Dom Castilla
25/04 | Barcelona, ES
Meus passos ecoavam no corredor frio e abafado. Atrás de mim vinham Eva e Leandro, igualmente em silêncio, com o compasso pesado de quem anda como quem carrega o próprio julgamento. Leandro me ligara cedo: encontrara o responsável pelo roubo da minha carga. Agora eu caminhava para encontrar o homem que ousara me prejudicar. Não havia mais fúria descontrolada, hoje meu humor estava tão gélido quanto o cimento sob nossos pés.
Quando parei em frente à porta, ela se abriu. O rosto do homem que ficou à minha frente era a imagem do pavor; olhos arregalados, boca semiaberta, o corpo encolhido como se já antecipasse a queda. Sorri por dentro. Satisfação não precisa de aplauso.
Caminhei devagar, observando cada reação sua, anotando mentalmente as microexpressões que desmentiam a coragem que ele tentou fingir.
— Jorge García, certo? — pronunciei o nome com a precisão de uma sentença. — Nativo de Madrid. Diga-me, o que o trouxe a Barcelona?
Ele engoliu em seco.
— Estou aqui a trabalho, senhor. Não sei do que me acusam… pegaram a pessoa errada — disse, atropelado, desesperado.
Arqueei a sobrancelha e mantive a expressão implacável.
— Está a dizer que a minha equipe falhou? — A pergunta saiu quase um aviso.
— Não! — respondeu, rápido demais. — Eles devem ter me confundido.
Peguei as fotos que mostravam seu caminhão atacando o meu e levando a carga. As imagens falavam sem piedade. Coloquei-as diante dele como se fossem provas físicas da traição.
— Vou fazer esta pergunta apenas uma vez. Se tiver um pouco de sabedoria, responda agora: quem lhe pagou para roubar a minha carga?
Ele vacilou.
— Não sei do que está falando, senhor — murmurou, e a voz traiu medo.
Ri, sem humor.
— Sabe por que me chamam de Dom? — perguntei, observando a confusão no rosto dele.
Virei-me para a mesa e peguei a adaga mais afiada que havia. O frio do metal na minha mão era quase reconfortante. Voltei e parei diante dele, deixando que seus olhos seguissem o movimento.
— Dizem que eu tenho um dom: faço as pessoas falarem o que eu quero ouvir.
Ele passou a olhar fixamente para a minha mão.
— Eu juro que não fiz nada — choramingou, a voz escorregando em pânico. — Eu não sei do que vocês estão falando.
A paciência evaporara. Sem aviso, arqueei a adaga e a enfiei na sua coxa com toda a força. O grito que saiu dele foi áspero, animal, rasgando o silêncio do cômodo.
— Por favor, eu imploro, não me mate — implorou.
— Quem. Mandou. Você. Roubar. Minha. Carga? — articulei cada palavra como se fossem golpes.
Girei a lâmina em sua coxa a cada sílaba. O sangue jorrou, fazendo uma mancha escarlate crescer sob os pés dele. Ele se debatIa, urrando, enquanto eu escutava cada som com a frieza de quem registra provas.
— Eu não sei o nome dele — gritou entre facadas de dor.
Arranquei a adaga e o sangue me respingou. Limpei minhas mãos com um lenço; o branco do tecido transformou-se num vermelho vívido.
— Eu preciso de nomes — disse, calmo como o vento antes da tempestade.
Ele repetiu que não sabia. Por que sempre guardam segredos tão pequenos que podem acabar com mais vidas? Passei a mão até o alicate sobre a mesa e me aproximei novamente. Seus olhos eram dois faróis de pavor que alternavam entre o meu rosto e a ferramenta. Segurei sua mão, encaixei o alicate na unha e olhei para ele com a mesma serenidade que alguém usa ao cortar um fio.
— Diga o nome — falei.
Lágrimas lhe escorriam pela face, mas as palavras continuavam evasivas. Não tive misericórdia: arranquei a primeira unha. O grito que preencheu a sala foi horrível, uma ferida de som que se espalhou pelas paredes. Puxei a segunda unha. O sangue sujou minhas mãos com mais intensidade. Ele urrou, ofegante, até que as palavras finalmente, por um milagre de desespero, vieram soltas entre soluços:
— Não tinha um nome… a ordem veio por mensagem criptografada… era anônima…
Pareceu que as forças o abandonaram, mas então, gaguejando, quase sem fôlego:
— Espere — murmurou. — Lembro… havia uma assinatura… achei até engraçado… o nome que veio escrito era… Coyote.
Olhei para Leandro e Eva, que me observavam de costas retas, a mesma pergunta estampada nas caras: Quem diabos é Coyote?
(...)
— Depois que você saiu, arrancamos mais algumas informações dele — disse Eva, sentando-se à minha frente; Leandro fez o mesmo ao seu lado.
— E então? — perguntei, interessado.
— Ele não faz ideia de quem seja esse tal de Coyote. A mensagem enviada a ele foi há cinco dias, contratando o serviço. Após ele aceitar, enviaram o local e a hora por onde a carga passaria. Assim que ele roubou a carga, abandonou o caminhão no ponto indicado — explicou Leandro, revisando as anotações.
— Qual foi o local indicado para o abandono?
— Uma avenida afastada, quase na saída de Barcelona — respondeu Eva, mostrando a localização no notebook.
— Tentamos acessar as câmeras do local, mas no horário em que o caminhão possivelmente foi deixado, as câmeras entraram em manutenção — informou Leandro.
Respirei fundo e me recostei na cadeira.
— Ou seja, temos um profissional em jogo — afirmei, e eles concordaram. — Pesquisaram sobre esse tal de Coyote?
Eva assentiu.
— Não encontramos ninguém que use esse pseudônimo — disse ela. — É como se fosse alguém totalmente novo, ou alguém com um disfarce novo.
— Investigem mais. Busquem brechas nessa história; verifiquem ligações com a América. Pode ser alguém de qualquer lugar, não necessariamente da Espanha — ordenei, e eles assentiram. — Procurem também o significado desse nome, por que diabos escolheram essa alcunha e qual a origem do animal, talvez isso signifique algo.
— Sim, chefe — responderam em coro.
Assim que os dois saíram da minha sala, apoiei a cabeça nas mãos e respirei fundo. A minha cabeça latejava com tanta informação. Apesar de termos um novo provável inimigo à vista, a minha mente não parava de voltar para uma coisa. Ou melhor: para uma pessoa.
Atena.
Eu ainda precisava encontra-lá.