AYLA - BANHO

918 Words
O crepúsculo tingia o céu do Turano de um laranja profundo quando o ronco da moto de Sete parou novamente em frente ao postinho. Catarina desceu com pressa, carregando duas sacolas de papel de uma loja do morro que Sete a levara para escolher. Dentro, havia pijamas de algodão e leves para não irritar as feridas, além de cremes, escova de dente e produtos de higiene que cheiravam a flores, algo que parecia vir de outro planeta naquele ambiente de hospital. Ela entrou no Quarto 04 quase sem fôlego. Sete ficou na porta, encostado no batente, observando a cena com seu habitual olhar de vigia. Tico não tinha se movido da poltrona; a mão dele ainda estava próxima à de Ayla, uma sentinela que se recusava a abandonar o posto. — Ayla! — Catarina sussurrou, aproximando-se da maca e depositando as sacolas na mesa lateral. — Eu trouxe algumas coisas para você. Pijamas bem macios que não vão apertar suas costelas, e tudo o que você precisa para se sentir limpa. Ayla abriu os olhos, parecendo mais lúcida, embora o rosto ainda estivesse muito marcado. Ela tentou sorrir para Catarina, um gesto que terminou em uma careta de dor, mas seus olhos brilharam ao ver os mimos. — Eu queria ficar, Ayla, juro que queria... — Catarina continuou, acariciando o cabelo da amiga com cuidado. — Mas o médico disse que só pode um acompanhante por vez para não agitar o setor, e o Sete precisa que eu descanse mais um pouco na mansão para conversarmos sobre... sobre o que vem por aí. O Tico vai continuar aqui com você. Ele não arredou o pé. Catarina deu um beijo na testa de Ayla e se despediu com os olhos marejados. Sete fez um sinal para Tico, um aceno de cabeça que dizia "está sob seu controle", e saiu levando Catarina pelo corredor. Poucos minutos depois, uma enfermeira do turno da noite entrou no quarto. Ela trazia uma bacia com água morna, algumas compressas e uma toalha. — Boa noite. Vamos fazer uma higiene rápida? — a enfermeira disse, com uma voz prática. — Vou passar um pano úmido em você para tirar esse resto de sangue e suor, Ayla. Vai ajudar a refrescar para você dormir. Ayla olhou para a bacia e depois para o próprio corpo, sentindo-se suja, impregnada com o cheiro da Maré, do barro da mata e da agressividade do Abutre. Ela não queria um "pano". Ela queria a água escorrendo, queria lavar a alma daquela humilhação. Com um esforço imenso, ela levantou a mão esquerda e apontou para a porta do pequeno banheiro do quarto. — Banho? — a enfermeira arqueou as sobrancelhas. — Ah, querida, você não consegue ficar de pé. Suas costelas estão muito instáveis e o braço está com pinos. Ayla insistiu, os olhos suplicantes fixos na enfermeira e depois em Tico. Ela queria dignidade. Queria sentir a água morna levando embora o toque de quem a feriu. — Olha, o postinho está um caos hoje devido àquelas cirurgias de emergência da tarde. As duas cadeiras de banho que temos estão ocupadas e sendo higienizadas — explicou a enfermeira, suspirando. — Para você tomar banho de chuveiro, só se alguém te levasse no colo, te segurasse lá dentro e te trouxesse de volta. Eu não aguento seu peso sozinha e não posso te deixar cair. A enfermeira olhou para o corredor, pensativa. — Vou ver se algum dos médicos ou maqueiros está livre para ajudar a segurar você lá dentro enquanto eu te lavo... Ayla, no mesmo instante, arregalou os olhos. O pânico de ser tocada por homens desconhecidos, por médicos que ela não conhecia, atravessou seu rosto como um raio. Ela negou com a cabeça freneticamente, um som de "não" abafado saindo de sua garganta. Ela não queria estranhos. O trauma do que o Abutre fizera ainda gritava em seu corpo. Ela olhou para Tico. Seus olhos de mel encontraram os dele, e houve um pedido mudo, uma confiança que tinha sido forjada no silêncio daquela tarde. Ayla apontou para Tico e depois para o banheiro. A enfermeira olhou para o soldado, intimidada pelo tamanho dele e pelas tatuagens. — O rapaz? — a enfermeira hesitou. — Bem... se ele tiver força para te segurar o tempo todo sem te deixar pender para o lado das costelas quebradas... e se você se sentir confortável... Tico, que até então estava em silêncio, levantou-se da poltrona. Ele olhou para Ayla, vendo a vulnerabilidade e o desejo desesperado de se sentir limpa. Ele sentiu aquele aperto no peito, uma mistura de respeito pela vontade dela e uma responsabilidade que pesava mais que seu fuzil. — Eu seguro — Tico disse, a voz grossa, mas sem hesitação. — Eu não vou deixar ela cair. Ayla relaxou os ombros, soltando um suspiro de alívio. Ela confiava naquelas mãos que a seguraram na moto. Tico aproximou-se da maca e olhou para a enfermeira. — Prepara as coisas lá dentro. Eu levo ela. Tico inclinou-se sobre Ayla. Ele passou um braço por baixo dos joelhos dela e o outro, com uma cautela extrema, por trás de suas costas, evitando pressionar as costelas fraturadas. Ao erguê-la, ele sentiu como se estivesse carregando algo feito de vidro fino. Ayla encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos enquanto ele a levava em direção ao banheiro, um passo de cada vez, transformando o braço direito do Sete no suporte mais seguro que ela poderia ter naquele momento de dor.
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