CAPÍTULO 6: O Limiar do Desejo
O silêncio que se seguiu à ameaça de Bernardo era tão denso que Raissa podia ouvir o pulsar acelerado do próprio sangue em seus ouvidos. A sala de arquivos parecia ter encolhido. A luz fraca e amarelada da única lâmpada pendurada no teto projetava sombras dramáticas nas paredes de pedra, envolvendo os dois em uma atmosfera de isolamento absoluto do resto do mundo.
O pulso de Raissa continuava firmemente preso contra a porta de madeira pela mão grande e quente de Bernardo. Ela tentou puxar o braço mais uma vez, mas o movimento só serviu para aproximar ainda mais os seus corpos. O peito dela arfava, tocando de leve o blazer dele.
— Você é um covarde, Bernardo — ela sibilou, a voz trêmula, mas não de medo, e sim de uma raiva eletrizante. Seus olhos azuis faiscaram. — Você precisa me prender em uma sala e usar a força física para sentir que tem algum poder sobre mim? É isso que o grande herdeiro dos Castiglione precisa fazer para inflar o próprio ego?
Os olhos cinzentos de Bernardo desceram para a boca dela, os lábios entreabertos pela respiração curta. A provocação de Raissa agiu como gasolina no fogo que já ardia dentro dele. Ele não queria apenas dominá-la; ele queria consumi-la. Ele queria apagar a imagem dela sorrindo para Gabriel Fontes. Queria que ela olhasse apenas para ele, mesmo que fosse com ódio.
— Você não sabe nada sobre o meu poder, Raissa — Bernardo sussurrou, a voz caindo para um tom perigosamente rouco e baixo.
Ele deu mais um passo à frente, eliminando qualquer espaço que restava entre eles. O calor que emanava dele era quase insuportável. Raissa sentiu um arrepio violento percorrer sua espinha quando o joelho dele se posicionou sutilmente entre as pernas dela, prendendo-a por completo contra a porta.
A mão livre de Bernardo subiu lentamente pelo braço dela, a ponta dos dedos traçando um caminho lento e torturante pela pele exposta do pescoço de Raissa, subindo até sua mandíbula. O toque era firme, mas estranhamente hesitante, como se ele estivesse lutando contra o próprio corpo para não machucá-la, mas incapaz de se afastar.
— Você entra no meu colégio... age como se não se importasse com nada disso, como se fosse superior a todos nós... — Bernardo continuou, o olhar fixo na boca dela, a respiração dele agora misturando-se com a dela. — Mas você me olha assim. Com essa pose de realeza. Você me odeia, não odeia?
— Eu te desprezo — Raissa respondeu, mas a voz saiu mais fraca do que ela pretendia.
A proximidade física estava nublando seus sentidos. O perfume dele, uma mistura inebriante de sândalo e couro, parecia anestesiar sua capacidade de raciocinar. Havia uma eletricidade estática absurda no ar, uma tensão s****l tão palpável que o ar parecia pesado demais para respirar. Ela queria empurrá-lo com todas as suas forças, mas, ao mesmo tempo, uma curiosidade sombria e um desejo involuntário a paralisavam.
— Minta de novo — Bernardo desafiou, os olhos escurecendo até parecerem duas tempestades sem fim.
Ele inclinou o rosto. Seus lábios roçaram a bochecha de Raissa, subindo lentamente até o lóbulo de sua orelha, onde ele deixou um sopro de ar quente que a fez fechar os olhos e soltar um suspiro baixo, quase imperceptível. Aquela reação foi a confirmação que Bernardo precisava. Ele moveu o rosto de volta, a distância entre suas bocas agora reduzida a meros milímetros. Ele podia sentir o calor dos lábios dela. O desejo possessivo que ele vinha reprimindo desde o primeiro dia no pátio finalmente quebrou todas as suas barreiras.
Ele ia beijá-la. Ele precisava daquele beijo como se sua vida dependesse disso.
### O Choque de Realidade
*Clac.*
O som metálico e estridente da chave girando na fechadura do lado de fora ecoou pela sala de arquivos como um tiro.
Em uma fração de segundo, Bernardo congelou. Os passos pesados do inspetor do colégio aproximando-se no corredor do subsolo agiram como um balde de água fria em seu cérebro entorpecido.
Ele piscou, a névoa do desejo dissipando-se instantaneamente, dando lugar a uma percepção brutal: ele quase havia cedido. Ele quase havia se entregado à garota que considerava uma ameaça à sua soberania, uma bolsista insignificante que não tinha um centavo no bolso. Ele, Bernardo Castiglione, quase implorou pelo beijo de uma garota que ele deveria desprezar.
O pânico de ter demonstrado vulnerabilidade se transformou em fúria em questão de milissegundos.
Ele soltou o pulso de Raissa bruscamente, dando dois passos rápidos para trás, afastando-se dela como se ela o tivesse queimado. Seus olhos cinzentos voltaram a ser duas pedras de gelo, mas com uma pitada de humilhação pessoal que ele mascarou imediatamente com uma expressão de profundo nojo.
Raissa encostou-se na porta, respirando fundo, tentando recompor sua postura enquanto seu coração batia descompassado no peito.
— O que foi? — Bernardo zombou, a voz agora fria, cortante e desprovida de qualquer vestígio da rouquidão de segundos atrás. Um sorriso cínico e m*****o curvou seus lábios. — Achou mesmo que eu ia te beijar?
Raissa o encarou, chocada com a rapidez da mudança.
— Você realmente achou que eu me rebaixaria a esse ponto? — Bernardo continuou, limpando o canto da boca com as costas da mão com um gesto de deliberado desprezo. — Olha para você, Raissa. Uma garota que usa restos de tecido para tentar parecer alguém em uma festa. Eu só queria ver até onde vai a sua hipocrisia de "garota certinha". Você se vende por muito pouco. Bastou eu chegar um pouco mais perto para você amolecer. Você não passa de uma oportunista barata, exatamente igual a todas as outras. Só que sem o dinheiro para disfarçar.
As palavras dele foram como chicotadas. A humilhação queimou o peito de Raissa de forma muito mais dolorosa do que o ponche derramado em seu vestido. Ela sentiu os olhos arderem com lágrimas de pura raiva e decepção — não por ele, mas por si mesma, por ter permitido que ele se aproximasse tanto.
Antes que ela pudesse responder, a porta de madeira se abriu por completo. O inspetor do colégio entrou com uma prancheta na mão.
— Terminaram o inventário? — perguntou o funcionário, alheio à atmosfera pesada que quase cortava o ar.
— Já terminamos — disse Bernardo, sem olhar para trás. Ele pegou seu blazer do chão, jogou-o sobre o ombro e caminhou em direção à saída. Ao passar por Raissa, ele deliberadamente esbarrou em seu ombro, forçando-a a dar um passo para o lado. — Essa sala está com cheiro de mofo. Não aguento mais um segundo aqui dentro.
Ele saiu, deixando Raissa sozinha com o eco de suas palavras cruéis e a promessa silenciosa de que ela nunca, jamais, se deixaria fraquejar diante dele novamente.