Capítulo 14 - Lugar seguro.

1499 Words
Dom Castilla 05/05| Barcelona, ES A presença dela estava começando a ter um dom de bagunçar meu eixo — mas nada me preparou para a visão que tive quando entrei na academia. Eu tinha vindo buscá-la como prometido, pronto para encarar seus olhares afiados, suas provocações, sua língua ferina… mas Atena conseguiu, mais uma vez, me desmontar e me incendiar ao mesmo tempo. Ela surgiu pela porta da academia, mexendo no cabelo ainda úmido, mas ainda sim vibrantes, usando uma calça jeans clara colada, suas curvas de um jeito absolutamente criminoso. A blusa preta marcava a cintura, a jaqueta de couro moldava seus ombros como se tivesse sido feita sob medida para ela. As botas davam um toque final, firme, confiante, pronta para o ataque. E o pior, ou melhor, é que ela sabia disso. Seus olhos encontraram os meus, e aquele sorriso enviesado apareceu, como se dissesse: Sei exatamente o que estou fazendo com você. Caralhø. Ela sabia mesmo. — Não sabia que você ia… — Minha frase morreu porque, sinceramente, não fazia ideia de como continuar. “Não sabia que você ia me matar de t***o antes mesmo de entrar no meu carro”. Não era exatamente apropriado. Ela ergueu uma sobrancelha, divertida. — Que eu ia o quê? O jogo dela era c***l. E delicioso. — Que você ia vir tão bonita assim — consegui dizer, e foi a verdade mais sincera que saiu da minha boca no momento. Atena sorriu, lento, perigoso, quase preguiçoso, e entrou no carro como se o banco do passageiro fosse um trono criado para ela. O cheiro do cabelo molhado, misturado com algum perfume frutado, imediatamente tomou o interior do carro. Um ataque direto ao meu autocontrole. Fechei a porta, respirei fundo e dei a volta para o volante, tentando me recompor. Quando entrei, ela já estava afivelando o cinto, pernas cruzadas, postura absolutamente relaxada. Como se não tivesse acabado de atravessar a minha sanidade. — Obrigada pelo elogio — disse ela, casual, como se eu não estivesse sendo lentamente destruído — Agora me diga… pra onde estamos indo? Pisei no acelerador devagar, deixando o motor roncar enquanto saíamos da rua estreita em frente à academia. — Quero te levar a um lugar — respondi, mantendo o olhar na estrada para não cometer a burrice de encarar aqueles olhos azuis e esquecer como se dirige. — Hum. — Ela inclinou a cabeça, curiosa. — Um lugar misterioso… deve ser bom, então. Pode falar, Fernández. — É um mirante — expliquei. — Mas não desses turísticos, cheios de gente tirando foto. É um ponto alto da cidade, lá em cima nos antigos bunkers do Carmel. Eu conheço um acesso lateral que quase ninguém usa à noite. A vista é absurda. Barcelona inteira se abre como se fosse só nossa. O silêncio dela durou três segundos. Três segundos longos, carregados, quentes. — Você vai me levar num mirante secreto no topo da cidade… à noite? — ela perguntou, e o tom não era cínico, nem debochado. Era surpreso. E, para minha surpresa, um pouco animado. — Uau. Confesso que não imaginei você fazendo esse tipo de convite. Sorri, finalmente permitindo um olhar rápido para ela. — Você não me conhece tão bem quanto pensa. Ela apoiou o cotovelo na porta e me observou de lado, como se me avaliasse. — Você é cheio de camadas, Vicente. — Só descobre quem merece — respondi, sem hesitar. O canto da boca dela subiu. — E eu mereço? A pergunta veio com a voz baixa, quente, envolta numa provocação que fez meu estômago contrair. Parei no semáforo, virei o rosto para ela e a encarei como devia. — Se não merecesse, eu não estaria aqui. — Inclinei-me um pouco. — Nem levando você para um dos meus lugares favoritos no mundo. Os olhos dela se estreitaram, e por um segundo inteiro houve silêncio. Um daqueles silêncios que tem pulsação, que respira, que encosta na pele. O semáforo ficou verde. Atena virou o rosto para frente, mas eu vi claro, nítido, o sorriso que ela tentou esconder. E naquele instante, com a cidade se abrindo à nossa frente e ela tão linda ao meu lado, molhada de banho recente, cheirando a provocação e perigo… Eu soube que aquela noite seria um divisor de águas. — Vamos então, Fernández — ela murmurou, cruzando as pernas e deixando a barra da jaqueta abrir um pouco. — Estou curiosa para ver o que você considera “absurdo”. Eu