Capítulo 1
Capítulo 1
Jack Narrando
18 anos antes...
Eu tinha apenas dez anos quando ela virou meu mundo do avesso. Naquela época, o mundo era um lugar pequeno, delimitado pelos muros altos e descascados do orfanato e pelo cheiro de sopa rala que impregnava os corredores. Eu não sabia o que era amor; éramos pequenos demais para dar nome a um sentimento que transbordava o peito daquele jeito. Mas eu sabia que algo dentro de mim se estilhaçava toda vez que ela chorava, e que o frio constante daquele lugar desaparecia quando ela ria. Para um moleque que não tinha nada, aquilo já bastava.
O nome dela era Iris. Eu nunca mais vi o mundo da mesma forma depois que ela apareceu. Lembro-me perfeitamente do dia em que a vi pela primeira vez: o céu estava cinza e uma chuva fina castigava o pátio. Ela parecia tão pequena naquele vestidinho rasgado, tremendo tanto que o queixo batia. Seus braços magrelos abraçavam a própria barriga, como se tentasse segurar o pouco de calor que lhe restava. Seus olhos eram grandes demais para tanta tristeza, um verde profundo que parecia engolir toda a luz do pátio.
Eu não pensei duas vezes. Tirei meu casaco velho, o único que realmente me protegia do inverno, e joguei por cima dos ombros dela. Ela nem agradeceu. Só ficou ali, me encarando com aquele olhar de bicho acuado, pronta para sair correndo se eu desse um passo em falso. Iris não confiava em ninguém, e com razão. Levou semanas para que ela parasse de recuar quando eu me aproximava. E tinha a Sandra, a irmã mais velha dela, que me vigiava como um falcão e parecia não gostar nada da minha insistência. Mas eu não desisti.
Eventualmente, Iris me deu uma chance. E quando ela confiou, jogou-se inteira naquela amizade que era a nossa única âncora. Passamos a ser uma unidade. Quando a comida era pouca e quase sempre era dividíamos cada farelo. Nas noites em que a fome doía mais que o frio, esperávamos o vigia cochilar para roubar pão da cozinha. Criamos nosso próprio universo debaixo dos colchões, onde escondíamos cartas escritas com tocos de lápis e corações desenhados torto, cheios de promessas que só crianças acreditam ser indestrutíveis.
Naquela época, eu era apenas Jack. Não havia "Brant", não havia "Smith", não havia impérios ou máfias de armas. Eu era só um moleque sem sobrenome, sem pai e sem história. E ela era a única coisa real que eu possuía.
Até que... me levaram. O destino não pede licença; ele simplesmente arranca o que você ama sem aviso prévio.
A diretora me chamou na sala dela. O ambiente cheirava a mofo e papel velho. Lá dentro, o contraste era brutal: um homem de terno impecável, com o rosto de quem nunca soube o que era pisar na lama, e uma mulher que soluçava feito criança, com um lenço de seda nas mãos. Eles disseram que eram meus pais. Contaram uma história mirabolante sobre sequestro quando eu ainda era bebê, sobre anos de buscas incessantes, sobre terem finalmente me encontrado.
Eu não entendi nada. As palavras "pai", "mãe" e "família" eram conceitos abstratos que não faziam sentido para quem só conhecia a solidão dos dormitórios coletivos. Mas Iris... ela entendeu no segundo em que me viu sair daquela sala. Ela entendeu que o nosso universo debaixo do colchão tinha acabado. Que não dividiríamos mais o travesseiro ou o pão roubado. Ela entendeu que eu não estaria lá para brigar com os meninos mais velhos quando mexessem com ela. O mundo dela voltaria a ser apenas dor, e a culpa disso me esmagava.
Eu exigi me despedir. Eu não sairia por aquele portão sem olhar nos olhos dela uma última vez.
— Você vai esquecer de mim — ela disse, sem coragem de me encarar, as lágrimas já manchando o chão de terra.
