Bianca Bellini
O silêncio dentro do carro começa a me incomodar.
Não porque eu tenha alguma necessidade de conversar com o i*****l sentado ao meu lado, mas porque Dário Santoro parece ter desenvolvido um interesse irritante em me observar.
— Onde conseguiu os documentos?
Viro o rosto lentamente em sua direção.
— Que documentos?
— Não teste minha paciência, Bianca — fala entre os dentes, demonstrando sua insatisfação com a minha resposta.
— Que pena. Era exatamente o que eu estava pensando em fazer.
Ele não ri. Claro que não. Imagino que o senso de humor tenha sido uma das primeiras coisas que arrancaram desse homem quando decidiram transformá-lo no d***o em pessoa.
— Você ainda é menor de idade — ele continua. — Não entraria naquela boate sem uma identidade falsa.
— Nossa, senhor Santoro. Além de mafioso, investigador? Que homem cheio de talentos! Pelo visto, tem muito a agregar à máfia.
— Quem forneceu os documentos?
Dou de ombros.
— Um admirador secreto.
Seu maxilar se contrai.
Interessante.
— Nome.
— Não sabia que estávamos brincando de interrogatório.
Dário se inclina discretamente na minha direção.
— Escute com atenção, bambina. Não estou perguntando por curiosidade. Quero saber quem teve coragem de falsificar documentos para a minha futura esposa entrar naquela boate.
Solto uma risada sem humor.
— Sua futura esposa? Engraçado. Não me lembro de ter aceitado nenhum pedido de casamento, ou sequer de ter recebido um.
Minha voz sai amarga. Afinal, não tenho o direito de escolher absolutamente nada relacionado à minha própria vida.
— Não precisa aceitar, e muito menos preciso fazer pedidos. O acordo já foi feito.
— Então pergunte ao meu pai. Vocês dois parecem gostar bastante de decidir as coisas sem mim.
Ele sustenta meu olhar por alguns segundos antes de voltar a atenção para a estrada.
— Vou descobrir quem fez os documentos.
— Ótimo. Aproveite e descubra quem matou o bom humor da sua família, porque o seu, sinceramente, acredito que tenha morrido afogado.
O canto de sua boca ameaça se mover.
Mas é só uma ameaça.
Quando os portões da propriedade dos Bellini se abrem, percebo que há mais movimento do que o habitual.
Dois seguranças se aproximam imediatamente, mas basta reconhecerem o motorista para que suas posturas mudem.
É impressionante como esse homem consegue provocar desconforto sem sequer abrir a boca.
Dário estaciona diante da entrada principal.
— Desça.
Olho para ele.
Decido brincar mais um pouco com seu humor ácido.
— Por favor, Bianca. Desça, minha querida. Foi um prazer passar esse momento encantador em sua companhia — digo, imitando uma voz masculina exageradamente educada. — Viu? Não é difícil.
Ele vira o rosto lentamente.
— Bianca.
— Dário.
— Saia do carro.
— Nossa, que delicadeza! Estou quase apaixonada. Confesso que até escorreu uma lágrima no canto do meu olho, de tanta emoção.
Abro a porta antes que ele tenha a oportunidade de responder.
A última coisa de que preciso é dar a esse homem mais motivos para acreditar que pode mandar em mim.
Mal alcançamos a entrada quando meu pai aparece.
E, pela primeira vez naquela noite, encontro algo capaz de melhorar meu humor.
O rosto de Vittorio Bellini perde a cor assim que seus olhos encontram Dário.
— Dom Santoro?
Meu pai olha rapidamente para mim, depois para o homem ao meu lado.
— Não fomos informados de sua visita.
Dário retira as luvas de couro com uma tranquilidade irritante.
Aliás, não sei por que diabos esse homem está usando luvas.
— Percebi.
— Se soubéssemos que viria, teríamos preparado uma recepção adequada.
— Não vim para uma recepção, Vittorio.
Meu pai engole em seco.
— Naturalmente. Aconteceu alguma coisa?
— Sua filha estava em uma boate, bebendo como se não houvesse amanhã.
O silêncio que se instala é maravilhoso.
Maravilhoso até meu pai olhar para mim.
— Bianca! — repreende, em um tom que me faz perceber que esta noite ainda pode piorar muito mais do que imaginei.
— Boa noite para o senhor também, papai.
— Você perdeu completamente o juízo? — pergunta entre os dentes, demonstrando toda a sua insatisfação.
— Não. Mas, considerando como esta noite está terminando, talvez tivesse sido melhor.
Ele dá um passo em minha direção.
— Eu proibi você de sair!
— E eu ouvi perfeitamente.
— Então decidiu me desobedecer?
