Atena Oliveira
23/04 | Barcelona, ES
Meu corpo protestou no instante em que tentei me levantar. A cabeça latejava num pulso lento e pesado, como se alguém martelasse do lado de dentro do meu crânio. Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo, tentando lembrar quantas taças de vinho haviam sido. A resposta veio acompanhada de um suspiro derrotado.
Mais do que eu deveria.
Me forcei a caminhar até o corredor e, quando alcancei a sala, a claridade da manhã invadiu minha visão. O apartamento de Elena era acolhedor, com paredes brancas que refletiam a luz fria que entrava pelas janelas grandes da sala. Havia plantas posicionadas de forma estratégica, algumas próximas às janelas, outras em prateleiras suspensas, como se toda a casa respirasse vida por conta delas. O sofá em tom creme estava coberto por mantas macias e algumas almofadas coloridas, criando um visual confortável e levemente bagunçado. O tapete grande, de um bege claro, aquecia o chão e parecia convidar qualquer um a deitar ali e dormir por mais algumas horas.
A cozinha era integrada à sala, separada apenas por um balcão de mármore claro. Ali, Elena estava com o cabelo preso de qualquer jeito e um moletom velho, mexendo distraidamente algo no fogão. O aroma do pão fresco e do café quente preencheu o ar, trazendo uma sensação temporária de lar. Me sentei no banco alto do balcão e ela se virou para mim com um sorriso preguiçoso.
— Bom dia, senhora ressaca.
Ri fraco, massageando a testa.
— Você bebeu o mesmo que eu. Não é justo parecer tão viva assim.
— Eu bebi água, querida. Você resolveu brigar com o vinho como se ele tivesse te ofendido pessoalmente. — debochou, empurrando um prato em minha direção.
No prato havia pa amb tomàquet: uma fatia de pão rústico torrado, tomate fresco, azeite e sal. Ao lado, frutas cortadas e um café forte. Elena sempre colocava pequenos detalhes nos cuidados, como se cozinhar fosse sua forma de amar silenciosamente.
Sentei e começamos a comer. Por um tempo, o único som era dos talheres e do café sendo sorvido. O conforto da rotina quase me fez esquecer todo o peso que eu carregava no peito.
— Você acha que Vicente vai te achar? — Elena perguntou de repente, com um sorriso cheio de malícia.
Soltei uma risada curta.
— Eu nem sei se ele realmente vai me procurar. Talvez tenha sido só um flerte de uma noite.
— Você e seu pessimismo. — Ela revirou os olhos e tomou um gole de café.
Continuei comendo, sentindo o pão ainda morno. Elena cozinhava como se tivesse nascido para isso. Eu, por outro lado, nunca tive paciência para a cozinha. O Exército não foi lugar que incentivasse refinamento culinário, e com o tempo, meu paladar e disposição para cozinhar simplesmente desapareceram. Aqui, tudo parecia novidade.
— Atena… — ela chamou de novo, dessa vez em um tom que não combinava com brincadeiras.
Levantei meu olhar para o dela. Havia algo sério ali. Algo pesado.
— Você não veio para Barcelona só pelas memórias do seu irmão. — afirmou, e não perguntou.
Minhas mãos congelaram sobre a xícara. O coração bateu uma vez, forte, como se sentisse que a verdade estava prestes a ser arrancada de mim.
— Do que está falando?
— Eu namorei o seu irmão. — Ela disse isso de forma simples, direta, mas havia dor por trás. — Ele me contou coisas sobre você, sobre a forma como você lida com a lealdade… e com a justiça. Eu sei que você está procurando alguma coisa. Ou alguém.
Engoli seco. Desviei o olhar. Senti o peso da culpa subir pela garganta, sufocando.
— Eu…
— Você veio atrás de vingança. — completou.
Engasguei com o café. Ela não desviou o olhar.
— Elena…
— Eu vejo como você treina. Vejo quando você sai à noite tentando não ser vista. Sei que seu computador nunca fica aberto quando eu chego perto. — Ela respirou fundo, e pela primeira vez, sua voz falhou. — E eu espero que você encontre esse homem. E que faça ele pagar pelo que fez com o Ares.
As lágrimas dela brilharam antes mesmo de cair. A dor ali era real. Era a mesma que eu carregava todos os dias desde que o sangue do meu irmão tingiu minha vida inteira.
