Capítulo 2
Íris Brown
Dias atuais...
Você sabe o que é acordar e sentir que o mundo está desabando em cima do seu peito? Porque eu sei. E não é de hoje.
Acordei com o barulho metálico do vizinho xingando no corredor, o som de portas batendo ecoando pela estrutura precária do prédio. O cheiro de mofo do nosso apartamento m*l ventilado já estava grudado na minha pele e nas minhas roupas, um perfume de pobreza que eu não conseguia lavar. O frio de Londres, úmido e implacável, parecia fazer questão de atravessar as frestas da janela e me lembrar que eu era apenas mais uma alma esquecida, um grão de poeira nessa cidade gigante e indiferente.
Sandra tossia no quarto ao lado. De novo. Era uma tosse seca, persistente, que parecia arrancar algo de dentro dela.
— Está tudo bem? — perguntei, entrando devagar no cômodo pequeno.
Ela me olhou e forçou um sorriso que não chegava aos olhos. A pele dela estava ainda mais pálida do que ontem, quase translúcida sob a luz fraca. Os olhos estavam afundados em olheiras escuras e os lábios rachados pelo frio e pela desidratação. Mas mesmo assim, ela mentia. Sempre mentia para me poupar.
— Só estou cansada, Íris. Vai procurar emprego, vai. Eu fico bem.
Cansada. Minha irmã sempre dizia isso. Como se o corpo dela não estivesse, aos poucos, desistindo de lutar. Sandra sempre foi minha rocha, a pessoa espirituosa que me protegeu no orfanato, mas a vida tinha sido c***l com ela. Ela se apaixonou pelo homem errado, foi abandonada grávida e agora pagava o preço com a própria saúde.
A gente morava num cubículo mofado de dois cômodos. Era o que dava para pagar depois que fui demitida do meu último trabalho em uma loja. Uma cliente achou que eu estava flertando com o marido dela e fez um escândalo desproporcional. E aqui, nesse mundo de aparências, quando você é pobre, mulher e invisível, não existe espaço para defesa ou presunção de inocência. Você é apenas descartada.
Eu beijei a testa febril da Sandra e saí, engolindo o choro que entalava na garganta. O que eu realmente queria era ficar ali, deitar do lado dela, segurar sua mão e fingir que o mundo c***l lá fora não existia. Mas a realidade não permite fantasias. Se eu não saísse para buscar uma solução, pararíamos na rua em questão de dias.
Peguei um dos meus currículos amassados e desci as escadas com as pernas bambas de fome e exaustão. Passei o dia batendo de porta em porta, ouvindo mais "não" do que um ser humano deveria ser capaz de suportar em um único dia. Mas eu continuei. Eu não tinha escolha. Se eu parasse, iríamos parar debaixo de uma ponte. Sandra cuidou de mim a vida inteira; agora era minha vez de retribuir, mesmo que eu me sentisse vazia e sem direção.
Quando finalmente voltei para casa, o silêncio no apartamento era assustador. As sacolas de compras baratas estavam caídas no chão da sala, o conteúdo espalhado.
E ela... ela estava no chão também.
— SANDRA?! — gritei, largando tudo e correndo até ela.
Ela estava inconsciente. Fria ao toque. Os lábios tinham uma tonalidade roxa aterrorizante. O desespero tomou conta de mim tão rápido que eu m*l conseguia processar um pensamento lógico. Abri a porta do corredor e comecei a gritar por socorro, a voz embargada pelo pânico:
— ALGUÉM ME AJUDA! PELO AMOR DE DEUS, MINHA IRMÃ!
Um dos vizinhos, um senhor jamaicano que já tinha nos ajudado com sopa algumas vezes, apareceu correndo. Ele me ajudou a levantá-la e chamou um táxi. Em bairros como o nosso, a ambulância só aparece se você já estiver morrendo, então fomos por conta própria, mergulhados em um silêncio fúnebre até o hospital mais próximo.
Eu fiquei segurando a mão da Sandra o caminho inteiro, implorando em sussurros para que ela não me deixasse. Eu tremia violentamente. Chorava sem conseguir parar. O medo era um monstro físico sentado ao meu lado, me encarando com olhos frios.