— Não foi exatamente uma decisão difícil.
Seu rosto fica vermelho.
— Sua insolente!
Meu pai ergue a mão.
Estou tão acostumada com seus acessos de fúria que meu corpo reage antes mesmo que eu consiga pensar.
Mas o golpe não acontece.
Dário segura o pulso dele no ar.
O silêncio parece engolir toda a entrada.
— Abaixe a mão, Vittorio.
Sua voz é baixa.
Terrivelmente baixa.
Meu pai arregala os olhos.
— Dom, eu apenas estava...
— Eu vi o que estava fazendo.
Os dedos de Dário apertam o pulso dele por mais um instante.
— E não gostei.
Meu pai parece incapaz de encontrar uma resposta.
— Bianca precisa aprender a respeitar...
— Sua filha vai aprender a lidar comigo — Dário interrompe. — Não preciso que você a machuque para isso.
Ele solta o braço do meu pai.
— Não volte a levantar a mão para ela. Na minha presença ou longe de mim, não ouse tocar em um único fio de cabelo de Bianca. Jamais.
Observo os dois, sem saber exatamente o que pensar.
Não sou ingênua a ponto de confundir aquilo com carinho.
Homens como Dário Santoro não protegem por bondade.
Protegem aquilo que acreditam lhes pertencer.
E essa ideia me causa mais arrepios do que o tapa que não recebi.
— Dário?
Uma voz feminina e exageradamente doce surge no alto da escadaria.
Ah, não.
Por favor, qualquer coisa, menos isso.
Minha irmã desce os degraus com um sorriso cuidadosamente ensaiado.
Bárbara Bellini tem dezesseis anos, cabelos impecavelmente arrumados e a beleza delicada que sempre fez nossa mãe dizer que ela parecia uma princesa.
Uma princesa com veneno suficiente para exterminar um pequeno país.
— Que surpresa maravilhosa! — exclama, aproximando-se. — Se soubesse que viria, teria me arrumado melhor.
Olho para seu vestido perfeitamente ajustado e para os cabelos que claramente levaram uma eternidade para ficar daquele jeito.
— Imagino o sofrimento que deve ser receber visitas usando apenas três camadas de maquiagem, Bárbara.
Ela me lança um olhar mortal antes de voltar a sorrir para Dário.
— Não ligue para Bianca. Ela sempre foi assim.
— Percebi — ele responde.
Traidor.
Bárbara solta uma risadinha.
— Deve ser muito cansativo lidar com ela.
— Você não faz ideia — respondo antes dele.
Minha irmã ignora o comentário e se aproxima um pouco mais.
— Sempre ouvi dizer que Nápoles é maravilhosa. Imagino que sua casa seja deslumbrante.
— É adequada — Dário responde.
— Tenho certeza de que é muito mais do que isso. Sempre admirei homens que conquistam tanto poder tão jovens.
Prendo uma risada.
Meu Deus.
Ela está realmente fazendo isso.
Na frente do nosso pai.
Na minha frente.
E, principalmente, na frente do homem com quem a irmã que ela detesta vai se casar.
— Bárbara — meu pai adverte discretamente.
Mas ela continua.
— Algumas mulheres não sabem reconhecer a sorte que têm.
Seus olhos encontram os meus por um segundo.
Ah.
Então é isso.
— Concordo — respondo com um sorriso. — Algumas realmente não sabem se contentar com o noivo que receberam.
Seu sorriso desaparece.
Bárbara está prometida a um capo de uma família aliada. Um casamento considerado vantajoso por nosso pai, mas que, evidentemente, não satisfaz suas ambições.
Ela quer mais.
Sempre quis.
E aparentemente decidiu que meu futuro marido seria uma aquisição interessante.
— Eu só estava sendo gentil, Bianca.
— Claro, querida. Você é praticamente uma santa.
Dário observa nossa troca de farpas em silêncio.
Bárbara resolve tentar mais uma vez.
— Espero que, depois do casamento, você não desapareça completamente de nossas vidas, Dário. Seria um prazer visitá-lo em Nápoles.
Ela sorri e toca delicadamente o braço dele.
O movimento é pequeno.
Mas não passa despercebido.
Dário baixa os olhos para a mão dela.
Depois, encara seu rosto.
— Senhorita Bellini.
Minha irmã endireita a postura, satisfeita por finalmente receber sua atenção.
— Sim?
— Aconselho que reserve esse entusiasmo para o homem com quem vai se casar. Creio que deva se dar ao respeito e, principalmente, respeitar seu noivo.
O sorriso dela vacila.
— Eu... não quis dizer...
— Ótimo. Assim evitamos m*l-entendidos.
