Atena Oliveira
05/05| Barcelona, ES
O som ritmado dos socos contra o saco de areia ainda ecoava nos meus ouvidos quando virei para Vicente, observando-o ajustar a bandagem nas mãos com aquela concentração que já estava começando a me irritar, principalmente porque desviava a minha.
— Você aprende rápido — comentei, deixando um sorriso escapar.
Ele ergueu o rosto, o suor escorrendo pela têmpora, e me encarou com aquele sorriso que parecia sempre dois passos à frente de mim. Seu peito subia e descia num ritmo acelerado, igual ao meu, depois da sequência intensa que eu tinha puxado só para testar seus limites. E, claro, os meus também.
— Acho que minha professora duvidava da minha capacidade — provocou, caminhando até mim com passos lentos, quase calculados demais.
— Talvez — brinquei, cruzando os braços, tentando passar uma segurança que não combinava com a forma como meus olhos insistiam em seguir cada movimento dele. — Não sabia que passar tanto tempo numa cadeira de escritório deixava alguém com reflexos tão bons.
— Sou bom em inúmeras coisas, Atena. — A malícia na voz dele não era nem um pouco discreta. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Pior: sabia que funcionava.
Ergui a sobrancelha, desafiando-o.
— Veremos.
Os olhos dele brilharam. Era como se eu tivesse apertado algum botão interno, e ele entrou instantaneamente no modo competitivo ou sedutor, difícil separar os dois nele. Aproveitei quando ele desviou por um instante para olhar seus próprios pés e avancei com rapidez. Ele reagiu no mesmo segundo, bloqueando meu cruzado com uma facilidade irritante.
Começamos outra sequência. Nossos golpes se chocavam no ar num ritmo quase coreografado, cada vez mais rápido, mais preciso, mais perto do limite. Ele avançava dois passos, eu recuava um. Eu fintava, ele acompanhava. Era quase um jogo, um perigoso, onde nenhum dos dois queria entregar a vantagem.
Num vacilo meu, mínimo, quase imperceptível, ele me pegou. Em um movimento firme, me puxou para trás, envolvendo meu tronco com o braço e prendendo meus movimentos. Meu corpo colou no dele, minhas costas encontrando o calor sólido do seu peito.
— Acho que alguém duvidou de mim de novo — murmurou perto demais da minha orelha. A voz baixa, rouca pelo esforço… e pelo jeito, pelo resto também.
Um arrepio subiu pela minha coluna com tanta força que precisei respirar fundo para não entregar tudo ali mesmo. Podia sentir cada músculo dele pressionando contra mim, o calor, o cheiro dele misturado ao suor… tudo em conjunto criando uma sensação perigosa que eu deveria ignorar. Mas não ignorei.
— Acabei me distraindo. Você teve vantagem — respondi, um pouco mais ofegante do que gostaria. Meu sussurro parecia pequeno demais no espaço enorme da academia, mas enorme demais entre nós dois.
— E o que tirou sua atenção, Atena? — Ele inclinou a cabeça, e os lábios roçaram levemente minha orelha, um toque tão suave e tão devastador que minha respiração falhou por um instante.
Fechei os olhos por um segundo, um erro, com certeza, porque meu corpo respondeu antes da minha mente.
— Para com isso — murmurei, tentando manter o controle, lutando contra a vontade de beijá-lo ali mesmo.
Ele riu baixo, um som que vibrou contra minhas costas e fez meu coração acelerar de um jeito quase humilhante. Então me soltou. A falta imediata do calor dele me atingiu como um golpe inesperado.
Tentei parecer natural, recolocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, mas era inútil. Ele percebeu.
O silêncio entre nós ainda estava carregado da eletricidade da última troca de golpes quando consegui respirar fundo o suficiente para falar:
— Terminamos a aula por hoje — declarei, tentando parecer firme, mesmo que minha voz quase tivesse falhado.
