DIAS ANTES DO CASAMENTO. cap...02

1417 Words
Nicole Watson Dias antes do casamento. Saio da universidade com o coração leve e um sorriso no rosto. Hoje é dia de cinema com o Fernando e a Babi. Marcamos de assistir a um filme de terror recém-lançado — escolha que a minha adorável cunhada detestou, mas... democracia é democracia, e ela perdeu na votação. — Isso não valeu! O Fernando faz tudo que você quer, Nike. — ela resmunga, emburrada, enquanto ele compra a pipoca gigante com refrigerantes para todos. Dou risada e a puxo para um abraço. — Mentira! Ele faz porque me ama... e você também faria se tivesse um namorado tão incrível quanto o meu. Babi bufa e revira os olhos, mas sorri. Ela é irmã do Fernando e minha melhor amiga desde o colégio. Temos essa relação de provocações, mas o amor é genuíno. Entramos na sala com o balde de pipoca quase transbordando. Nos acomodamos e, em poucos minutos, as luzes se apagam. O filme começa com aquela música sombria e a fotografia escura típica de terror. A cada cena tensa, Babi solta um gritinho abafado e cobre os olhos. Está praticamente assistindo ao filme pelos dedos. Já eu... até que tô gostando. Mas nada se compara aos beijos do Fernando, que insiste em me distrair durante as cenas mais calmas — ou talvez ele saiba que eu gosto disso. E, bem... eu gosto mesmo. Estamos juntos há um ano e meio, e em todo esse tempo, nunca duvidei: ele é o homem da minha vida. Chego em casa mais tarde, leve e sorrindo, mas o clima muda assim que passo pela porta. Ouço vozes vindas da sala de estar. Meu pai e Samira estão conversando, em tom baixo, sério demais. Tento captar alguma coisa, mas assim que percebem minha presença, o silêncio cai como uma cortina. — Oi, querida. — diz meu pai, forçando um sorriso. — Oi, pai... Oi, Samira. — cumprimento os dois, estranhando o clima. — Onde estava? — ele pergunta, tentando parecer casual. — No cinema, com o Fernando e a Babi. — O jantar já está quase pronto. — Samira intervém, rápida. — Ok, vou subir, tomar um banho e já desço. Subo as escadas devagar, ainda sentindo o desconforto no ar. Não pergunto nada — não quero ouvir o que talvez ainda não esteja pronta pra saber. Mas não sou boba. Eu sei que as coisas não vão bem. A empresa do meu pai vem enfrentando sérias dificuldades. Ele tentou esconder, mas já escutei conversas pela casa. Uma vez, peguei Samira falando com uma amiga ao telefone, comentando sobre um empréstimo enorme que ele teve que fazer com um empresário poderoso, só pra evitar demissões em massa. Mesmo assim, ele teve que dispensar parte da equipe. Desde então, o semblante dele nunca mais foi o mesmo. (***) No dia seguinte, acordo cedo, faço minha higiene e desço para o café da manhã. — Bom dia, querida. — diz meu pai, abrindo um sorriso cansado. — Bom dia, pai. — respondo, beijando sua bochecha antes de me sentar. A mesa está posta, tudo parece normal — pão quentinho, frutas frescas, café do jeito que gosto — mas há um peso invisível pairando no ar. Algo está diferente. Rosa, a cozinheira, serve meu suco em silêncio. E então Samira solta, quase sem cerimônia: — Nicole, querida... seu pai tem algo importante pra conversar com você. — Samira... — meu pai a repreende suavemente, como quem não queria que o assunto viesse à tona tão cedo. Viro o rosto, confusa. — Pai? O que você precisa me dizer? Ele desvia o olhar, aperta os lábios. Depois força um sorriso frágil. — Nada agora, meu amor. Vai pra universidade, e a gente conversa depois. Prometo. — Tem certeza? — insisto, sentindo o estômago revirar sem motivo aparente. — Tenho, filha. Vai tranquila. Termino meu café em silêncio, tentando convencer a mim mesma de que é apenas impressão. Mas... alguma coisa me diz que a minha vida está prestes a mudar. E não vai ser pra melhor. (***) Entro em casa e percebo o silêncio estranho. Nada do meu pai, nem sinal de Samira. Subo o primeiro degrau da escada, mas Rosa me intercepta no corredor