O corredor do postinho de saúde do Turano cheirava a uma mistura metálica de sangue fresco e aquele desinfetante vagabundo que tentava, sem sucesso, mascarar o odor da morte que sempre rondava esses lugares. Eu estava encostado na parede de azulejos frios, com os braços cruzados sobre o peito e o fuzil pendurado no ombro, sentindo o peso do mundo nas minhas costas. Minha bota batia um ritmo impaciente no chão de cimento.
Eu não sou homem de esperar.
No meu mundo, a espera geralmente termina com um corpo sendo enrolado num lençol ou com o som de uma rajada que decide quem fica e quem vai.
Mas ali, o silêncio era diferente. Era um silêncio que incomodava, que pinicava a pele por baixo da camisa suja de graxa e do sangue daquela garota. Eu ainda sentia o calor do corpo dela contra o meu peito quando a carreguei na moto. Ela parecia um passarinho com as asas quebradas, frágil demais para o peso da mão do Abutre.
Depois do que pareceram horas, a porta de vaivém da sala de emergência rangeu. O doutor saiu limpando o suor da testa com o antebraço, retirando as luvas cirúrgicas que estavam manchadas de um vermelho escuro, quase preto. Ele me olhou de cima a baixo, sabendo que eu era a sombra do Sete ali dentro.
— E aí, doutor? — Minha voz saiu mais rascante do que eu pretendia, como se houvesse areia na minha garganta. — A menina segura o rojão?
O médico suspirou, um som exausto que me fez apertar os punhos.
— A situação é complicada, Tico. Muito complicada. — Ele se aproximou, baixando o tom de voz. — Ela foi covardemente espancada. O estrago é grande. Tem três costelas quebradas, sendo que uma delas por pouco não perfurou o pulmão. O braço direito sofreu uma fratura exposta, tivemos que colocar pinos de emergência agora mesmo. Além disso, há hematomas internos severos e cortes profundos por todo o corpo, principalmente no rosto e no couro cabeludo.
Eu senti um nó apertar no meu estômago. Eu já vi muita coisa nessa vida de crime, já vi homem ser picotado na minha frente sem eu piscar um olho, mas ouvir aquilo sobre uma garota que não tinha nada a ver com a nossa guerra... aquilo me deu um asco que subiu pelo esôfago.
— Ela vai sobreviver? — perguntei, direto.
— Ela perdeu muito sangue e o trauma craniano nos preocupa. Fizemos o que foi possível por agora, ela está estabilizada no oxigênio e no soro. — O médico me encarou com uma seriedade que me fez gelar o sangue. — Vou ser sincero contigo, Tico: a sobrevivência dela depende das próximas horas. Se ela passar dessa noite sem uma hemorragia interna grave, ela tem uma chance de recuperação. Mas o estado ainda é crítico. Muito crítico.
Assenti com a cabeça, sem dizer nada. O que eu ia dizer? Que o Abutre era um verme? Isso eu já sabia. O médico me deu permissão para entrar, avisando que ela estava sedada e não acordaria tão cedo.
Abri a porta do quarto com uma delicadeza que eu nem sabia que possuía nas minhas mãos calejadas de carregar ferro. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelo brilho verde e rítmico dos aparelhos que monitoravam os batimentos dela. Bip... bip... bip... O som era a única prova de que a vida ainda teimava em ficar naquele corpo franzino sob os lençóis brancos.
Caminhei até a poltrona de couro rasgado que ficava no canto e me sentei. A cadeira rangeu sob o meu peso, e eu apoiei os cotovelos nos joelhos, entrelaçando os dedos e observando-a.
Ela parecia ainda menor agora, cercada por tubos e bandagens. O rosto, que devia ser bonito antes da tragédia, estava desfigurado por manchas roxas e pretas. O braço engessado descansava sobre o peito, e a respiração era auxiliada por uma máscara de oxigênio que embaçava a cada exalação fraca.
Fiquei ali, no escuro, e comecei a sentir algo estranho. Uma pressão no meio do meu peito, um incômodo que não era físico, mas que apertava como se alguém estivesse espremendo o meu coração. Eu sou o braço direito do Sete. Eu sou o cara que resolve os problemas, que planeja as invasões, que não sente nada quando o chumbo começa a voar. Mas, olhando para aquela garota, eu senti uma rachadura na minha armadura de gelo.