Peguei sua mão, firme.
— Eu vou. Por ele. Por você. Eu prometo.
Uma lágrima caiu e eu a limpei com o polegar. Elena respirou fundo, recompondo-se, forçando um sorriso que dizia mais sobre força do que qualquer palavra.
— Hoje… quero te levar em um lugar onde eu e Ares íamos. — disse, com um sorriso frágil, mas sincero.
— Será um prazer. — respondi, e dessa vez, minha voz saiu firme.
Porque eu precisava disso.
E ela também.
(...)
Saímos de casa pouco depois do almoço, caminhando até o Parc de la Ciutadella. Eu nunca tinha ido até lá, apesar de já ter ouvido falar várias vezes do lugar. O sol estava agradável, quente o suficiente para esquentar a pele sem incomodar, e uma brisa leve percorria as ruas enquanto seguíamos lado a lado.
Quando atravessamos os portões, senti algo dentro de mim afrouxar, como se uma corda que me prendia tivesse sido desatada. O parque parecia um oásis dentro da cidade. Árvores altas formavam corredores de sombra, o cheiro da grama misturava-se ao perfume das flores e o som de risadas distantes se mesclava com o barulho suave da água da fonte.
— Uau… — foi tudo que consegui dizer.
Elena sorriu, como se já esperasse essa reação.
— Eu sabia que você ia gostar.
Caminhamos devagar, apreciando cada detalhe. Havia famílias fazendo piquenique, estudantes sentados no gramado desenhando, turistas fotografando cada canto. E então, quando viramos uma curva, eu vi.
A Fonte da Cascata.
Majestosa, imponente, detalhada. A água descia em camadas, iluminada pela luz dourada do sol da tarde, criando brilhos que pareciam pequenos cristais flutuando no ar. Uma escultura de cavalos e figuras mitológicas se erguia no topo, como se governasse o movimento da água.
— É a coisa mais linda daqui. — falei, com a voz mais baixa do que eu esperava. — Parece… viva. Como se estivesse contando uma história que ninguém nunca vai conseguir ouvir por completo.
Elena parou ao meu lado e me olhou. Seu sorriso era doce, mas havia algo a mais ali, um eco de saudade.
— O Ares disse exatamente isso. Assim mesmo. — contou, com a voz tranquila. — Ele ficou parado aqui, igual você está agora, olhando como se fosse a primeira vez que enxergava beleza no mundo depois de muito tempo.
Meu peito apertou. No bom e no r**m.
Porque no fim, mesmo depois de tudo, ainda era ele. Meu irmão. Meu ponto seguro. Meu primeiro lar.
Senti uma lágrima ameaçar, mas ela não caiu. Em vez disso, um sorriso se formou nos meus lábios.
— Ele sempre teve esse jeito meio dramático… — murmurei, rindo baixinho.
— Tinha. — Elena corrigiu, mas não de um jeito duro. Era suave. Como quem diz eu também gostaria de usar o presente, não o passado.
Ficamos ali por um tempo, apenas olhando. Sem necessidade de preencher o silêncio com palavras.
Depois caminhamos pelo parque inteiro. Sentamos na grama, tiramos fotos, rimos de coisas simples. Elena me mostrou um canto onde ela e Ares costumavam ficar — uma sombra sob uma figueira enorme, onde o barulho da cidade desaparecia quase por completo. Eu me deitei ali um pouco, olhando o céu azul, e por um instante, senti paz. Uma paz real. Limpa. Sem sangue, sem planos, sem sombra de ódio.
Tirei fotos, muitas. Para mandar para minha mãe. Para guardar. Para lembrar que existiam dias assim.
Dias que não doíam.
Quando o sol começou a se pôr, o céu se tingiu de laranja, rosa e dourado. A luz refletia nos lagos e nas folhas das árvores, criando uma atmosfera que parecia saída de uma pintura.
— Obrigada por me trazer. — falei, olhando para Elena.
Ela sorriu, mas dessa vez, seu olhar estava leve.
— Obrigada por não ter desistido de estar viva, Atena.
Fiquei em silêncio. Mas dentro de mim, algo respondeu.
Eu ainda tinha um propósito.
Eu ainda tinha amor.
Eu ainda tinha um pedaço do meu irmão comigo.
E naquele momento, pela primeira vez em muito tempo, isso não foi dor. Foi força.