Ao sair do banheiro, ainda secando o cabelo com a toalha, Alessandro olhou ao redor e notou que Serena não estava mais deitada. Seus olhos passearam pelo quarto silencioso, e ele murmurou com um tom calmo, quase monótono:
— Provavelmente o jantar ainda não foi servido... deve ser daqui a pouco. Você deve estar com fome.
Serena, que estava em pé próxima à porta do banheiro, hesitou. Seu olhar vacilou em direção a ele por alguns segundos antes de responder, sua voz baixa, quase envergonhada:
— É... sim. Estou... só vou tomar um banho e já desço.
Ela desviou o olhar rapidamente e entrou no banheiro, fechando a porta com cuidado.
Alessandro soltou um suspiro pesado e caminhou até o closet. O ambiente estava silencioso, apenas o som do vento noturno passava pelas frestas da sacada.
Mais tarde, quando Serena saiu do banheiro, vestindo um roupão, seus olhos encontraram Alessandro na sacada do quarto. Ele estava de costas, apoiado na grade, com uma taça de uísque na mão. O céu estava estrelado, mas seu semblante carregava nuvens. A expressão era rígida, o maxilar travado. Serena passou discretamente por ele, indo até o armário para se vestir, sem trocar palavras.
Ela escolheu um vestido discreto, e antes mesmo de terminar de se arrumar, Alessandro já havia deixado a sacada. Ele colocou o copo sobre a mesinha de canto com um leve estalo e caminhou até a porta. Serena, com os cabelos ainda úmidos e um perfume leve de lavanda, seguiu atrás.
Ao descerem as escadas e entrarem na sala de jantar, encontraram Inácio e Eleonora já sentados à mesa. O ambiente, embora iluminado, parecia carregado. O silêncio tenso era como uma presença invisível na sala.
Antes que Serena pudesse se sentar, Dona Alzira apareceu com uma travessa de comida. Ao ver Serena, seu olhar se encheu de preocupação. Ela se aproximou com passos apressados, como se quisesse certificar-se de que a jovem estava realmente bem.
— Ah, menina... — murmurou ela com a voz trêmula, estendendo a mão como se quisesse tocar Serena.
Alessandro bufou alto e lançou um olhar impaciente:
— Serena está bem. Não precisa de tanto drama.
O tom ríspido dele cortou o ar como uma lâmina. Todos olharam para ele, espantados com sua frieza.
Serena, com um sorriso delicado e gentil nos lábios, tocou suavemente a mão de Dona Alzira.
— Está tudo bem, Dona Alzira. Não se preocupe, eu estou bem. — Sua voz era doce, mas carregava um esforço visível para se manter firme.
Alzira assentiu em silêncio e saiu, relutante. Serena se sentou. Alessandro também. O clima era tenso, o som dos talheres parecia mais alto do que o normal.
Inácio pigarreou, claramente tentando conter sua irritação. Olhou para o filho com firmeza:
— Alessandro...
Antes que pudesse continuar, Alessandro levantou os olhos com expressão irritada e interrompeu, a voz seca e defensiva:
— O que querem de mim agora? Desculpas? Isso não vai acontecer.
Voltou a olhar para o prato, mexendo na comida com o garfo de forma quase agressiva.
Inácio, com o rosto avermelhado pela raiva, respondeu em voz firme:
— Isso mesmo! Desculpas. Não só a mim, não só aos que você desrespeitou hoje, mas principalmente à sua esposa.
Alessandro soltou uma risada cínica, que não chegou aos olhos.
— Pai... você com essa mania incrível de tentar controlar tudo. Dizer o que devo fazer, o que devo sentir...
Eleonora interveio, com a voz suave, tentando apaziguar:
— Filho, não é isso...
Mas Alessandro ergueu a mão, cortando-a:
— Não. Espera. Deixa eu deixar uma coisa bem clara aqui: ninguém — enfatizou a palavra — diz como eu devo viver a p***a da minha vida.
Eleonora piscou, assustada com a agressividade. Inácio apertou os punhos sobre a mesa.
— Filho... o que você fez hoje com a sua esposa... isso não é amor. Isso é desrespeito.
