Capítulo 1
Capítulo 1
PRETA NARRANDO
A mansão inteira brilhava nessa manhã, mas eu sentia como se estivesse dentro de um túmulo dourado. Mármore reluzente, vidros limpos, arranjos de flores trocados todos os dias… e eu aqui, no meio de tanto luxo, me sentindo a mulher mais sozinha do mundo. Não que isso fosse problema, mas sei lá, até ser sozinha cansa.
Engraçado, né? Filha de governador, herdeira de um sobrenome que abre qualquer porta no Rio de Janeiro, respeitada nos negócios, temida por uns e invejada por outros. Mas quando a porta da frente se fecha e o silêncio toma conta, tudo que sobra é o eco da minha própria respiração.
Eu podia ter o homem que eu quisesse. Bastava estalar os dedos e apareceriam empresários, políticos, advogados, todos de terno e gravata, prontos pra me bajular. Só que nenhum deles olhava pra mim de verdade. Eles viam a filha do governador, a mulher de poder, a empresária que multiplica números, mas não viam a Preta.
E talvez fosse melhor assim. Quanto menos se aproximassem, menos chances de me ferirem.
Passei o café sem vontade, folheei alguns papéis que estavam largados na mesa de jantar, mas minha cabeça não estava aqui. Eu lembrava da ligação de ontem, do Barão.
— Confia em mim, Preta — ele tinha dito com aquela voz firme de sempre. — O moleque é sangue bom. Já me serviu lá em cima, mas quer mudar de vida. Vai ser um putä motorista pra você.
Eu conhecia o Barão desde moleque, já namoramos, ajudei ele muito e vi ele subir na vida dentro do morro até virar dono do Vidigal. Podia confiar nele de olhos fechados. Então não pensei duas vezes quando ele disse que tinha alguém pra indicar. Só que, no fundo, a ideia de ter um ex-vapor dirigindo pra mim mexia comigo.
Ex-vapor.
Homem que já carregou a boca nas costas, que já viveu na linha tênue entre a vida e a morte. Um cara desses não é um simples motorista. É alguém que conhece o gosto do perigo.
Meu celular vibrou, me tirando dos pensamentos. Mensagem do segurança: “O novo motorista chegou.”
Levantei devagar, peguei minha bolsa Chanel e desci até a garagem. O salto ecoava pelo chão de porcelanato, e eu já estava pronta pra dar de cara com mais um homem tentando provar que merecia o emprego.
Mas quando a porta de vidro automática abriu e eu vi o carro preto parado na entrada, percebi que dessa vez era diferente.
Ele estava aqui, do lado de fora, encostado na lataria com os braços cruzados. Alto, corpo forte marcado pela camisa social preta que parecia apertada demais no peito. O corte de cabelo bem-feito contrastava com a barba por fazer, e os olhos escuros… ah, os olhos escuros dele carregavam um peso que eu não soube decifrar.
Ele não se mexeu de imediato quando me viu. Só ergueu o queixo num cumprimento discreto, firme, como quem não precisa abrir a boca pra impor respeito.
— Dona Preta? — a voz dele saiu grave, rouca.
Assenti, estudando cada detalhe.
— Você é o…?
— Caíque, senhora. — Ele se endireitou e abriu a porta de trás do carro, sem desviar o olhar. — Tô aqui a pedido do Barão.
Meu estômago revirou de um jeito estranho. Não era nervosismo, muito menos medo. Era como se tivesse acabado de entrar em cena uma peça que eu não tinha ensaiado.
— Então é você o motorista novo — comentei, entrando no carro.
— Chofer. — Ele corrigiu de leve, fechando a porta com calma. — Pelo menos é o que eu vou ser daqui pra frente.
Gostei da firmeza. A maioria dos homens que já trabalhou pra mim mäl conseguia sustentar o olhar, se apressava em me agradar, tropeçava nas palavras. Ele não. Ele só dizia o necessário, e dizia como quem não precisava da minha aprovação.
Enquanto o carro ganhava a rua, me peguei olhando o reflexo dele no retrovisor. O maxilar marcado, a expressão séria, os dedos firmes no volante. Era um homem jovem, mas carregava nos olhos um cansaço que não se via em garotos de vinte e poucos anos.
— E o que você fazia antes disso? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.
Ele demorou um instante, como se estivesse escolhendo cada palavra.
— Trabalhava com o Barão. Resolvi mudar de vida.
Direto, sem rodeios. A confirmação soou crua, mas não me surpreendeu. O que me surpreendeu foi a calma com que ele disse isso, como se não tivesse vergonha do passado, mas também não tivesse orgulho. Apenas era o que era.
Um silêncio pesado tomou conta do carro. Eu podia sentir a energia dele preencher cada canto desse espaço fechado. Podia jurar que o ar ficou mais denso, mais quente.
Foi então que nossos olhares se encontraram de novo pelo retrovisor. O dele, firme, penetrante. O meu, desafiador, como sempre. Mas algo aqui escapou do meu controle, um arrepio que correu pela minha espinha.
Desviei rápido, fingindo ajustar a bolsa no colo.
— Barão falou bem de você.
— Espero não decepcionar. — Ele manteve o tom baixo, mas havia uma intensidade que me fez prender a respiração.
Não sei explicar o motivo, mas nesse instante eu tive a sensação de que deixar esse homem entrar na minha vida ia virar tudo de cabeça pra baixo.
E, talvez, era exatamente disso que eu precisava.
O carro parou no sinal vermelho. Caíque olhou pelo retrovisor de novo, e dessa vez sua voz soou mais baixa, quase um aviso:
— Só uma coisa, dona Preta… eu não sou como os outros que já trabalharam pra você.
— Disso eu já tenho certeza! — Falei pegando o celular e cortando a conversa.