Capítulo 4
CAÍQUE NARRANDO
Momentos antes…
Ficar do lado de fora do hotel não me incomodava. Já fiquei horas numa esquina escura esperando sinal de rádio pra descer a carga, já dormi no banco de trás de carro batido com medo de bala perdida atravessar a lataria. Aqui era diferente: ar-condicionado no talo, manobrista educado, fachada inteira de vidro polido refletindo o mar. Até o silêncio parecia ter etiqueta.
Encostei de leve as mãos no volante, mas não tirei os olhos da porta giratória. O vidro do saguão era tão transparente que dava pra ler conversa no lábio, se eu quisesse. Pessoas entravam e saíam, o som do salto delas nem chegava até mim. Era outro mundo. Um mundo perfumado, onde ninguém corre porque tá atrasado pra pegar ônibus, ninguém abaixa a cabeça por reflexo quando estoura coisa no alto. O asfalto tem esse brilho falso que cega quem não tá acostumado.
Ela apareceu lá dentro. Preta. Não tinha como confundir. A postura ereta cortando o salão, o blazer caindo perfeito no corpo, o cabelo escuro emoldurando um rosto que não pede licença. Ela não andava. Ela ocupava. Tinha alguma coisa nela que fazia o resto do ambiente se reorganizar ao redor, como se as coisas entendessem sozinhas quem mandava.
E foi quando ele veio.
O cara chegou de lado, como predador que sabe o próprio lugar no topo da cadeia. Alto, terno cinza claro que custava mais do que tudo que eu já comprei pra dentro de casa num ano, sapato que nem tocava o chão, sorriso treinado em frente ao espelho. O tipo de homem que acha que o mundo foi feito pra servir. Olhou pra Preta do jeito que homem olha pra coisa que quer comprar. Não teve pudor. Não teve respeito. Teve intenção. Muita.
Senti o sangue subir pro rosto sem minha permissão. A visão afinou, como quando a gente mira por trás de ferro de mira. Não ouvi as palavras, mas li a dança do corpo. O cara se aproximou como quem já conhece a resposta, esticou a mão, e quando ela ofereceu a dela — por educação, por jogo, por estratégia, seja lá — ele não apertou: levou aos lábios. Eu vi. Vi a boca dele tocar a pele dela, vi o jeito mínimo como o ombro dela endureceu e depois descansou, vi o canto da boca do sujeito levantar como se ele tivesse marcado ponto.
Minha mão fechou tanto no couro do volante que rangiu. A vontade era sair do carro, atravessar o saguão e enfiar aquele sorriso dentro da garganta dele. E eu nem sabia por quê. Não era minha mulher. Não era minha vida. Era minha patroa. E eu era o quê? Chofer. Só isso. O homem que abre a porta e cala a boca.
“Se controla, Caíque.” A frase veio com a voz do Barão na minha cabeça. “Mostra serviço, moleque.” Respirei devagar, contando mentalmente como a psicóloga da ONG ensinou quando eu tentei largar a adrenalina do corre. Quatro segundos entra, quatro segura, quatro sai. O coração respondeu, mas a raiva ficou aqui, acesa, como brasa coberta por cinza.
Observei mais. A cena seguiu como uma coreografia de gente grande. O tal sujeito — que só podia ser desses herdeiros famosinhos — inclinou de leve a cabeça quando ela falou alguma coisa. Preta cruzou os braços numa linha que eu conheço bem: fronteira. Ele não recuou. Aproximou de novo, a boca mexendo devagar, olhando direto pra ela como quem sabe hipnotizar cobra. Ela não desviou. Nunca vi mulher como ela desviar. Mas tinha um brilho diferente no olhar, uma tensão no maxilar, aquele minúsculo ajeitar de cabelo que mulher faz quando precisa respirar antes de responder algo que não é simples.
E eu aqui, do lado de fora, assistindo como se fosse filme numa tela que não me inclui. Parte de mim queria odiar ela por jogar esse jogo com ele. Outra parte queria arrancar ela dali pelas mãos. No fim, o que sobrou foi um ódio direcionado — não a ela, nem ao mundo — a mim. Por sentir. Por me afetar. Por esquecer, por alguns segundos, que eu tenho motivo pra estar vivo: minha mãe e a minha pequena dormindo no colchão do quarto ao lado, a respiração delas como reza contínua pedindo que eu volte inteiro. Eu não posso me dar ao luxo de sentir.
O tempo passou, não sei quanto. Os garçons deslizaram, os políticos gesticularam, o oceano do lado de fora brilhou como se nada importasse além do reflexo. O tal sujeito fez um gesto final — convite. Eu não ouvi, mas reconheço. O braço abrindo sutil, a palma da mão virada pra cima, a expectativa no canto do olho. Preta respondeu com um sorriso que não entregou, um meio aceno que vale por talvez. Ele gostou do próprio atrevimento. Ela encerrou. A cena acabou.
Ela virou e veio na minha direção.
Saí do carro no automático, ajeitei o paletó barato, respirei a raiva pra dentro. Quando ela passou pela porta giratória, o mundo lá dentro ficou um pouco menos nítido. Aqui fora, o vento da orla bateu, trouxe cheiro de sal, e o salto dela voltou a fazer sentido.
Abri a porta traseira.
— Senhora Preta. — A voz saiu firme, impecável. Eu ainda sei ser profissional.