No hospital, a eficiência foi brutal. Levaram-na direto para a emergência. Fui deixada em uma sala de espera de cadeiras duras, cercada pelo cheiro forte de desinfetante e pelos sons de sofrimento ao fundo. Os minutos se transformaram em horas arrastadas. Eu me abraçava, tentando manter os pedaços da minha sanidade juntos. Tentando apenas respirar.
Depois de uma eternidade, o médico apareceu. Ele era alto, sério, com o rosto marcado pelo cansaço de quem já viu gente demais morrer por causa da negligência e da pobreza.
— Senhorita Brown? — ele perguntou, consultando a prancheta.
— Sou eu. Como ela está? Ela vai ficar bem? — disparei as perguntas, levantando-me de um salto.
Ele respirou fundo, e eu já conhecia aquele olhar de compaixão profissional.
— Sua irmã tem uma condição cardíaca grave. O quadro dela piorou drasticamente. Ela entrou em insuficiência cardíaca congestiva.
— O que isso significa? — minha voz saiu quase inaudível.
— Significa que… se ela não receber um transplante de coração logo, ela não vai resistir por muito tempo.
O mundo congelou naquele instante. Eu juro que parei de ouvir qualquer outro som. Apenas o eco daquelas palavras martelava na minha cabeça: "Ela vai morrer".
— Mas... não tem nada que possam fazer? Medicamento? Cirurgia? Qualquer coisa? — implorei, agarrando-me a qualquer fiapo de esperança.
— Nós vamos estabilizá-la por enquanto, mas é apenas paliativo. O transplante é a única chance real de sobrevivência.
— E como… como a gente entra nessa lista? Eu posso pagar? Eu...
Minha voz falhou. Eu não podia pagar nem o transporte público de volta para casa, quanto mais um transplante de coração em um sistema de saúde que ignora pessoas como nós. O médico me olhou com um misto de pena e objetividade clínica; eu era apenas mais um caso trágico em sua rotina.
— Vou pedir para a assistente social vir falar com você, está bem?
Eu assenti mecanicamente, mas por dentro eu estava gritando. Minha irmã estava morrendo e eu era completamente impotente.
Saí do hospital tonta, a visão turva. A noite já tinha caído e as luzes brilhantes de Londres pareciam zombar da minha miséria. Pessoas passavam com pressa, envoltas em casacos caros, mergulhadas em seus próprios mundos com seus fones de ouvido. E eu estava ali, parada na calçada, vazia, perdida.
Sentei-me em um banco sujo de uma praça qualquer e chorei como uma criança abandonada. Estava sozinha, sem ninguém no mundo além da irmã que estava prestes a perder. Chorei até que meus olhos ardessem e minha garganta ficasse seca.
Até que uma voz suave me tirou daquele transe de dor.
— Está tudo bem?
Levantei o rosto, limpando as lágrimas com a manga da blusa de forma desajeitada. Uma mulher deslumbrante estava diante de mim. Ela era alta, loira e vestida com uma elegância que eu só via em revistas de moda. Mas o que mais me impressionou foram os olhos: eles tinham uma frieza assustadoramente calma, como se ela estivesse observando um experimento.
— Desculpe incomodar… — comecei, sentindo a vergonha me atingir.
— Não incomoda. Eu só... ouvi o médico falando com você sobre a sua irmã.
Meu coração disparou.
— E daí?
— Eu posso ajudar.
— Como assim? — perguntei, desconfiada.
Ela se sentou ao meu lado com uma graciosidade natural, cruzando as pernas impecáveis. Tirou um cartão dourado de uma bolsa que provavelmente custava mais do que eu ganharia em um ano e me entregou.
— Me liga. Hoje. Só digo uma coisa: o coração que você precisa… eu posso conseguir.
— E o que você quer em troca? — a pergunta saiu instintiva. Ninguém ajuda pessoas como eu sem querer algo.
Ela sorriu, um sorriso que não transmitia calor algum.
— Uma proposta. Daquelas que... ninguém recusa.