Capítulo 3

974 Words
Capítulo 3 PRETA NARRANDO O carro seguia em silêncio pela orla, e eu sentia o peso desse silêncio mais do que qualquer palavra que pudesse ser dita. Caíque não era como os outros motoristas que eu já tive. Não puxava conversa fiada, não fazia perguntas imbecis sobre a minha vida, não ria de tudo que eu dizia só pra me agradar. Ele simplesmente dirigia. Firme, atento, como se cada semáforo fosse uma batalha. E eu aqui, atrás, fingindo que estava concentrada nas mensagens do celular, quando na verdade não conseguia tirar os olhos da nuca dele, dos ombros largos que se moviam junto com o volante. A camisa barato que ele vestia não escondia o corpo forte. O pior é que eu não devia estar pensando nisso. Eu sabia. Mas, por algum motivo, a presença dele me tirava do eixo. — Estamos chegando? — perguntei, tentando disfarçar o incômodo que nascia dentro de mim. — Dez minutos, senhora Preta — respondeu sem olhar pelo retrovisor, a voz rouca, firme. Engoli em seco. Senhora. Isso soava como um lembrete. Ele queria manter distância. E talvez fosse o certo. Respirei fundo e tentei me concentrar no que realmente importava: a reunião que estava prestes a acontecer. Isso não era só mais um encontro de negócios. Era uma jogada importante, que poderia expandir mais meu nome para além das fronteiras do Rio. O carro entrou em frente ao hotel cinco estrelas, e eu ajeitei o blazer no corpo, recuperei minha postura de sempre: firme, imbatível, inatingível. Essa era a Preta Monteiro que todos conheciam. Caíque saiu do carro primeiro, abriu a porta com um movimento seguro e estendeu a mão. Por um segundo, hesitei em aceitá-la. Eu não precisava da ajuda dele. Mas o toque rápido de seus dedos no meu quando desci fez meu estômago virar. — Obrigada — murmurei, baixinho, e segui para dentro do hotel. O salão estava impecável, cheio de empresários e políticos. Eu sabia como me mover nesse ambiente. Sempre soube. Um sorriso ensaiado aqui, um aperto de mão firme ali. Só que, no fundo, isso me cansava. E foi aí que ele apareceu. Arthur Valença. Alto, impecavelmente vestido em um terno cinza claro que parecia feito sob medida. O cabelo penteado para trás, o sorriso fácil, daqueles que pareciam praticados em frente ao espelho. Ele exalava confiança, charme… e perigo. — Preta Monteiro — disse, com a voz suave e arrastada, enquanto se aproximava de mim como se já fosse dono do espaço. — Finalmente nos encontramos. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Eu sabia quem ele era. Rico, milionário, um dos nomes mais falados entre os herdeiros do país. Tinha negócios em todo canto, de hotéis a empreendimentos imobiliários. E, pelo jeito, tinha um interesse especial em mim. Eu não era boba, sabia muito bem quando um homem estava interessado em mim. Estendi a mão, fria e calculada como sempre. — Senhor Valença. Ele sorriu, mas em vez de apertar minha mão, a levou até os lábios. — Arthur, por favor. Não precisamos de tanta formalidade. Atrás de mim, lá fora pelo vidro transparente, senti a postura de Caíque endurecer. Eu não precisava olhar pra saber. Podia sentir. Ele era discreto, mas a presença dele era tão intensa que parecia me cercar. — Espero que essa reunião seja produtiva — falei, soltando minha mão e me recompondo. — Será muito mais do que produtiva — Arthur respondeu, os olhos cravados nos meus. — Eu prometo. A conversa seguiu com números, propostas e promessas. Ele falava bem, sabia seduzir com palavras, sabia vender sonhos. Só que, por trás de todo aquele charme, havia algo que eu não conseguia ignorar: uma determinação quase obsessiva. Arthur não queria apenas um acordo de negócios. Ele queria mais. — Sabe, Preta… — ele disse em um tom mais baixo, quando a maioria das pessoas já tinha se dispersado. — Tenho acompanhado sua carreira há anos. Você é brilhante. Forte. Incrivelmente… única. — Obrigada — respondi seca, cruzando os braços. — Não me agradeça ainda. — Ele sorriu de lado. — Quero te fazer uma proposta. Não apenas de negócios. Arqueei a sobrancelha, surpresa com a ousadia. — Está me propondo o quê, exatamente? Ele se inclinou levemente, como se contasse um segredo. — Um jantar. Só nós dois. Hoje à noite. Antes que eu pudesse responder, meu olhar foi puxado involuntariamente para o reflexo no espelho ao fundo. Caíque estava lá, firme, observando tudo à distância. Os olhos dele queimavam de um jeito que me fez estremecer. Respirei fundo, tentando controlar o turbilhão dentro de mim. Arthur me oferecia status, poder, segurança. Tudo o que qualquer mulher na minha posição deveria querer. Mas Caíque… só de estar ali parado, já me virava do avesso. — Vou pensar — respondi por fim, mantendo o tom neutro. Arthur sorriu, confiante, como se já tivesse vencido. — Não demore muito. Saímos do salão e, assim que pisei na calçada, o ar fresco bateu no meu rosto. Caíque abriu a porta do carro em silêncio, mas quando nossos olhos se encontraram, eu soube. Ele tinha percebido. Ele sabia. Não sei como, mas sabia. Entrei no carro, ajeitei a bolsa no colo e tentei me recompor. Mas a tensão era quase palpável. O carro arrancou, e eu não aguentei. — Está tudo bem? Algo está te incomodando? — perguntei, tentando soar casual, mas minha voz saiu mais tensa do que queria. Ele não respondeu de imediato. Só apertou o volante com mais força, os músculos dos braços marcando sob a camisa. O silêncio foi a pior resposta que ele poderia me dar. Pelo retrovisor, nossos olhos se encontraram de novo. E nesse instante, eu tive certeza: se Arthur era o homem que podia me oferecer tudo… Caíque era o homem que podia me destruir. Não sei como... mas podia.
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