Meu coração se partiu em pedaços minúsculos. Peguei as mãos dela — pequenas, suadas e trêmulas — e as puxei para perto do meu peito.
— Nunca. Eu juro, Iris. Nunca vou esquecer de você. Um dia eu volto. Eu vou crescer, vou ficar forte, vou descobrir quem eu sou... e vou voltar para te buscar .
— Todo mundo vai embora, Jack — ela sussurrou, a voz quebrada pela descrença de quem já foi abandonada demais.
— Eu não sou todo mundo .
Choramos juntos, um choro desesperado que não cabia em corpos de dez anos. Nos abraçamos por um tempo que pareceu uma eternidade, um tipo de abraço que gruda na alma e que nem o tempo, nem a distância, conseguem apagar. Antes de eu ser empurrado para dentro daquele carro luxuoso, ela me entregou seu único tesouro: seu ursinho de pelúcia, aquele com o olhinho costurado torto. Coloquei-o no bolso do casaco e prometi cuidar dele como se fosse ela .
Na hora de ir, ela correu até o portão e gritou meu nome. Olhei para trás e a vi diminuir enquanto o carro acelerava. Foi ali que eu soube: não importava quantos nomes me dessem, quantos ternos eu vestisse ou quanto dinheiro despejassem na minha conta... eu era dela. E ela era minha. Éramos o tipo de amor que só nasce uma vez, na pureza da desgraça .
Mas o destino é um mestre c***l . Promessas feitas com o coração puro são as que mais doem quando a realidade as estraçalha.
A partir daquele dia, Jack foi enterrado vivo. Chamaram-me de Brant Smith. Disseram que aquele era o meu "nome verdadeiro". Enclausuraram-me em escolas de elite, cercado por herdeiros arrogantes que cheiravam a privilégio . Ensinaram-me a falar com elegância, a andar de terno, a obedecer a regras sociais que eu nunca pedi para conhecer .
Eu engoli tudo. Engoli o novo sobrenome, o pai frio e calculista que me via como uma falha biológica, a mãe calada que chorava escondida mas nunca me defendia, e os olhares de pena dos parentes que me tratavam como um animal recuperado da selva. E, acima de tudo, tive que lidar com a rejeição . Eu não era o herdeiro pródigo que eles queriam; eu era um lembrete incômodo de uma tragédia que eles preferiam esquecer .
Foi então que descobri o maior golpe: eu tinha um irmão gêmeo. Rui Smith. Ele era o queridinho, o filho perfeito que nunca foi levado, o reflexo do que eu deveria ter sido. Rui não me recebeu com um abraço; ele me recebeu com ódio. Ele via em mim uma ameaça à sua singularidade, um erro que precisava ser corrigido .
Tudo naquela mansão de mármore frio me fazia ter mais saudade dela. A opulência era vazia. Mas eu não engoli a saudade. Nunca tirei o ursinho do bolso, mesmo quando os ternos ficaram caros demais para carregar brinquedos de órfãos. Nunca esqueci o cheiro de Iris, aquele aroma de sabão barato e chuva. E nunca perdoei o mundo por ter arrancado a minha luz de mim.
Os anos passaram e o ressentimento fermentou. Por fora, tornei-me o "palhaço" da família Smith, fingindo ser fraco e louco para que Rui e meu pai baixassem a guarda. Por dentro, sob a tutela de um mentor que me ensinou a lidar com armas e sombras, tornei-me o chefe da máfia que eles nunca viram chegar .
No fundo, bem no fundo, eu ainda era aquele menino no portão do orfanato querendo voltar. Mas o Jack morreu em algum lugar entre as mentiras da alta sociedade e o sangue das negociações no submundo.
Hoje... só sobrou Brant. E Brant aprendeu da pior forma que, para sobreviver entre monstros, você precisa se tornar o maior deles. Brant não tem coração. Ele tem apenas uma missão: encontrar o que foi perdido, mesmo que precise queimar o mundo inteiro para isso .