Atena Oliveira
02/05| Barcelona, ES
A rua estava cortante; o vento de Barcelona às três da manhã parecia empurrar a cidade para dentro de si mesma. Puxei o capuz do casaco mais até o rosto, a lã tocando a pele como um pequeno escudo, e apertei a touca na cabeça para manter os fios vermelhos ocultos. Mesmo disfarçada, sentia o peso de cada olhar possível, um hábito do tempo em que andava em terrenos onde uma distração custava caro. Caminhei sem pressa, ouvindo o som dos meus passos no asfalto molhado, o tique-taque de luzes piscando nas fachadas e as vozes distantes dos últimos turistas teimando em esticar a noite. A direção do informante veio por indicação de um antigo cliente: nome trocado por nome, favor por favor, e assim a lista de contatos vinha ganhando camadas, como quem costura uma armadura com fragmentos de confiança. Chegar até ali foi simples; manter a calma, nem tanto.
O bar onde nos encontramos era menor do que eu imaginara, uma caixa de luz âmbar escondida entre portões metálicos. O cheiro de cerveja e suor tinha um gosto de lugar verdadeiro, não o tipo forjado para estrangeiros. Havia mesas ocupadas por risos altos, um casal discutindo algo num idioma que eu não decorei, o clack-clack dos copos. Sentei distante, na penumbra de uma mesa encostada na parede, apenas o suficiente para ver o corredor e a porta. Quando ele apareceu, não o encarei de imediato; deixei-o vir até mim, medindo a distância entre a porta e a nossa mesa como quem calcula uma rota de fuga. Tirei o capuz apenas quando ele estava à minha frente, mantendo a touca; o vermelho ainda tinha que ficar proibido para a noite. Precisava ser discreta. Precisei ser sempre.
— Prazer — murmurou ele, voz baixa, olhos medindo minhas feições como se já soubessem onde ir cortar. Entreguei um aceno curto; minha expressão ficou pétrea por escolha, não por falta de emoção. Não era hora de suavidades.
Fui direta: quem pergunta demais se expõe e eu não queria me expor.
— Qual informação tem para hoje? — pedi, e as palavras soaram mais afiadas do que eu pretendia.
Ele deslizou um envelope pelo tampo da mesa, os dedos tremendo de leve. Enquanto eu abria, suas explicações saíam em sopros baixos: localização de um galpão, indícios de um depósito dedicado a armamentos, imagens de fachada, coordenadas numeradas em margem de mapa. Olhei as fotos sob a luz do celular: metal corroído, portas metálicas marcadas por ferrugem, janelas fechadas com tábuas; nada que grite “castelo”, mas tudo que poderia esconder morte e metal.
Pedi fotos do rosto de Dom Castilla. Ele negou com a cabeça como quem entrega uma sentença inevitável: quem procurava o rosto já tentou, por anos, e falhará. O homem continuou, com aquela resignação de quem sobreviveu a muita mentira:
— Dom era um fantasma; as poucas pessoas que o tinham visto não voltaram com vida para contar. — assumiu, sarcástico.
Arqueei a sobrancelha e deixei que a frieza ocupasse cada sílaba:
— Então serei a primeira a pegá-lo. — Minha voz era baixa, precisa. — E quando eu o fizer, vou espalhar fotos da cabeça dele para que todo mundo conheça o rosto do monstro.
Falei sem teatro. Era uma promessa; era a preparação do que viria. Vi o pavor atravessar o rosto dele, não por ele, mas por quem o havia mandado. Paguei a quantia combinada; o envelope de notas passou de mão em mão num gesto tão frio quanto o metal de uma lâmina.
Levantei, ajeitei a touca, o casaco envolvendo a minha forma como se fechasse uma couraça. Antes de sair, não resisti a olhar o mapa mais uma vez, memorizar o traçado até o galpão; uma mente organizada evita surpresas. Saí do bar sem chamar atenção: passos rápidos, olhar sempre atento aos lados, verificando rotas alternativas. A cidade dormia em camadas, e eu me movia entre elas como uma sombra intencionada.
Agora vinha a próxima parte, vigiar, planejar, esperar o momento certo. A adrenalina não era prazerosa; era instrumento. E, quando eu voltasse, voltaria com algo mais que fotos: voltaria com provas de que Dom Castilla tinha endereço e que alguém já estava cansado de chamá-lo de fantasma.
(...)
Passei o dia inteiro analisando cada centímetro daquele galpão. Primeiro pelo mapa, depois pelas imagens de câmeras de radares ao redor, depois simulando mentalmente cada rota de fuga. Eu já conhecia a planta melhor do que conhecia meu próprio apartamento. Estudei as entradas principais, as laterais, as sombras onde alguém poderia se esconder, os pontos altos ideais para observação. Mas nada substituía o campo. Eu sabia que só ia ter certeza quando pisasse lá, quando sentisse o cheiro do metal e da poeira, quando visse com meus próprios olhos o que os drones e fotos escondiam. Eu precisava ir pessoalmente. Precisava descobrir qualquer fragmento, qualquer rastro, qualquer maldita pista que me aproximasse de Dom Castilla.
