos. — Ela deu um meio sorriso. — Minha mãe achava que, se me desse o nome da deusa da sabedoria e da guerra, eu herdaria alguma coisa disso. — E herdou? Ela inclinou a cabeça, arqueando uma sobrancelha. Sorri, me inclinando também. Pude ver chamas em seus olhos, e aposto que ela conseguia ver isso em mim também. — Depende de quem pergunta. — respondeu, ainda me olhando. — Eu. — falei, a voz saindo mais rouca do que o desejado. — Então, sim — respondeu, com ironia. Voltando a se recostar na cadeira. — Tenho a sabedoria suficiente para não me meter com homens que acham que podem me decifrar, e a fúria suficiente para lidar com os que tentam. Soltei uma risada genuína, encostando minhas costas na cadeira. — Acho que você acabou de me descrever, Atena. — Então boa sorte, Vicente — disse, com um olhar afiado. — Eu costumo deixar os curiosos sem respostas. — Eu costumo conseguir o que quero — rebati. Ela se inclinou um pouco à frente, o que fez seu perfume se misturar novamente ao vinho no ar. — Vamos ver quem é mais teimoso, então. — rebateu, em seguida bebendo um pouco da água. A tensão entre nós era quase palpável. Não havia nada doce ali, somente faísca, provocação e algo mais profundo, escondido atrás de cada palavra. Ela deu outro gole na água, olhando fixamente para mim, como se tentasse me avaliar através do meu exterior. — E você? — perguntou, cruzando os braços. — Qual é a sua história? — História? — repeti, escolhendo as palavras. — Um homem que trabalha demais, dorme pouco e treina para não enlouquecer. Ela o encarou por um instante. — Soa solitário. — disse. — Soa realista. Ela desviou o olhar, mas o sorriso ainda estava nos lábios. — Talvez você devesse investir na carreira de poeta. Gargalhei. Atena sorriu. Era engraçado a forma que ela conseguia me pegar desprevenido, quando eu acreditava que ela iria rebater ainda mais acida, ela me solta algo totalmente fora do esperado. — E você a comédia. — agora era a vez dela gargalhar. Deixei a risada dela me preencher e não contive o sorriso. Atena conseguia despertar algumas coisas surpreendentes em mim, porém, eu ainda não sabia o quanto isso poderia ser perigoso.
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