Capítulo 5
ARTHUR NARRANDO
Sempre me ensinaram que o mundo é um tabuleiro e que tudo o que existe nele tem preço.
Desde moleque, quando ainda estudava em internato na Suíça, eu aprendi que charme é só uma ferramenta. Que o sorriso certo, no momento certo, derruba mais muros do que qualquer exército. Cresci rodeado por homens que negociam poder em taças de cristal e mulheres que fingem amor enquanto contam cifras.
É um jogo. Sempre foi.
E eu aprendi a jogar bem.
Meu nome é Arthur Valença, herdeiro de uma fortuna que começou com construtoras e hoje se espalha por hotéis, empreendimentos de luxo, holdings internacionais e participações em quase tudo o que dá lucro neste país.
Sou o tipo de homem que não ouve “não” há muito tempo — não porque não exista, mas porque eu aprendi a contornar cada um deles.
E mesmo com toda essa trajetória, faz tempo que algo — ou alguém — não me tira do centro.
Até hoje.
Até ela.
Preta Monteiro.
Desde a primeira vez que ouvi esse nome numa reunião de empresários, ele ficou grudado na minha cabeça.
A filha do governador. A empresária jovem que transformou uma herança em império. A mulher que não se curva.
Aquela que olha de cima não por soberba, mas porque simplesmente nasceu no topo.
E talvez seja exatamente por isso que eu preciso dela.
Porque o poder, sozinho, cansa.
E, sinceramente, eu estou cansado de mulheres que se derretem com o primeiro gesto.
A Preta é diferente. Quando eu me aproximei hoje, ela não desviou o olhar. Não recuou. Não sorriu de nervoso.
Ela apenas mediu. Calculou.
E essa frieza me deixou obcecado.
Durante a reunião, enquanto todos falavam de contratos e números, eu só observava a postura dela.
A segurança. O modo como não precisa levantar a voz para dominar a sala.
E quando estendi a mão e beijei os dedos dela, vi o que precisava ver: um mínimo endurecer do ombro.
Ela não esperava.
Mas não me afastou.
O tipo de mulher que não se entrega fácil — e é exatamente esse o tipo que sempre acaba comigo.
Passei o resto do dia com aquele olhar preso na cabeça.
O olhar dela e o do homem que estava esperando lá fora — o motorista.
Um sujeito que não combinava com esse cenário.
Ex-militar? Segurança? Não sei. Mas o modo como ele olhava pra ela… não era profissional. Era protetor. Instintivo.
E isso me irritou mais do que devia.
Porque ninguém protege o que não é seu.
E eu ainda não sei o que existe entre eles — mas, seja lá o que for, não vai durar.
Voltei pro escritório e pedi pra minha secretária cancelar todos os compromissos da noite.
Peguei o telefone e liguei direto pro gerente do Céu de Ipanema, a cobertura mais exclusiva da orla.
Um lugar que só abre sob reserva e onde o pôr do sol parece pintado à mão.
— Preciso da cobertura hoje e amanhã — falei direto. — Não quero ninguém no andar. Quero privacidade total.
O gerente quase gaguejou.
— Claro, senhor Valença. Deseja que montemos o menu usual ou algo específico?
Fechei os olhos e imaginei a cena.
Ela entrando de vestido preto, o cabelo solto, o olhar avaliando cada detalhe antes de decidir se fica.
Eu, esperando com taça de vinho, pronto pra entregar o mundo em troca de um sorriso.
— Chame o chef Matteo, aquele italiano que trabalhou pro rei da Jordânia — respondi. — Quero algo pessoal, nada de cardápio comum. Um jantar feito só pra ela.
O homem anotou rápido, e eu continuei.
— Decoração simples. Luz baixa, orquídeas brancas. Mande trazer o mesmo vinho que servi no jantar com o príncipe de Mônaco. E quero o piano afinado.
Quando desliguei, percebi que estava sorrindo.
Fazia tempo que eu não sentia isso.
Planejar, sim. Desejar, não.
Mas Preta Monteiro despertou algo que eu achava morto em mim.
A diferença é que eu nunca fui um homem que sente e fica parado.
Quando quero algo, eu movo o tabuleiro.
Peguei o tablet e abri o dossiê que mandei montar sobre ela.
Nada que não pudesse ser público — empresas, doações, aparições, viagens, entrevistas.
Cada imagem dela reforçava a certeza que eu já tinha: essa mulher nasceu pra estar do meu lado.
A forma como encara as câmeras, a frieza com que responde perguntas invasivas, o modo como o nome dela ecoa em qualquer ambiente.
Eu preciso dela — não só porque quero, mas porque juntos seríamos imbatíveis.
Valença e Monteiro.
Dois impérios unidos.
Duas forças que ninguém teria coragem de enfrentar.
E, no meio desse raciocínio lógico, havia o outro motivo.
Mais primitivo.
Mais humano.
O desejo.
O toque da mão dela ficou preso na minha pele.
A lembrança do perfume, o som contido da respiração quando me afastei, o olhar indecifrável que ela me lançou.
Nada nela foi fácil. E isso só me fez querer mais.
Levei o copo de uísque à boca e fiquei olhando a cidade pela janela do meu escritório, o reflexo das luzes refletindo no vidro.
Do alto do trigésimo andar, tudo parece pequeno.
Menos ela.
Ela continua grande, mesmo de longe.
Peguei o celular e reli a mensagem que mandei pra ela logo depois da reunião:
"A reunião foi incrível. Fico esperando sua resposta para o jantar."
Ela ainda não respondeu.
Mas vai.
Eu sei reconhecer um olhar curioso quando vejo um.
E o dela carregava curiosidade e medo em doses iguais.
Mulheres como Preta não aceitam convites porque precisam — aceitam porque querem provar que dominam até o perigo.
E eu sou o perigo perfeito.
Passei as próximas horas organizando os detalhes.
A cobertura estaria pronta às oito em ponto: vista pro mar, mesa montada com porcelana francesa, velas discretas, orquídeas e uma garrafa de vinho aberta na temperatura certa.
Nenhum jornalista, nenhum assessor.
Só nós dois.
Imaginei a reação dela ao chegar: aquele olhar analítico percorrendo tudo, o toque breve dos dedos na taça antes de provar o vinho, a voz firme dizendo algo como “Você gosta de impressionar, senhor Valença?”
E eu, sorrindo de canto, responderia: “Só quando vale a pena.”
Era isso.
O jogo tinha começado.
E eu sempre fui bom em vencer.
Mas dessa vez o prêmio era diferente.
Dessa vez não se tratava de contrato, poder ou expansão.
Tratava-se dela.
Preta Monteiro.
A mulher que não devia me interessar.
A que vai me testar até o limite.
E que, no fim, vai ser minha.
Porque eu não apenas quero.
Eu decidi.
E quando um Valença decide… o resto do mundo só observa.