Ele se afasta discretamente de seu toque.
Preciso morder a parte interna da bochecha para não rir.
Pela primeira vez naquela noite, Dário Santoro conseguiu me proporcionar um momento genuíno de felicidade.
Infelizmente, dura pouco.
Porque, no instante seguinte, ele olha diretamente para mim.
— Agora, Vittorio, precisamos conversar sobre a facilidade com que sua filha conseguiu documentos falsos.
Meu sorriso desaparece.
Desgraçado.
Eu sabia que ele não tinha esquecido.
Ao ouvir suas palavras, Bárbara me lança um olhar sarcástico.
— Se deu muito m*l agora, Bianca.
Dário permanece em silêncio, sem se mover do lugar por alguns instantes.
Seus olhos percorrem o ambiente, passando pelo meu pai, por Bárbara e, finalmente, por mim.
Não gosto da maneira como ele me observa.
É como se estivesse tentando descobrir alguma coisa.
— Onde está sua mãe? — pergunta de repente.
— No quarto — meu pai responde. — Ela não está se sentindo muito bem.
Dário apenas concorda com a cabeça.
Depois, olha novamente para mim.
— Vá buscar suas coisas, Bianca.
Franzo a testa.
— Minhas coisas?
— Roupas. Documentos. O que considerar necessário.
Solto uma risada sem humor.
— Por quê? Vamos fazer uma excursão escolar? Você tem alguns gostos peculiares.
— Você vem comigo para Nápoles.
O silêncio que se instala é tão absoluto que consigo ouvir o relógio na sala.
Pisco uma vez.
Duas.
— Desculpa, acho que bati a cabeça em algum momento da noite. Você disse o quê?
— Que vai comigo para Nápoles.
Olho para meu pai, esperando que ele diga alguma coisa, que conteste essa decisão.
Ele parece tão surpreso quanto eu.
— Dom Santoro... — começa Vittorio. — Não esperávamos que Bianca deixasse nossa casa antes do casamento.
— Os planos mudaram.
— Mas a cerimônia...
— Será realizada conforme o combinado.
Cruzo os braços.
— Que maravilha! Vocês podem continuar decidindo minha vida como se eu fosse um móvel. Não se incomodem comigo.
Dário me encara.
— Tem vinte minutos.
Dou outra gargalhada, sem nenhum humor.
— Você só pode estar brincando.
— Quinze, se continuar discutindo.
Meu sorriso desaparece no mesmo instante.
— Eu não vou a lugar nenhum com você.
Ele se aproxima devagar.
— Vai, Bianca.
— E quem vai me obrigar?
Seus olhos escuros encontram os meus.
— Não me faça responder a essa pergunta.
Sinto o sangue ferver.
— Você é um arrogante!
— Já me disseram.
— Insuportável!
— Também.
— Um verdadeiro filho da...
— Bianca! — meu pai grita.
Dário ergue uma das mãos, interrompendo-o.
— Deixe que termine, Vittorio. Estou começando a gostar da criatividade dela.
Arregalo os olhos.
Esse desgraçado está se divertindo.
— Não pense que vai me arrancar daqui e me trancar em alguma mansão como se eu fosse uma prisioneira!
O sorriso discreto desaparece de seu rosto.
— Se eu quisesse uma prisioneira, bambina, você já estaria algemada.
— Que romântico. Vou colocar isso nos nossos votos de casamento.
Por um instante, ele parece conter uma risada.
Então se volta para meu pai.
— Providencie para que os pertences dela sejam enviados amanhã. Bianca parte comigo esta noite.
— Como desejar, Dom — meu pai responde.
Olho para ele, incrédula.
Nenhuma objeção.
Nenhuma tentativa de me defender.
Apenas obediência.
Bárbara, que até então estava estranhamente quieta, resolve se manifestar.
— Mas, Dário, Bianca nem sequer conhece Nápoles. Talvez fosse melhor que alguém mais... preparado a acompanhasse.
Olho lentamente para minha irmã.
Não.
Ela não teve coragem.
— Bárbara — digo, sorrindo. — Se está tão interessada em conhecer Nápoles, posso pedir que te enviem pelo correio.
Dário nem sequer olha para ela.
— A única Bellini que vai comigo é Bianca.
Minha irmã fica vermelha.
E eu quase sorrio.
Quase.
Porque então percebo uma coisa.
Estou prestes a sair de uma casa onde nunca tive liberdade para entrar em outra onde, aparentemente, também não terei.
A única diferença é que meu novo carcereiro tem olhos escuros, um sobrenome temido e a irritante mania de acreditar que o mundo inteiro deve obedecê-lo.
Talvez meu pai tenha acabado de me entregar ao d***o.