Capítulo 2
CAÍQUE NARRANDO
Momentos antes...
O despertador tocou antes mesmo do sol nascer, mas a verdade é que eu já tava acordado. Nunca dormia direito. O barulho do morro não deixava, mas também não era só isso. Era a cabeça que não calava.
Minha mãe roncava baixinho no quarto ao lado dormindo com a minha princesa Bela, e meus dois irmãos mais novos ainda estavam espalhados no colchão no chão, respirando pesado depois de um dia inteiro de escola e correria. Isso era o que me mantinha de pé: eles. Se eu não tivesse por quem lutar, já tinha me perdido faz tempo.
Levantei devagar, lavei o rosto na pia gelada e fiquei me olhando no espelho rachado da nossa cozinha improvisada. Meus olhos denunciavam tudo que eu já tinha vivido, tudo que eu tentava esquecer. O morro marca a gente de um jeito que não tem como disfarçar.
Já fui vapor. Já vendi na boca. Já corri da polícia, já vi amigo cair do meu lado. Foi isso que eu escolhi quando era moleque e não via outra saída. Mas quando o sangue escorre na sua frente, você começa a se perguntar quanto tempo falta pro seu também molhar o chão.
Eu pedi pra sair. Pedi pro Barão me soltar. E ele, que sempre foi mais justo do que muita gente pensa, entendeu. Disse que se eu quisesse mudar de vida, ele ia me dar a chance. E foi assim que ontem à noite ele me ligou falando da patroa nova.
— É a Preta, filha de governador. Mulher de poder, mas sangue bom. Vai precisar de alguém de confiança, depois de tudo que aconteceu. — A voz do Barão ecoava na minha mente. — Mostra serviço, moleque. Essa é tua oportunidade de provar que não nasceu só pra morrer no morro.
E aqui estava eu, de camisa social preta e calça alinhada, parado na frente dessa mansão que parecia saída de filme. Carro polido, vidro espelhado. Um mundo que não era o meu, mas no qual eu ia ter que aprender a me mover.
Quando vi ela descendo as escadas da garagem, confesso: perdi o ar.
Preta Monteiro. Alta, postura de rainha, cada passo dela parecia calcular até o som do salto no chão. O cabelo solto brilhava com a luz da manhã, e os olhos… porrä, esses olhos. Era como se ela atravessasse a alma de qualquer um com um único olhar.
Eu pensei: é esse tipo de mulher que nasceu pra mandar no mundo.
Mas logo em seguida pensei também: é esse tipo de mulher que pode destruir a vida de um cara como eu sem nem sujar a unha.
Ela entrou no carro e eu senti o perfume invadir todo o espaço. Não era doce, era forte, marcante, do tipo que fica na pele mesmo depois de horas.
— Então é você o motorista novo — disse ela, ajeitando a bolsa no colo.
— Chofer — corrigi sem pensar, a voz saindo mais grave do que eu queria. — Pelo menos é o que eu vou ser daqui pra frente.
Ela ergueu a sobrancelha, como se não estivesse acostumada a ser corrigida. Quase sorriu, mas segurou.
Durante o caminho, tentei focar na rua, mas era impossível não sentir o peso do olhar dela pelo retrovisor. Eu já tinha visto mulher bonita na vida, mas a Preta era diferente. Tinha uma aura de poder, como se tudo ao redor tivesse que se curvar quando ela passava.
E ainda assim, no meio de tanta arrogância disfarçada, eu percebi uma solidão que ela tentava esconder. Talvez porque eu conheço esse olhar. É o mesmo que vejo quando olho minha mãe, quando olho no espelho. A diferença é que ela tá cercada de ouro, enquanto eu cresci cercado de tijolo sem reboco.
O coração acelerava, mas a mente gritava: se controla, Caíque.
Não posso me dar ao luxo de olhar pra essa mulher de um jeito errado. Sou o chofer dela, nada mais. Minha função é dirigir e calar a boca.
Só que, dentro de mim, alguma coisa já tinha virado de ponta-cabeça.
Quando o sinal fechou e ela desviou o olhar pela janela, aproveitei pra soltar o ar que tava preso no peito. Apertei o volante com força, como se isso fosse me manter no eixo.
Mas não adiantava.
Ela podia ser filha de governador, empresária milionária, considerada, respeitada. E eu podia ser só o ex-vapor tentando mudar de vida. Só que uma verdade queimava dentro de mim desde o momento em que a vi descendo aquelas escadas da mansão:
Eu já tô födido.