O que esse desgraçado fez contigo, pequena? — pensei, e a raiva começou a se transformar em algo mais denso, algo que eu não conseguia nomear.
Eu me lembrei do momento em que a peguei na mata. A pele dela estava gelada, mas o coração batia como o de um bicho assustado contra a palma da minha mão. Ela tinha lutado para atravessar aquela trilha com ossos quebrados, rastejando pelo barro no escuro, fugindo de um monstro para cair nos braços de outros que ela nem conhecia. Aquela coragem... aquilo me deu um soco na alma.
Eu não sabia o nome dela. Sabia apenas que ela era conhecida da Catarina. O Abutre não bateu nela para conseguir informação; ele bateu nela para mostrar poder. E foi nesse pensamento que a estranheza no meu peito virou uma promessa silenciosa.
Olhei para as minhas mãos. Elas estavam sujas de pólvora, de graxa e do sangue dela. Eu nunca fui um santo, nunca pretendi ser.
Mas ali, naquele quarto de hospital improvisado, eu senti que a nossa guerra no Turano tinha mudado de patamar. Antes era por território, por honra, pelo Sete. Agora, para mim, era por ela.
A madrugada avançava e o silêncio era interrompido apenas pelo vento que batia na janela de vidro. Eu não ia sair dali. Se o Abutre mandasse alguém terminar o serviço, teria que passar por cima do meu cadáver primeiro. Eu sentia uma vontade absurda de segurar a mão dela, de dizer que ela não precisava mais ter medo, mas tive receio de que o meu toque bruto pudesse machucá-la ainda mais.
Fiquei imaginando quem ela era. O que ela gostava de fazer? Será que ela ria alto? Será que ela tinha algum sonho que não envolvesse fugir de um maníaco? Nova, ela devia estar pensando em baile, em roupas, em garotos da idade dela. Não devia estar lutando para respirar numa maca fria enquanto um soldado desconhecido vigiava seu sono induzido.
O nó no meu peito não desatava. Era um sentimento de proteção que eu nunca tive por ninguém, nem por mulher nenhuma que passou pela minha cama. Era algo puro e, ao mesmo tempo, violento. Se ela passasse dessa noite... se ela abrisse aqueles olhos e me visse ali, eu queria que ela soubesse que o mundo dela tinha mudado. Que o Turano agora era o escudo dela.
Eu encostei a cabeça no encosto da poltrona, mas meus olhos nunca se fechavam. Eu vigiava a porta e vigiava o monitor. Cada batida do coração dela era um comando para eu continuar ali.
Resiste, garota, eu pedia em pensamento, sentindo aquela pressão estranha no peito me sufocar. Resiste, porque eu quero ver o teu rosto sem essas marcas. Eu quero ouvir a tua voz. Eu quero ser o cara que vai te mostrar que nem todo homem é um lixo igual ao que te quebrou.
Eu, o Tico, o cara que nunca se apegou a nada além do meu fuzil e da lealdade ao Sete, estava ali, rendido por uma garota que nem sabia que eu existia. O ódio pelo Abutre agora tinha um gosto pessoal, um gosto de vingança que eu ia saborear lentamente. Mas, por enquanto, minha única missão era garantir que o oxigênio continuasse entrando nos pulmões dela.
A noite era longa, mas eu tinha todo o tempo do mundo. Porque se ela passasse dessa escuridão, eu ia garantir que o sol dela nunca mais fosse nublado por medo nenhum.
O rádio na minha cintura chiou baixo. Era o Sete perguntando a situação.
— Tá estável, patrão. — Respondi, a voz firme, mas os olhos fixos na menina. — Tô aqui com ela. Ninguém encosta. E avisa lá... a conta do Abutre acabou de triplicar. Eu vou cobrar cada osso quebrado dessa garota com a vida dele.
Desliguei o rádio e voltei ao meu posto de sentinela. O sentimento no meu peito não passava. Acho que, naquela noite, no meio de tanto sangue e dor, uma parte de mim que eu julgava morta resolveu acordar. E essa parte agora tinha um nome que eu ainda ia descobrir, mas uma dona que eu já tinha decidido proteger até o meu último suspiro.