— Assim seu cérebro vai derreter — ouvi Elena atrás de mim.
Levantei os olhos e encontrei ela parada na porta do meu quarto, segurando uma bandeja. O cheiro de comida quente invadiu o ambiente e, de repente, meu estômago gritou. Só então me toquei que não havia colocado nada na boca desde manhã. Elena entrou, colocou a bandeja ao meu lado na escrivaninha, e eu ataquei o macarrão à bolonhesa como se estivesse prestes a entrar em coma.
Ela se aproximou do monitor, inclinando levemente a cabeça para enxergar a tela.
— O que você tanto faz nesse computador? — perguntou, desconfiada.
Engoli rápido e respondi sem rodeios:
— Consegui com um informante a localização de um galpão do mafioso que matou o Ares.
Ela se sentou na beira da minha cama com um ar tenso.
— E o que você planeja fazer?
— Estudar o local, depois ir pessoalmente. Observar, fotografar qualquer suspeito, montar um padrão e ir afunilando até chegar nele.
Ela respirou como se estivesse prestes a me dar uma bronca.
— E quem seria esse mafioso?
Minha resposta veio firme, seca.
— Dom Castilla.
Os olhos dela quase saíram do rosto. Elena levantou de um pulo, como se eu tivesse dito que ia pular de um prédio sem paraquedas.
— Ficou louca, Atena? Você tem noção de quem é Dom Castilla?
O tom dela estava entre desespero e incredulidade.
— Sim. — mantive a calma. — O assassino do meu irmão. E é só isso que importa.
Ela riu, mas não de humor. De nervoso.
— Você só pode estar perdendo a cabeça. Dom é o mafioso mais c***l e frio da Europa. — Ela enfatizou Europa como se eu fosse burra. — Ele não é só procurado pela Interpol. O FBI caça esse homem. Vários países caçam esse homem. Inclusive o seu.
Arqueei a sobrancelha. Isso era novo.
— Como assim?
Elena me encarou como se estivesse falando com uma criança.
— Ele é um dos principais fornecedores de armas para os traficantes do Brasil.
Meu maxilar travou.
— E como você sabe de tudo isso? — perguntei, estreitando o olhar. — Pensei que você não tinha ligação com nada desse mundo.
Ela começou a andar pelo quarto como quem tenta decidir por onde começa. Massageou as têmporas, respirou fundo, depois parou em frente a mim.
— Seu irmão — começou, e senti meu corpo inteiro enrijecer. — O Ares tinha uns trabalhos extras. Coisas que ele nunca contou para você, muito menos a sua mãe.
Meu coração bateu tão forte que pude senti-lo na garganta. Eu me mantive imóvel, mas minhas mãos denunciaram tremores leves.
— Que tipo… de trabalho? — perguntei, mesmo já suspeitando que não ia gostar da resposta.
Elena engoliu seco antes de falar.
— Ares não trabalhava só na academia. Ele era assassino de aluguel, Atena.
A frase caiu sobre mim como um tiro. Minha mente ficou branca. Ares, meu irmão, meu reflexo, minha outra metade… um assassino. Eu, que achava estar caminhando para algo novo, na verdade estava repetindo os passos dele sem saber. Por que ele nunca me contou? Por que escondeu isso de mim, da pessoa que mais amava ele e confiava nele?
— Isso não pode ser verdade — murmurei, mas a negação soava fraca até para mim.
Elena continuou, a voz embargada:
— Eu descobri pouco depois de começarmos a namorar. Terminamos. Eu disse que não queria alguém vivendo disso. Mas ele me implorou para voltar, dizendo que ia sair dessa vida. Eu sabia que não era simples largar. Quem entra… entra inteiro. E para sair, deixa um pedaço ou nem saí.
Me senti afundar na cadeira.
— E aí eu voltei — ela prosseguiu, limpando as lágrimas — voltei porque amava seu irmão. Amava o suficiente para aceitar até essa parte dele. Ele me prometeu que faria seus últimos serviços e que depois iríamos embora da Europa, recomeçar em outro lugar, bem longe daqui. Ele parecia decidido. Parecia cansado. E então… me ligaram dizendo que ele tinha levado uma bala perdida. Que estava morto.
Meu peito ardia. Raiva, dor, incredulidade, tudo se misturou como ácido queimando por dentro.
— Eu sempre soube que aquilo não era bala perdida — ela disse, chorando agora sem esconder. — Mas eu não imaginei que seria Dom Castilla. Não imaginei que você teria coragem de ir atrás disso sozinha. Meu Deus, Atena… agora toda minha esperança de que você pudesse vingar o Ares morreu aqui.
Me levantei devagar. Minha voz saiu baixa, mas tão carregada de verdade que nem eu pude ignorar.
— Para mim não.
Elena ergueu os olhos vermelhos.
— Eu posso não sair viva dessa — continuei. — Mas se eu morrer, vou garantir que aquele desgraçado vá comigo. A morte do meu irmão não vai ficar impune.
E pela primeira vez desde a morte de Ares, eu senti algo parecido com clareza. Um fio de aço atravessando meu peito. Uma certeza absoluta.
Eu ia terminar com toda essa dor.
Nem que fosse até a minha última respiração.