Os olhos dela cruzaram os meus por uma fração de segundo. Havia alguma coisa aqui — não era vitória, não era derrota. Era… turbulência. A mesma que fica no céu depois que avião corta nuvem pesada. Ela entrou sem dizer nada, o perfume dela tomou o carro inteiro de novo, e eu dei a volta pro volante.
Dei partida com cuidado, acelerando como quem pisa em terreno minado. O trânsito da Atlântica corria liso, mas o silêncio entre nós era grosso, dava pra mastigar. Eu conseguia ver pelo retrovisor o modo como ela mexia no celular sem ver a tela, como passava o polegar pra cima e pra baixo só pra ter onde colocar a mão. A mente dela não estava aqui. A minha também não.
No meio do caminho, a voz dela chegou baixa, mas direta:
— Está tudo bem? Algo está te incomodando?
Eu ouvi. E decidi não responder.
Não foi por grosseria. Foi autopreservação. Se eu abrisse a boca, qualquer coisa que saísse ia ter gosto de coisa errada. Ia vir embutido de um ciúme que eu não tenho direito de carregar. Então eu me agarrei no volante e deixei o silêncio fazer o trabalho sujo por mim. Fingi que não ouvi. Que o barulho do motor cobriu. Que o mundo lá fora exigia toda a minha atenção. Foi mentira. Eu tinha ouvido cada sílaba.
Senti os olhos dela me fuzilarem pelo retrovisor, rápidos, um relance só. Voltei a encarar a faixa branca correndo debaixo do carro. O joelho ficou duro, o ombro travou. Vontade de falar: “Tá tudo em paz.” Vontade de falar: “Não gostei do jeito que aquele cara te olhou.” Vontade de falar: “Não é da minha conta, e eu sei.” Engoli tudo. Deixei as palavras morrerem na garganta junto com a parte de mim que acha que tem escolha nessas horas.
A orla foi ficando pra trás, os prédios trocando de altura, o vento menos salgado, mais quente. Cada semáforo parecia uma pausa longa demais dentro da mesma música. No terceiro vermelho, eu puxei o freio com gentileza e mantive o pé firme. Não olhei pra trás. Não confiei em mim pra isso. O rádio do carro podia estar ligado — nem notei. Eu só escutava a respiração dela, contida, e a minha própria, um pouco mais pesada do que deveria.
Quando virei na rua da mansão, o portão já estava abrindo. O segurança de sempre ergueu o queixo, num “boa noite” mudo que respondi com outro. Apontei o carro pro espaço de sempre, alinhei com um gesto que não precisa de pensamento, desliguei o motor. O mundo, em volta, ficou sem ruído.
Desci primeiro, dei a volta, abri a porta traseira. Preta saiu com a mesma elegância de quando entrou no hotel, mas com outra densidade, como se estivesse carregando uma mala invisível na mão. O blazer caiu perfeito no lugar quando ela ergueu o queixo, e por um segundo eu tive certeza: aquele sujeito lá dentro tinha oferecido algo que não era só contrato. Ofereceu aquilo que o dinheiro compra: a sensação de que nada vai te faltar. E ela ouviu. Não cedeu. Mas ouviu.
Ela deu dois passos, parou, e o olhar veio em mim de novo. Não foi exigente. Não foi doce. Foi intenso. Como quem mede. Como quem suspeita que tem uma conversa debaixo do carpete, ainda que ninguém fale.
Eu não disse nada. É isso que eu sei fazer. Abrir porta. Fechar porta. Dirigir. E engolir.
Ela virou as costas e entrou. O portão interno engoliu a silhueta dela. O som do salto apagou. A casa tragou a dona e devolveu silêncio.
Fiquei aqui, um instante a mais do que precisava, com a mão ainda na maçaneta aberta. O vento da noite passou por mim, levantou um cheiro de flor que eu nem sei o nome. A adrenalina foi baixando e, com ela, veio uma espécie de vergonha. Vergonha de ter sentido o que senti. Vergonha de ter desejado quebrar a cara de um homem que eu nem conheço só porque ele encostou a boca na mão da minha patroa. Vergonha de ser, por dentro, a mesma pólvora que eu jurei largar.
Fechei a porta devagar e voltei pro volante. Encostei a cabeça no encosto, respirei fundo, contei até quatro, de novo. Pensei na Bela, com os cachinhos grudando na testa quando dorme, na minha mãe ajeitando cobertor no meio da madrugada, nos meus irmãos roncando um riso de quem gastou energia jogando bola no campinho. Pensei no motivo. No recomeço. No “mostra serviço, moleque” que o Barão me deu como última ficha.
E mesmo assim, com todos esses lembretes alinhados na cabeça, a pergunta veio, seca, sem educação, atravessando meu peito:
Que porrä tá acontecendo comigo?
Fiquei alguns segundos com essa pergunta martelando, olhando a porta por onde ela sumiu, sentindo o perfume dela ainda amarrado no tecido do banco. Liguei o carro, desliguei o carro. Mais uma respiração. Coloquei as duas mãos no volante pra ver se parava de tremer por dentro.
Primeiro dia. Só isso. Primeiro dia.
E eu já tava em guerra com uma parte de mim que eu pensei ter enterrado.
Eu não sei onde isso vai dar. Só sei que, a partir daquela cena de vidro — ele beijando a mão dela, ela segurando a postura, eu aqui do lado de fora sem direito a nada — alguma coisa que tava quieta em mim acordou.
E se eu não aprender a calar essa coisa agora, ela vai falar por mim. E vai me destruir.
Eu só queria dirigir. Agora… eu preciso sobreviver a mim.