Vicente inclinou a cabeça, os olhos ainda brilhando, de um jeito que me desmontou por dentro.
— Uma pena… estava ficando ainda mais interessante — murmurou com um sorriso torto, provocador.
Revirei os olhos e levantei o dedo do meio para ele. Vicente gargalhou alto, aquela risada grave que parecia vibrar direto na minha pele.
— Tão indecente, piccola.
— Vá à merda.
Ele adorava esse apelido e adorava mais ainda o fato de que me irritava. Cada vez que ele soltava um piccola, eu sentia vontade de socar seu abdômen só para tirar aquele sorrisinho presunçoso do rosto. Só que, do jeito que ele era, só ficaria mais animado com isso.
Vicente aproximou-se alguns passos, diminuindo a distância entre nossos corpos de um jeito calculado, predatório. Ele tirou as luvas devagar, como se estivesse me dando tempo de perceber cada movimento dos músculos de seus braços, ainda tensos do treino.
— Qual horário termina seu turno hoje? — perguntou de repente, mudando de assunto como quem muda de postura no ringue.
Pisquei, surpresa.
— Às 20h. Por quê?
Ele segurou meu olhar sem piscar, como se estivesse tomando a decisão de me encurralar ou me beijar e em Vicente, as duas coisas pareciam perigosamente parecidas.
— Venho te buscar. Tenho um lugar que quero te mostrar.
Meus olhos estreitaram automaticamente. Quando se tratava de Vicente, qualquer convite parecia ter camadas demais.
— E esse “lugar”… não é sua cama, né?
A gargalhada dele foi instantânea, deliciosa, genuína. E antes que eu pudesse controlar, um sorriso escapou no canto dos meus lábios.
— Apesar de ser um dos meus maiores desejos nesse momento… não. Não é a minha cama — respondeu, inclinando-se levemente, como se me contasse um segredo — A não ser que você queira, claro.
Peguei uma das luvas usadas e joguei contra o peito dele. Ele pegou no ar com facilidade, exibindo uma habilidade que definitivamente não vinha de “vida de escritório”.
— Se fizer por merecer, posso pensar na possibilidade — provoquei, cruzando os braços, enquanto observava a forma como a provocação acendia algo em seu olhar.
Vicente deu um passo ainda mais perto e eu fiquei tão imóvel quanto um animal prestes a ser tocado. Podia sentir o calor do corpo dele, o cheiro do suor misturado com o perfume amadeirado que parecia sempre grudar na minha pele depois de cada treino.
— Piccola, eu sempre faço por merecer — disse ele, a voz baixa, arrastada, quase um toque.
Meu estômago deu um salto. Porrå.
Ele ergueu a mão devagar e tocou meu queixo com o dorso dos dedos, suave demais para ser acidental, firme demais para ser inocente. O mundo pareceu estreitar ao redor do toque. Minha respiração falhou.
— Posso te provar — completou, olhando direto para minha boca.
Meu corpo inteiro pareceu travar e derreter ao mesmo tempo. A proximidade, o calor, a tensão que vinha crescendo há dias… tudo me empurrava para ele. Tudo gritava que se ele chegasse um centímetro mais perto, eu não teria força emocional, física ou espiritual para impedir o que viria a seguir.
Mas ele recuou.
Justo quando eu senti meu coração bater forte demais, ele deu dois passos para trás, como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse acabado de me desmontar inteira com um simples toque.
— Te vejo às oito — disse, pegando a mochila no chão e jogando por cima do ombro, aquele maldito sorriso arrogante de volta aos lábios.
Eu ainda estava parada no mesmo lugar quando ele chegou à porta.
— Atena? — chamou.
Levantei o olhar.
— Se quiser desistir… é sua última chance — provocou.
— Vai sonhando — respondi, com a confiança voltando aos poucos.
Vicente piscou, satisfeito, e saiu.
E eu fiquei ali, sozinha no ringue, tentando recuperar o fôlego — não do treino, mas dele.