Nicole Watson (Nike)
Me despeço do meu pai e da Samira com o coração apertado.
Hoje, deixo a casa onde cresci...
Para ir morar na mansão dos Martinelli.
É oficial.
Estou cumprindo minha parte no acordo.
— Filha... você não vem mais pra casa? — pergunta meu pai, a voz embargada.
— Não, pai. Pelo menos por enquanto, preciso ficar com eles. Faz parte do acordo.
Ele balança a cabeça, inconformado.
— Não quero que você fique sozinha com aquela gente.
— Eu vou ficar bem, pai. Prometo. — tento tranquilizá-lo, mesmo sabendo que a tranquilidade passou longe de mim nos últimos dias.
Caterina observa a cena com impaciência disfarçada. Seu olhar diz tudo: tempo é dinheiro.
— Vamos, Nicole. Está na hora. — ela diz com firmeza.
Respiro fundo, me viro para o meu pai e o abraço com força.
— Cuida de você, tá?
— Só cuida de você, minha filha... — ele sussurra no meu ouvido. — Você é tudo que eu tenho.
Beijo seu rosto, sentindo minhas lágrimas ameaçarem cair, mas me seguro.
Não agora.
Não na frente dela.
Dou um último olhar para a minha casa, para tudo o que conheço, e saio ao lado de Caterina.
Meu coração está partido...
Mas esse acordo precisa acabar logo.
Quanto antes isso tudo começar, antes termina.
Ou pelo menos… é o que eu tento acreditar.
(***)
Assim que cruzo a porta da mansão Martinelli, meus olhos se arregalam.
É imensa. Majestosa. Opulenta.
Minha casa, que sempre considerei grande, não passa de uma casa de bonecas perto disso.
Piso no mármore frio da entrada e uma mulher de postura impecável se aproxima com um sorriso gentil.
— Seja bem-vinda, madame. — diz, com um leve aceno de cabeça.
— Me chame de Nike, por favor.
— Essa é a Margarida, nossa governanta. — avisa Caterina, surgindo ao meu lado com seu ar sempre altivo.
— Prazer, Margarida.
— O prazer é meu, senhora Watson… ou melhor, senhora Martinelli.
— Sim… — respondo, sem saber como reagir a esse título que ainda parece estranho na minha boca.
— Você é linda.
— Obrigada. Margarida… onde fica meu quarto? — pergunto, desejando apenas um lugar onde possa respirar.
Mas antes que ela responda, Caterina agarra meu braço com firmeza.
— Vamos.
— Pra onde?
— Seu quarto, oras. — ela responde com aquela voz dura de sempre.
Subimos uma escadaria interminável, cercada por obras de arte e lustres de cristal. Quando a porta finalmente se abre, o impacto me paralisa.
Ali, no centro de uma cama enorme, cercado por equipamentos e fios, está Rodolfo Martinelli.
Meu… marido.
Ele está imóvel. A pele pálida, barba por fazer, fios espalhados pelo corpo. Mas mesmo assim… ele é bonito.
Forte. Másculo. Assustadoramente... vivo, apesar do estado.
— Por que você me trouxe aqui? — pergunto, sem tirar os olhos dele.
— Você perguntou onde era seu quarto. Aqui está.
— Esse é o quarto do seu irmão.
— Agora é o seu também. Você é a esposa dele.
— Não posso dormir aqui.
— Pode, sim. E vai. Agora você é uma de nós. — ela sorri, satisfeita. — Espero que goste. Com licença.
E antes que eu possa protestar, ela se vai.
Fico ali, parada, tentando entender em que momento minha vida virou isso.
Respiro fundo. Olho ao redor. O quarto é... lindo. Luxuoso. Janelas gigantes com vista para o Rio de Janeiro, cortinas pretas, móveis escuros e sóbrios. Tudo impecavelmente decorado.
Minhas malas estão ali, no canto. Me aproximo e começo a revirá-las. Preciso sair desse vestido.
Tiro a roupa ali mesmo. Não me incomodo — ele não vai ver, não vai reagir, não está ali de verdade.
Pego uma roupa simples e visto com pressa.
Curiosa, me aproximo da cama. Meus passos são lentos. Meu olhar preso no dele.
Os olhos estão abertos.
E são… únicos. Um é azul. O outro, metade azul, metade castanho.
Os cabelos castanhos escuros, o maxilar definido…
Ele é lindo. Impressionante. E ainda assim, está ausente.
Fico ali observando, em silêncio.
Dizem que antes do acidente, Rodolfo Martinelli era um tubarão. Implacável. Inflexível. Um empresário sem coração.
Mas agora, deitado assim… parece só um homem quebrado.
Meu celular toca, quebrando o silêncio.
Atendo no primeiro toque.
Ligação: ON
— Alô?
— Nike… — a voz de Fernando me alcança como um soco no estômago.
— Nando.
— Linda, preciso te ver.
— Não posso.
— Por favor… eu só quero conversar. Me desculpa por tudo o que te falei.
— Não precisa se desculpar.
— Preciso, sim. Fiquei com raiva… por saber que você foi obrigada a se casar com um estranho.
— Tudo isso é pelo meu pai.
— Eu entendo, amor. Mas me encontra depois da faculdade. Por favor.
— Não sei, Fernando…
— Só quero te ver. Nem que seja por cinco minutos.
— Tá bom.
— Até amanhã, meu amor.
— Até amanhã.
Ligação: OFF
Desligo e encosto o celular no peito.
