Nas profundezas do oceano, onde a luz da superfície já não chegava e apenas o brilho suave das algas iluminava as colunas de coral do território antigo, o silêncio tinha um peso diferente naquela manhã.
O Conselho havia sido convocado.
As guardiãs mais antigas estavam reunidas no grande salão circular, onde as correntes do mar entravam lentamente por aberturas naturais nas rochas. Ali, cada movimento da água carregava mensagens do oceano — mudanças, perturbações, ausências.
E naquela manhã… havia uma ausência impossível de ignorar.
Íris não estava em lugar algum.
Karla nadava de um lado ao outro diante das outras guardiãs, o rosto rígido, os pensamentos organizando-se com precisão.
Ela já havia visitado os recifes onde Íris costumava treinar.
As cavernas onde às vezes gostava de ficar sozinha.
Os jardins de coral onde as jovens sereias costumavam se reunir.
Nada.
Nenhum sinal.
A jovem guardiã havia desaparecido durante a noite.
Uma das conselheiras mais antigas, de cabelos prateados que flutuavam como fios de luz na água, falou com voz grave:
— Você acredita que ela foi capturada?
Karla demorou um momento antes de responder.
Porque dentro dela… já existia outra suspeita.
Uma suspeita que ela evitava dizer em voz alta.
— Não — respondeu finalmente.
— Então o que aconteceu?
Karla olhou para o centro da câmara, onde a grande pedra cristalina pulsava lentamente com a energia do oceano.
— Ela saiu.
As palavras ficaram suspensas na água.
Outra conselheira franziu o rosto.
— Saiu… para onde?
Karla respirou fundo.
E então disse aquilo que todas temiam.
— Para a superfície.
O silêncio que se seguiu parecia pesado como as próprias profundezas do mar.
Uma terceira guardiã falou com incredulidade.
— Você está sugerindo que ela fugiu?
Karla não respondeu imediatamente.
Mas em sua mente, as lembranças dos últimos dias eram claras.
O olhar distante de Íris.
As respostas vagas.
A inquietação constante.
E principalmente…
A sensação de que ela escondia algo.
Karla fechou os olhos por um momento.
Quando voltou a falar, sua voz estava firme.
— Eu acredito que ela encontrou um humano.
As reações foram imediatas.
Murmúrios atravessaram o salão.
Movimentos inquietos das caudas.
Uma das conselheiras bateu a mão contra a pedra ao lado.
— Isso é impossível.
Mas Karla balançou a cabeça.
— Não é.
Seu olhar estava pesado agora.
— Já aconteceu antes.
O silêncio voltou.
Porque todas ali sabiam exatamente do que ela estava falando.
A história de Lyria.
A mãe de Íris.
Uma das conselheiras falou lentamente:
— Se isso for verdade… ela pode revelar nossa existência.
— Ou pior — acrescentou outra. — Pode colocar-se em perigo.
Karla assentiu.
— Por isso precisamos encontrá-la.
Ela ergueu o olhar para todas as guardiãs presentes.
— Imediatamente.
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Enquanto isso, muito longe dali, o mundo de Íris havia mudado completamente.
A pequena casa de praia ainda cheirava a madeira salgada e vento do mar quando o sol começou a nascer.
A luz da manhã entrava pela janela, refletindo na superfície da água dentro da grande bacia onde Íris estava acomodada.
Ela havia passado quase toda a noite acordada.
Não por medo.
Mas por fascínio.
Tudo naquele lugar era novo.
Os sons.
Os cheiros.
As texturas.
Íris observava cada detalhe como se estivesse explorando um território desconhecido — porque, de certa forma, estava.
Noah apareceu na porta da pequena cozinha carregando duas canecas.
— Bom dia.
Ela virou o rosto imediatamente.
Um sorriso surgiu.
— Bom dia.
Ele colocou uma das canecas na mesa e sentou-se perto dela.
— Dormiu?
Íris pensou por um momento.
— Um pouco.
Seus dedos brincavam com a água da bacia.
— O silêncio aqui é diferente.
Noah inclinou a cabeça.
— Diferente como?
— No oceano… o silêncio nunca é total.
Ela olhou para a janela.
— Sempre há correntes, criaturas, sons distantes.
Depois voltou a olhar para ele.
— Aqui… é como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
Noah sorriu levemente.
— Talvez esteja.
Ela observou a casa novamente.
— Isso tudo é seu?
— Mais ou menos.
Ele deu de ombros.
— Era do meu avô.
Íris olhou curiosa.
— Ele sabia sobre o mar?
Noah riu.
— Ele era pescador.
— Então ele entendia o oceano.
— De certa forma.
Noah levantou-se e foi até uma pequena prateleira, pegando um objeto.
Era um garfo.
Ele voltou até Íris e colocou na mesa.
— Hoje vamos começar com algo importante.
Ela inclinou a cabeça.
— O que é isso?
— Um garfo.
Íris pegou o objeto com curiosidade, girando-o entre os dedos.
— Parece uma pequena lança.
Noah riu alto.
— Mais ou menos.
— Para que serve?
— Para comer.
Ela piscou.
— Comer?
Noah caminhou até a cozinha e voltou com um prato pequeno contendo pedaços de fruta.
— Humanos usam utensílios.
Íris espetou um pedaço de fruta com o garfo, observando com concentração.
Depois levou à boca.
Seus olhos se iluminaram.
— Isso é delicioso.
— Manga.
— Manga.
Ela repetiu o nome devagar, como se guardasse a palavra.
Nos minutos seguintes, Noah mostrou a ela outras coisas simples.
Como segurar um copo.
Como abrir uma porta.
Como tocar objetos sem derrubá-los.
Íris observava tudo com atenção quase infantil.
Cada gesto.
Cada explicação.
Cada detalhe do mundo humano parecia um pequeno mistério sendo revelado.
— E as pernas? — perguntou ela de repente.
Noah ficou em silêncio por um momento.
— Você disse que algumas sereias conseguem mudar.
Íris assentiu.
— Mas nunca tentei.
— Talvez possamos descobrir juntos.
Ela olhou para a própria cauda, que ainda brilhava dentro da água.
Depois voltou os olhos para ele.
— Tudo aqui parece… difícil.
Noah sorriu com calma.
— Tudo no começo é.
Ele sentou-se novamente perto dela.
— Mas vamos aprender.
Íris observou o rosto dele por alguns segundos.
Havia algo profundamente reconfortante na forma como Noah falava.
Sem pressa.
Sem pressão.
Apenas paciência.
Ela estendeu a mão para ele.
— Obrigada.
Noah segurou sua mão com cuidado.
— Você não está sozinha aqui.
Mas, naquele mesmo momento…
Nas águas profundas do oceano…
Karla liderava um grupo de guardiãs em direção à superfície.
Seus movimentos eram rápidos e precisos.
Elas cruzavam territórios de corais, cavernas e vales submarinos enquanto seguiam sinais deixados pelas correntes.
Pequenas mudanças.
Vestígios de movimento.
Marcas quase invisíveis.
E quanto mais subiam…
Mais clara ficava a sensação dentro de Karla.
Íris realmente havia ido para o mundo humano.
E se ela estivesse certa sobre o motivo…
Então aquela busca não seria apenas uma missão.
Seria um confronto inevitável entre dois mundos.
E muito em breve…
As marés trariam a verdade à superfície.