CAPÍTULO 11: O Inferno de Cinzas (Ponto de Vista de Bernardo)
O volante de couro do Porsche parecia estar prestes a se romper sob o aperto de minhas mãos. Eu acelerava pelas ruas molhadas da cidade sem um destino certo, enquanto os limpadores de parabrisa batiam em um ritmo hipnótico e irritante. Minha respiração ainda estava descompassada. Na altura do meu maxilar, onde o soco de Lucas de raspão havia pegado, a pele latejava com uma dor incômoda.
Mas aquela dor física não era nada perto do incêndio que consumia meu peito.
Eu odiava aquele sentimento. Odiava com todas as minhas forças. Eu sempre fui o senhor do meu próprio destino, o herdeiro que mantinha as emoções sob uma chave de ferro, blindado contra qualquer fraqueza. Até *ela* aparecer.
> *Raissa.*
>
Apenas pensar no nome dela fazia meu estômago se contrair em um nó doloroso de raiva e desejo possessivo. Quando a vi pela primeira vez naquele pátio, com aquela maldita postura ereta e os olhos azuis que pareciam ler minha alma e rir da minha arrogância, algo em mim quebrou. Ela deveria ser apenas mais uma bolsista insignificante, poeira sob meus pés. Mas sua beleza... aquela pele de porcelana, os cabelos dourados que pareciam brilhar mesmo sob a chuva cinzenta, e a dignidade com que ela me enfrentava me deixavam louco.
Eu a queria. Desejava-a mais do que qualquer outra coisa que meu dinheiro já havia comprado. E isso me apavorava.
Para um Castiglione, desejar alguém que não pertencia ao nosso mundo de ouro era o equivalente a assinar uma sentença de fraqueza. Então, eu tentei quebrá-la. Usei o bullying, usei o desprezo, usei as palavras mais cruéis que consegui encontrar para tentar fazê-la chorar, implorar, curvar-se diante de mim. Se eu a destruísse, talvez eu destruísse também esse sentimento doentio que estava me escravizando.
Mas o tiro saiu pela culatra. Ver Raissa resistir a cada ataque só a tornava mais fascinante. E ver outros homens se aproximarem dela... aquilo quase me fazia perder a razão.
### A Imagem que me Tortura
Fechei os olhos por um breve segundo, parando o carro bruscamente diante de um sinal vermelho. A imagem da biblioteca municipal voltou à minha mente com uma nitidez dolorosa.
Lucas Dumont. Aquele maldito herdeiro sorridente, com seus modos gentis e fáceis, inclinado sobre a *minha* garota. Eu vi como ele a olhava. Vi como ele tocou o caderno dela, quase roçando em seus ombros. E vi o pior de tudo: o sorriso dela para ele. Um sorriso leve, brilhante, desarmado. Um sorriso que ela nunca, em momento algum, havia direcionado a mim.
Uma onda de ciúme puramente selvagem e primitivo me atingiu no peito, dificultando minha respiração.
*Ela é minha*, minha mente gritava em um tom possessivo e irracional. *Minha para odiar, minha para atormentar, minha para possuir. De mais ninguém.*
Quando avancei contra Lucas e o prensei contra aquele vidro, eu não estava pensando em herança, em negócios ou na reputação da minha família. Eu queria apenas marcar meu território. Queria arrancar o pescoço de qualquer um que ousasse colocar os dedos nela.
Mas o que eu fiz depois? Eu a humilhei de novo. Chamei-a de praga, de borrão de lama. Lembrei-me dos olhos azuis dela se enchendo de lágrimas. Não eram lágrimas de medo; eram de nojo. Ela me olhava como se eu fosse um monstro asqueroso. E, por dentro, aquela expressão dela me rasgou ao meio.
— Droga! — esmurrei o volante, o som da buzina ecoando pela avenida deserta.
Eu sabia que estava perdendo o controle do jogo. O ódio que eu tentava alimentar contra ela estava sendo engolido por uma obsessão sem limites. Eu não conseguiria mantê-la longe por muito tempo. Se o mundo precisasse queimar para que ela parasse de olhar para caras como Lucas e Gabriel e olhasse apenas para mim — mesmo que com raiva —, eu riscaria o primeiro fósforo.