Alessandro jogou os talheres no prato com força. O barulho ecoou.
— Ninguém me diz como amar. Quem amar. Como sentir. Eu já deixei vocês se meterem demais!
— Chega, Alessandro! — gritou Inácio, levantando-se. — Enquanto você agir como um moleque mimado, eu vou me meter sim. E principalmente quando se trata dos meus funcionários. O que você fez com Luiz Fernando foi vergonhoso e inaceitável!
Serena, até então calada, olhou assustada para Inácio. Sua voz saiu fraca, mas ansiosa:
— Luiz Fernando... como ele está?
Seus olhos procuraram o da sogra.
Eleonora respondeu com ternura:
— Não se preocupe, querida. Ele já foi atendido pelo médico. Está bem.
A resposta não aliviou Alessandro. Ele bateu as mãos com força na mesa, o rosto já ruborizado pela raiva.
— Que c*****o, Serena! Está tão preocupada com o seu “amiguinho”? — Fez aspas com os dedos e a encarou com desprezo. — Ainda não entendeu a p***a do meu recado?
Serena o olhou, assustada, mas respondeu com coragem, a voz trêmula:
— Ele é meu amigo, Alessandro. Eu me sinto m*l pelo que aconteceu. Me sinto culpada, sim!
— Pois é! — gritou ele, os olhos faiscando. — Então deixa de ser burra!
— Alessandro, chega! — esbravejou Inácio, batendo na mesa. — Isso não é comportamento de homem! Está envergonhando sua mulher!
Alessandro empurrou a cadeira bruscamente e se levantou. Pegou a chave do carro no bolso.
— Onde você vai?! — perguntou Inácio.
— Dar uma volta. Ou quer controlar isso também?
Sem esperar resposta, Alessandro saiu, batendo a porta.
Inácio e Eleonora olharam para Serena com pesar. Um silêncio desconfortável tomou conta da mesa.
Serena, ainda abalada, tentava entender por que ele reagia com tanto ódio... e ao mesmo tempo, parecia se importar. Lembrou-se do aviso dele, que não queria vê-la se envolvendo com nenhum homem enquanto fossem casados. Talvez fosse só isso... possessividade. Ou havia algo mais?
Mecânica, começou a beliscar a comida. Inácio e Eleonora tentaram puxar assunto com ela, dissipando a tensão da mesa. Falaram de trivialidades, perguntaram se ela precisava de algo.
Enquanto isso, Alessandro dirigia pelas ruas do centro, o rosto endurecido, os pensamentos em turbilhão. A cidade era pequena, quase deserta àquela hora. Estacionou em frente a um bar e entrou. Pediu uma dose de uísque. Depois outra. E mais uma.
Seu celular vibrou. Era Lucas.
— Cara, preciso falar com alguém — disse Alessandro, com a voz arrastada pelo álcool.
Lucas ouviu em silêncio. Decidiu não comentar nada, por ora. Sabia que algo dentro do amigo estava mudando. Talvez ele só precisasse de tempo... e coragem para encarar.
Enquanto isso, Serena foi até a cozinha. Queria tranquilizar Dona Alzira... e a si mesma.
— Ele está bem, sim, minha filha — disse Alzira, segurando suas mãos com carinho. — Luiz Fernando é forte. E não se culpe... aquilo foi uma explosão do patrão. Vai passar.
Conversaram por longos minutos. Serena se sentiu um pouco mais aliviada.
Ao subir para o quarto, o ambiente parecia pesado, como se a discussão de mais cedo ainda estivesse ali. Ela encarou a cama desarrumada, suspirou e pegou o celular. Conversou com Alice e Miguel, tentando distrair a mente.
Depois foi se deitar.
Já era madrugada quando Alessandro entrou no quarto. Ele estava visivelmente alterado. Cambaleou um pouco ao tirar a camisa, ficando apenas de cueca. Lançou um olhar para Serena, que dormia de lado, o rosto tranquilo.
Sem dizer uma palavra, ele deitou ao lado dela. Não demorou muito e adormeceu.
Mas mesmo adormecido, seus traços ainda estavam tensos... como se, mesmo no sono, estivesse lutando contra algo maior do que ele.