com um semblante preocupado. — Menina Nicole, seu pai pediu que você fosse até o escritório. Ele está te esperando. — Você sabe o que ele quer falar comigo? — pergunto, já sentindo o estômago revirar. — Não sei, querida... mas ele estava com um ar sério. — Obrigada, Rosa. Dou meia-volta, tentando controlar o nervosismo que cresce dentro de mim a cada passo. Paro diante da porta do escritório, respiro fundo e bato levemente. — Pode entrar, diz meu pai, com a voz baixa e firme. Abro a porta e dou de cara com um cenário que me faz travar. Samira está sentada ao lado dele, como de costume. Mas não estamos sozinhos. Há dois estranhos na sala: uma mulher alta, elegante, com um olhar firme e gelado, e um senhor igualmente bem-vestido, que permanece calado, mas observador. A mulher me encara e caminha até mim com passos lentos e seguros. — Prazer. Caterina Martinelli. — Prazer… — respondo, sem esconder a confusão no rosto. Olho diretamente para o meu pai. — Pai, o que está acontecendo? Ele respira fundo. Fecha os olhos por um segundo, como se quisesse desaparecer dali, e enfim responde: — Filha… me perdoa. Eu não tive escolha. — Escolha sobre o quê? Antes que ele diga qualquer coisa, a mulher se adianta. — Você vai se casar com o meu irmão. — Desculpa... o quê?! — pergunto, sem acreditar no que acabei de ouvir. Meus olhos alternam entre ela e meu pai, esperando que alguém diga que é brincadeira. — Casar? Isso é algum tipo de piada? — Não é piada, Nicole. — Samira interrompe. — Você precisa se casar com Rodolfo Martinelli. — Pai? Isso é sério? — Infelizmente, sim. — responde ele, ainda sem coragem de me encarar por completo. — Por quê? O que isso tem a ver comigo? — A senhorita Martinelli está aqui para cobrar uma dívida antiga. Uma dívida que tenho com o irmão dela. — Dívida?! Que dívida? — Os bancos se recusaram a me conceder crédito. A empresa estava à beira da falência. Eu precisei recorrer a empresários influentes... e só Rodolfo me estendeu a mão. — Então por que não paga o que deve? — Porque eu ainda não tenho como quitar a quantia total. — Quanto é essa dívida, exatamente? — Dez milhões de reais. Eu sinto as pernas fraquejarem. — Dez milhões? Pai… — É muito, eu sei. E agora… a única forma de saldar esse débito é esse casamento. — Não. Eu não vou me casar com um estranho. Casamento é algo sagrado pra mim. E além do mais… eu tenho namorado! — O casamento será temporário. — diz Caterina, como quem apresenta uma cláusula de contrato. — Você só precisa ficar casada com Rodolfo até ele falecer. — O quê? Como assim? — Meu irmão sofreu um acidente há meses. Está em estado vegetativo. Os médicos disseram que ele tem pouco tempo de vida. Fico em silêncio. A respiração descompassada. É tanta informação absurda que m*l consigo processar. — Pai... eu não posso fazer isso. É pedir demais. — Eu sei, filha. Eu entendo. A culpa é minha. — Nicole, você não está vendo? — Samira se exalta. — Se você não aceitar esse acordo, vamos perder tudo. A casa, a empresa, tudo pelo que seu pai lutou. — Mas... e minha vida? Meus sonhos? O Fernando? Minha cabeça gira. Se eu aceitar, perco meu namorado. Perco minha liberdade. Se eu recusar… talvez meu pai perca tudo. — Posso pensar? — pergunto, em um fio de voz. — Sim. — responde Caterina, seca. — Mas só até o fim do dia. Depois disso, não haverá mais acordo. — Filha, não se sinta obrigada. Isso não é sua responsabilidade. Eu deveria resolver sozinho. — diz meu pai, com lágrimas contidas nos olhos. — Como não, Marcelo?! — Samira retruca, já impaciente. — Se ela não aceitar, vamos morar na rua! Olho ao redor, o mundo desabando em silêncio. Tudo o que eu achava que conhecia... está desmoronando diante dos meus olhos. Eu só queria ter tempo. Tempo pra pensar. Tempo pra respirar. Tempo pra decidir se estou disposta a anular minha vida por um contrato. Mas parece que o tempo também me foi tirado.
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