ABUTRE - OUTRA FUGA

1071 Words
A manhã na Maré nasceu com o cheiro metálico de sangue e o gosto amargo do fracasso. Dentro da sede, o ar parecia eletrificado, uma tensão que fazia os soldados mais veteranos evitarem até o contato visual com o trono de couro rasgado onde Abutre estava sentado. Ele não tinha dormido. Seus olhos estavam vermelhos, as pálpebras pesadas de ódio e o corpo tremendo em espasmos de pura fúria possessiva. A humilhação no Turano ainda queimava em seu peito como brasa viva, mas o que mais o corroía era o silêncio daquela "ratinha" de dezenove anos. Ele estava convencido de que a surra na praça teria quebrado o espírito de Ayla. Para ele, ninguém suportava aquele nível de dor sem entregar até a própria alma. — Cebola! — o grito de Abutre rasgou o corredor como um tiro. O soldado apareceu imediatamente, com a postura curvada, sabendo que qualquer palavra errada seria a sua última. — Pega dois moleques e desce lá na casa daquela manicure — ordenou Abutre, passando a mão nervosamente pelo fuzil de ouro deitado em seu colo. — Traz ela de volta pra cá. Agora ela vai falar. Se ela não abriu o bico na praça, vai abrir aqui no porão. Eu quero saber cada vírgula do que a Catarina planejou. Quero saber quem deu o rádio, quem deu a rota, quem buscou ela na divisa. VAI! Cebola bateu em retirada, temendo a tempestade que se formava no rosto do patrão. Abutre levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, chutando latas de cerveja vazias e papéis amassados. Na sua mente doentia, Ayla era apenas uma ferramenta, um objeto que ele pretendia moer até que não restasse nada além da verdade que ele queria ouvir. Vinte minutos se passaram. Vinte minutos que pareceram horas para Abutre, que descontava sua ansiedade esmurrando as paredes de concreto da sala. Quando ouviu o som de botas subindo a escadaria com pressa, ele parou no centro da sala, esperando ver a garota sendo arrastada pelos cabelos mais uma vez. Mas Cebola entrou sozinho, seguido por dois vapores que tremiam visivelmente. — Cadê ela? — a voz de Abutre saiu baixa, um sussurro perigoso que era muito pior que seus gritos. — Patrão... a casa tá vazia — gaguejou Cebola, mantendo uma distância segura. — A grade tá encostada, os vidros de esmalte continuam quebrados no chão, mas ela sumiu. A mochila dela não tá lá. Os vizinhos disseram que não viram nada, mas o rastro de sangue vai até o início da mata na leste... O silêncio que se seguiu foi absoluto. Abutre parou de respirar por um segundo, os olhos se arregalando até que o branco em volta das pupilas ficasse visível. A realidade o atingiu: a menina que ele julgara estar à beira da morte, aquela que ele humilhara na frente do morro inteiro, teve a audácia de se arrastar, quebrada e sangrando, para o território de seu maior inimigo. — Ela fugiu... — Abutre murmurou, e então soltou uma gargalhada macabra que se transformou em um rugido de animal ferido. — ELA FUGIU NA MINHA CARA! Em um movimento reflexo de fúria cega, Abutre sacou a pistola da cintura. Ele não pensou, não mirou, apenas descarregou o ódio. O som dos disparos ensurdeceu a sala. Os dois vapores que estavam atrás de Cebola nem tiveram tempo de reagir. Um foi atingido no peito e o outro na garganta, desabando no chão de cimento enquanto o sangue se espalhava rapidamente, misturando-se à sujeira do chão. Cebola jogou-se ao chão, cobrindo a cabeça, enquanto Abutre continuava apertando o gatilho mesmo depois de a arma ter ficado sem munição, o som seco do percussor batendo no vazio ecoando como um metrônomo da loucura. — INCOMPETENTES! VERMES! — Abutre chutou o corpo do soldado caído a seus pés. — Ninguém sai desse morro sem eu deixar! Ninguém! Abutre sentou-se na cadeira, ofegante, o suor escorrendo pelo rosto. Ele olhou para os corpos no chão com total indiferença. Sua mente já estava em outro lugar, maquinando uma forma de transformar a dor de Ayla e Catarina em um espetáculo de terror psicológico. Se ele não podia alcançá-las com as mãos agora, ele as alcançaria com o medo. — Cebola, levanta daí, seu bosta — ordenou ele, limpando a boca com o dorso da mão. — Eu tenho um serviço pra você. Um serviço delicado. Cebola levantou-se devagar, pálido, evitando olhar para os companheiros mortos. — Manda um dos nossos "plantas" que circula no asfalto comprar os dois buquês de flores mais caros que encontrar. Rosas brancas. Mas eu quero que as rosas sejam mergulhadas em sangue de porco antes de serem entregues. Quero que cheirem a morte. Abutre pegou dois cartões de visita em branco e começou a escrever com uma caneta vermelha, sua caligrafia tremida e agressiva rasgando o papel em alguns pontos. — Você vai dar um jeito de entregar isso na entrada do Turano. Um é pra Catarina. Diz no cartão: "O vestido de noiva ainda está guardado. Vou te buscar para o nosso enterro". Ele sorriu, um sorriso torto que mostrava os dentes amarelados. Depois, pegou o segundo cartão. — O outro é pra manicure. Pra Ayla. Diz pra ela: "Espero que o Turano segure sua mão com força, porque eu ainda vou arrancar cada um dos seus dedos. A Maré não esquece traidora". Abutre entregou os cartões a Cebola. — Manda entregar agora. Eu quero que elas saibam que, mesmo no hospital, mesmo sob a asa do Sete, eu estou olhando. Eu quero que elas não consigam fechar o olho sem sentir o meu cheiro. E avisa aos moleques: a partir de hoje, é guerra total. Quem trouxer a cabeça do Tico ou do Sete pra mim, vira gerente geral. Enquanto Cebola saía para cumprir as ordens, Abutre voltou a olhar para a mata do Turano pela janela. Ele não via mais uma favela rival; ele via um túmulo. Sua agressividade não era mais uma tática de guerra; era o colapso de um homem que sentia o poder escorregar pelos dedos e que pretendia queimar tudo ao seu redor antes de cair. Naquela manhã, o Abutre declarou que a paz era uma palavra que não existia mais no dicionário do Rio de Janeiro. O sangue dos seus próprios homens no chão era apenas o começo do rastro de destruição que ele planejava deixar.
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