Dom Castilla
02/05 | Barcelona, ES
Uma brisa gélida atravessava a janela aberta e cortava o silêncio do escritório. Vinha direto do jardim, trazendo junto o cheiro fresco das flores que minha mãe havia plantado anos atrás. Olhei para o vasto quintal à minha frente, iluminado pela lua cheia e pelo céu salpicado de estrelas. Tudo estava sempre impecável—não porque a vida tivesse sido generosa, mas porque eu pagava um jardineiro para manter aquele lugar exatamente como ela gostava. Era a única forma que eu tinha de preservar o pouco que restou dela.
Respirei fundo. O velho aperto no peito voltou com força, aquela sensação maldita que insistia em aparecer sempre que a memória dela escorria pelos meus pensamentos. Levei o copo à boca e deixei o uísque descer queimando, ardido e, de alguma forma, reconfortante.
Atrás de mim, a porta do escritório se abriu. Não precisei me virar para saber que era meu tio.
— Como foram as coisas em Roma? — perguntei, ainda olhando o jardim.
Ele havia passado duas semanas na Itália para fechar uma negociação com aliados nossos. Transporte, estoque, distribuição… o pacote completo. Nada que Javier já não estivesse acostumado.
— Tudo ok — respondeu, e dava para ouvir o orgulho na voz. — A carga chegou completa, sem nenhum erro. Tivemos um lucro de aproximadamente cento e setenta por cento em cima de cada caixa.
Assenti em silêncio, mas não consegui tirar da cabeça o peso que já me atormentava há dias.
— O que tanto te aflige? — ele perguntou, se aproximando da janela onde eu estava encostado.
— Temos um provável problema se desenvolvendo — comentei, virando-me para encará-lo.
Javier franziu o cenho. A luz da lua refletia nos olhos dele, e por um instante tudo o que consegui perceber foi o quanto eram parecidos com os do meu pai. Mesma intensidade. Mesmo fogo. A mesma sensação de que, se você olhasse por tempo demais, acabaria queimado.
— Tivemos uma carga roubada — revelei, e ele permaneceu calado, atento. — Encontramos o responsável, mas a única coisa que ele sabia sobre quem mandou foi um pseudônimo.
— Qual?
— Coyote.
Javier levou alguns segundos para reagir. O cenho ainda mais fechado, a expressão grave.
— Nunca ouvi esse nome — afirmou.
— Nem eu. — Passei a mão pelos cabelos, irritado. — Tinha esperanças de que meu pai tivesse mencionado algo a você sobre isso.
Ele negou com a cabeça, pensativo, como se estivesse puxando memórias antigas do fundo da gaveta.
— E o que vocês descobriram desse tal Coyote? — perguntou, servindo-se de uísque como se a conversa pedisse um gole.
— Nada — respondi, a voz tensa. — Não sabemos quem é, de onde vem, como teve acesso à nossa rota. Não sabemos absolutamente nada.
A raiva latejou dentro de mim como um soco m*l dado. Eu odiava essa sensação. Odiava sentir o terreno escapar dos meus pés. Sempre controlei tudo, cada acordo, cada fio solto, cada ameaça antes mesmo de ela nascer. Mas agora? Agora parecia que alguém estava dois passos à minha frente, observando minhas falhas com calma, quase diversão.
E isso, para mim, era inaceitável.
— Vamos encontrar o responsável — ele disse, apertando meu ombro.
Apenas assenti. Sei que iríamos.
E quando eu encontrasse, ele iria implorar pela morte.
(...)
“Enquanto dirigia de volta para casa, dei uma olhada rápida pelo retrovisor. No banco traseiro estava o presente que eu tinha escolhido para minha mãe: uma caixa enorme, pesada, recheada de ferramentas de jardinagem, luvas novas, tesouras, adubo, sementes raras. Coisas que ela adoraria tocar, organizar e usar como se fossem joias.
Minha mãe sempre teve um amor quase teimoso pelas flores, principalmente pelas rosas. Vivia com os dedos machucados pelos espinhos, e ainda assim dizia que eles deixavam a beleza delas mais honesta. Eu nunca entendi esse fascínio, mas entendia o sorriso dela. E sinceramente, aquele sorriso fazia qualquer explicação parecer desnecessária. A casa ficava diferente quando ela enchia tudo de arranjos, como se o ar respirasse melhor.
Imaginei o rosto dela iluminado quando abrisse a caixa. Aquela alegria simples, leve, que parecia encher o peito de qualquer um que estivesse perto. Senti meus lábios se curvarem.
Mas o sorriso não durou. Uma coluna de fumaça surgiu no horizonte, grossa, escura, saindo justo na direção da casa do lago. Estranhei num primeiro momento, até sentir aquele instinto r**m rasgar meu estômago. Apertei o volante, pisei no acelerador e o carro deu um salto. Meu coração batia no ritmo da sirene imaginária que eu já esperava ouvir a qualquer segundo.
E então ouvi.
A sirene real, distante, aproximando-se rápido.
A casa estava em chamas. Chamas altas, vivas, violentas. O fogo devorava as paredes como se tivesse fome. Mesmo com os vidros fechados, ouvi gritos. Era impossível confundir. O som me acertou como um soco.
Travei o carro e saltei, correndo até a porta da frente. Tentei arrombar no impulso, no desespero, mas era como bater contra algo pesado do outro lado. Um bloqueio. Talvez algum objeto grande e pesado tivesse travando a porta.
— Mami? — gritei, sentindo a garganta arder. — Papá?
O nome do meu irmão me atravessou a mente num estalo. Fernando estava lá. Esmeralda, sua esposa, também. Ela tinha prometido fazer um bolo simples para comemorarmos o aniversário íntimo. Só nós cinco. Só família. Ela diria aos meus pais naquele dia que estava grávida. O jeito como ela segurava o segredo era quase terno.
— Fernando! — gritei, mas a resposta não veio.
Corri para os fundos. A porta estava trancada, e o fogo já avançava pelas janelas. A fumaça fazia meus olhos arderem, mas eu não recuei. Bati com o ombro, a perna, o que fosse possível. O desespero queimava mais do que as chamas. Senti a adrenalina explodir, e com um impacto mais forte, a porta finalmente cedeu.
O ar quente me engoliu. Entrei tropeçando, meio às cegas.
E então vi.
Minha cunhada estava caída perto da cozinha. O corpo imóvel, a mão cobrindo a barriga como se ainda tentasse proteger o bebê que nunca conheceria o mundo. Uma estante inteira havia despencado sobre ela. Não precisava tocar para saber. Ela estava morta.”
Acordei num sobressalto, como se tivesse sido arrancado daquele inferno. Meu peito subia e descia rápido demais. O ar parecia entrar em cortes. Levantei da cama sem pensar, passando a mão pelo rosto molhado de suor. Minhas costas doíam como se eu tivesse carregado o incêndio inteiro comigo.
A cabeça latejava. O pesadelo não era exatamente um pesadelo. Era memória. Uma cicatriz que insistia em abrir de novo e de novo. Uma lembrança maldita do quão inútil eu tinha sido naquela noite, incapaz de proteger quem mais importava. Uma lembrança que me perseguia sempre que eu ousava fechar os olhos.
E eu sabia que ainda não tinha terminado comigo.