ri baixo. — Ah, piccola… você não faz ideia. E acelerei, levando-a para o alto de Barcelona onde a cidade inteira, iluminada, seria palco do nosso próximo passo. (...) A noite já tinha tomado Barcelona quando estacionei o carro no pequeno espaço de terra batida. O lugar ficava escondido entre árvores antigas, quase como um segredo da própria montanha. Desliguei o motor, e por um instante só ouvi o som abafado do vento passando pelas folhas. Ela ainda não tinha descido, então me virei para Atena. Parecia até que a luz do poste improvisado ali fora tinha sido feita só para ela. — Estou achando que você quer me sequestrar, Vicente Fernández. — brincou e eu sorri. — Vamos caminhar um pouco. — falei apenas. — Prometo que vale a pena. Descemos do carro e começamos a trilha curta, iluminada só por lanternas presas ao chão e pelo brilho distante da cidade. Atena andava ao meu lado com passos firmes, como se nada ali a intimidasse. Às vezes, tudo nela parecia feito para testar meus limites. E eu já estava no limite havia semanas. A trilha não era longa, mas a inclinação fazia o ar ficar mais denso. Ou talvez fosse só o efeito dela ao meu lado. Quando chegamos ao topo, o vento bateu primeiro — frio, limpo, trazendo o cheiro da noite. E então ela viu. As luzes de Barcelona se derramavam lá embaixo como um mar dourado. A cidade pulsava, viva, respirando como um gigante adormecido. Era uma das vistas mais bonitas que eu conhecia… mas ao ver o rosto de Atena, entendi que nunca tinha visto aquela paisagem tão bonita quanto naquele instante. — Meu Deus… — ela sussurrou, levando a mão ao peito. — Vicente… isso é… é uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida. Um calor orgulhoso subiu pelo meu peito. Não sei por quê. Talvez porque eu queria impressioná-la mais do que admitia. — Vem. — falei, apontando para um conjunto de pedras grandes, lisas pelo tempo. — É melhor lá para sentar. Ela assentiu, ainda encantada e seguimos até lá. A pedra era larga, mas não o suficiente para dois adultos sentarem sem se encostar. O que, estranhamente, eu não via como problema. Sentamos lado a lado. O braço dela roçou no meu. Depois a perna. Cada toque parecia acender um fio elétrico sob minha pele, como se meu corpo inteiro estivesse prestes a perder o controle. — Você vem aqui sempre? — ela perguntou, ainda com a respiração um pouco presa, os olhos grudados na cidade. — Quase sempre. — admiti. — Quando eu preciso pensar. Organizar a cabeça. Fugir um pouco, talvez. Ela sorriu, mas foi um sorriso pequeno, íntimo. O tipo de sorriso que atravessa todas as defesas sem pedir permissão. — Também preciso de um lugar assim às vezes. — murmurou. — Mas nunca achei um que realmente funcionasse pra mim. Virei o rosto em direção a ela, e ela fez o mesmo, como se tivesse sentido meu movimento antes de eu terminar de fazê-lo. O mundo pareceu ficar silencioso. — Agora que você conhece esse… — falei baixo, quase rouco — pode vir sempre que quiser. Os olhos dela brilharam de um jeito que fez algo dentro de mim despencar. — Obrigada. — respondeu. Aquilo não foi só gratidão. Foi… outra coisa. Algo mais suave. Mais perigoso. O ar entre nós mudou. Ficou mais quente, mais denso, carregado de possibilidades. Senti meu coração bater mais forte do que deveria. Senti vontade — muita, absurda, imensa — de puxar o rosto dela para o meu e descobrir se a boca dela era tão devastadora quanto eu imaginava desde o primeiro dia. Eu não beijava alguém havia anos. Era íntimo demais. Pessoal demais. Eu nunca misturava isso com sexo casual. Mas Atena não era casual. Era isso que uma parte de mim gritava. E então percebi que ela também queria. Ela inclinou levemente a cabeça, os olhos descendo para minha boca por um instante rápido, mas suficiente para destruir minha racionalidade inteira. Eu não pensei. Apenas me inclinei. E a beijei. O beijo incendiou tudo. Foi quente, urgente, cheio daquela fome que eu tentei ignorar por semanas. Ela correspondeu com a mesma força, a mesma entrega, as mãos subindo para minha nuca enquanto eu segurava sua cintura como se ela fosse feita de fogo e eu sempre tivesse sido feito para queimá-lo. Era intenso. Era perigoso. Era perfeito. E era só o começo.
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