Não deveria vê-lo. Não agora.
Mas sinto tanta falta…
Depois de um banho longo, visto um pijama confortável e me deito na cama. Mas o sono não vem.
O desconforto de estar ao lado de Rodolfo é maior do que imaginei. Me viro de um lado para o outro, inquieta. Me sento. Olho para ele.
Estendo a mão e aceno lentamente diante de seus olhos.
Nada.
Olhar vazio. Sem reação. Como se já não estivesse mais ali.
— O que você está pensando, hein? Será que consegue ouvir o que a gente fala?
Sussurro para ele, mesmo sabendo que não terei resposta.
Olhando assim... ele não parece o monstro que todos descrevem.
Na verdade, parece só um homem que carrega dores demais.
Me deito de novo.
E fico encarando o teto.
Até o sono finalmente chegar.
(***)
Acordo com a luz entrando pelas grandes janelas do quarto. Por um segundo, esqueço onde estou... mas então vejo o corpo imóvel ao meu lado, e tudo volta com força.
Rodolfo Martinelli. Meu marido por contrato.
Levanto sem fazer barulho, sigo para o banheiro e faço minha higiene. Me visto com uma roupa casual e simples, desejando passar despercebida por onde quer que eu vá.
Quando estou saindo para ir à universidade, a voz suave de Margarida me chama da escada.
— Bom dia, senhorita.
— Bom dia, Margarida. Mas por favor… não me chame de ‘senhorita’ ou ‘madame’. Me chame de Nicole. Ou Nike, como preferir.
Ela hesita, surpresa com minha informalidade.
— Mas... você é a dona dessa casa agora, casou-se com o senhor Martinelli.
— Eu não sou dona de nada, Margarida. E sinceramente, nem quero ser.
Ela apenas sorri, compreensiva.
— A mesa está posta. A senhora Caterina já saiu. Estamos só nós e os funcionários. Que tal tomar um café antes de sair?
Concordo com um aceno. Segui-la até a sala de refeições é como entrar em um mundo diferente — tudo impecável, arranjado como num palácio, mas frio. Sem vida.
Sento à mesa e Margarida me serve com carinho. Pego uma xícara de café e belisco um pedaço de bolo.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, até que arrisco:
— Margarida... — começo, incerta.
— Sim, querida?
— Como era essa casa... antes do Rodolfo estar nesse estado?
Ela para por um instante. Seu rosto, antes sereno, endurece ligeiramente como se lembrasse de algo desconfortável.
— Não muito diferente do que é hoje. O senhor Martinelli sempre foi reservado. Vivia para o trabalho, quase não saía do escritório.
— E... ele não tinha ninguém? Nenhuma relação, nenhum amigo próximo?
Margarida hesita. Seus olhos ficam distantes por um instante.
— Não. — responde, simples, antes de se curvar ligeiramente. — Com licença.
Ela se retira, deixando no ar uma curiosidade silenciosa.
Ainda tenho tempo antes da aula. Decido passar para ver meu pai.
(***)
Ao chegar em casa, sou recebida por Rosa, que vem até mim com um semblante preocupado.
— Menina Nicole...
— Rosa, meu pai está? Ou já foi para a empresa?
— Hoje não. O senhor Marcelo acordou indisposto. Está descansando no quarto.
Meu coração aperta.
— O que houve?
— Não sei dizer, querida. Mas acho que é só cansaço.
Subo apressada. Bato na porta e ouço a voz da Samira.
— Pode entrar.
Abro a porta devagar. Meu pai está deitado, pálido, mas sorri ao me ver.
— Nicole? O que você está fazendo aqui?
— Vim te ver. — digo, me aproximando.
— Está tudo bem com você, filha?
— Sim. Mas agora quem me preocupa é o senhor.
— Estou bem. Foi só um m*l-estar de velho.
— O senhor não é velho. — digo, sorrindo, enquanto o abraço.
Ele ri fraco e acaricia meu cabelo.
— E como foi lá na casa dos Martinelli? Dormiu bem? Foi bem tratada?
— Sim. Dormi no mesmo quarto que Rodolfo. Ou melhor... ao lado dele.
— O quê?! — ele se assusta, tentando se sentar. — Você dormiu no quarto daquele...
— Sim, pai. A Caterina fez questão. Disse que como sou esposa, deveria dormir com meu marido.
Ele fecha os olhos com pesar.
— Me perdoa, minha filha. Por tudo isso.
— Não, pai. Não vamos mais falar nisso. Já está feito. E eu tô bem. O mais importante agora é sua saúde. Logo tudo isso acaba e estaremos livres.
— Você é forte, Nike. Mais do que eu jamais fui.
— Te amo, pai.
— Também te amo, minha filha.
Me levanto, beijo sua testa e me preparo para sair.
Ao descer as escadas, dou de cara com Samira.
Ela me encara como se estivesse esperando por mim.
— Você fez bem em se casar. Quando o Rodolfo morrer, será a única herdeira de toda a fortuna dos Martinelli.
Paro. A frase me atinge como um tapa.
— Eu não aceitei esse casamento por dinheiro. Fiz isso pra garantir que meu pai tenha tratamento e dignidade. Quando Rodolfo morrer… não quero um centavo dele. — falo firme, encarando-a.
E sigo meu caminho, com o coração pesado e os olhos ardendo.
Como ela pode pensar que tudo isso foi por ganância?
Não conhece nada do que sinto.
E muito menos, do que perdi.