Capítulo 12

2208 Words
Bianca Bellini Acordo com três certezas. A primeira é que meus pés estão me odiando depois da quantidade absurda de lojas que visitei ontem. A segunda é que preciso urgentemente descobrir onde guardaram todas as minhas compras, porque tenho quase certeza de que metade delas desapareceu misteriosamente dentro desta mansão. E a terceira... Bom. A terceira é que Dário Santoro fica perigosamente bonito quando sorri. Uma informação absolutamente desnecessária que meu cérebro, aparentemente desocupado, resolveu armazenar. Que desgraça. Viro de lado e enfio o rosto no travesseiro. Não. Definitivamente, não. Não vou começar a pensar naquele homem dessa maneira. Ele é arrogante. Mandão. Controlador. Possui o temperamento de um urso que foi acordado durante a hibernação. E, para completar, mantém uma amante que parece ter saído diretamente de algum concurso internacional de mulheres insuportáveis. Portanto, não. Não existe absolutamente nenhuma possibilidade de eu desenvolver sentimentos por Dário Santoro. Nenhuma. Levanto da cama antes que meu cérebro resolva discordar. Desço para o café da manhã usando um vestido branco de alças finas e uma sandália rasteira. Um dos vestidos que comprei ontem. Muito bonito, por sinal. Encontro Dário sentado à cabeceira da mesa, lendo alguma coisa no tablet. Está usando uma camisa preta com as mangas dobradas até os antebraços. Os cabelos escuros estão perfeitamente arrumados. E sua expressão é a mesma de sempre. Aparentemente, o homem acorda todos os dias preparado para declarar guerra ao mundo. — Bom dia, raio de sol! Ele ergue os olhos. — Bom dia, Bianca. Puxo uma cadeira. — Nossa, que entusiasmo. Quase me emocionei. Dário deixa o tablet sobre a mesa. — Dormiu bem? Olho para ele, desconfiada. — Você está perguntando porque se preocupa com meu bem-estar ou porque pretende me dar alguma notícia desagradável? Ele ergue uma sobrancelha. — Não posso simplesmente perguntar como dormiu? — Você? Pode. Mas seria extremamente suspeito. Uma funcionária se aproxima e serve meu café. Agradeço com um sorriso. Dário continua me observando. — Está usando uma das roupas de ontem. Olho para meu vestido. — Parabéns, Santoro. Sua capacidade de observação continua evoluindo. Ele ignora a provocação. — Ficou bonito. Ergo os olhos. — O quê? — O vestido. Pisco. Que inferno. Será que esse homem pretende continuar fazendo elogios inesperados? Não fui preparada psicologicamente para isso. — Obrigada — respondo, pegando uma torrada. — Também acho que tenho excelente gosto. O canto de sua boca se ergue. — Modesta. — Uma das minhas maiores qualidades. Ele solta uma risada baixa. E eu, como uma completa i****a, sorrio também. Durante alguns minutos, tomamos café em uma tranquilidade quase assustadora. Chego até a considerar a possibilidade de que finalmente estamos aprendendo a conviver como duas pessoas civilizadas. Um pensamento extremamente otimista. E, como todo pensamento otimista envolvendo Dário Santoro, dura aproximadamente cinco minutos. — Precisamos conversar sobre sexta-feira — ele diz. Continuo passando geleia na torrada. — Sexta-feira? — Sim. — O que tem sexta-feira? — O jantar. Paro. Olho para ele. — Que jantar? Dário ergue os olhos do tablet. — O jantar de oficialização do nosso noivado. Permaneço imóvel. A torrada suspensa a poucos centímetros da minha boca. Um segundo. Dois. Três. — Nosso o quê? Ele me observa. — Noivado, Bianca. Abaixo lentamente a torrada. — Santoro... — Sim? — Você acabou de dizer que teremos um jantar para oficializar nosso noivado? — Exatamente. Sorrio. Um sorriso delicado. Educado. O tipo de sorriso que normalmente antecede uma tragédia. — E quando, exatamente, você pretendia me contar? Dário consulta o relógio. — Estou contando agora. Fecho os olhos. Respiro. Uma vez. Duas. Não adianta. A vontade de jogar a torrada na cabeça dele continua extremamente forte. — Você está me avisando que, daqui a poucos dias, teremos um jantar para oficializar um casamento que eu nunca escolhi? — O casamento já foi acordado há muitos anos. — Ah, claro! Como pude esquecer? O famoso contrato de compra e venda da Bianca Bellini! Dário suspira. — Não comece. — Não comece? — repito, incrédula. — Você acabou de anunciar que vou participar de um jantar de noivado sem sequer perguntar se eu gostaria de participar! — Sua presença é necessária. Solto uma risada. — Necessária? — Bianca... — Interessante. E a minha opinião? Também é necessária ou podemos dispensá-la para economizar espaço na mesa? Ele apoia os cotovelos sobre a mesa. — É uma tradição importante para nossas famílias. — Que maravilha! Adoro tradições! Principalmente aquelas que envolvem mulheres sendo negociadas como cabeças de gado! — Você não está sendo negociada. Inclino a cabeça. — Não? — Não. — Então espero pelo menos que tenham conseguido um bom preço. Sou uma mercadoria de excelente qualidade. Dário fecha os olhos por um instante. — Dio mio. — Aliás, gostaria de saber se meu pai recebeu algum desconto por me entregar antes dos dezoito anos. Ele me encara. — Ninguém recebeu dinheiro por você. — Que absurdo! Fui vendida de graça? Isso é praticamente uma ofensa ao meu valor de mercado! Um dos funcionários próximos à porta tosse discretamente. Dário lança um olhar em sua direção. O pobre homem imediatamente recupera a compostura. Eu, por outro lado, começo a achar aquela situação cada vez menos engraçada. — Quem estará nesse jantar? — pergunto. — Representantes das famílias aliadas. Alguns capos. Conselheiros. Pessoas importantes para a organização. — Quantas pessoas? — Aproximadamente oitenta. Arregalo os olhos. — OITENTA? — Não precisa gritar. — Oitenta pessoas, Dário! — Estou ciente. — Você pretende anunciar nosso noivado ou realizar uma convenção internacional de criminosos? Ele me olha. — Bianca. — O quê? — Controle sua língua. Sorrio sem humor. — E você controle essa mania irritante de decidir minha vida sem me consultar. O silêncio que se instala entre nós é diferente daquele de alguns minutos atrás. Dário me observa por um longo instante. — Não estou tentando desrespeitá-la. Solto uma risada curta. — Engraçado. Porque está conseguindo com bastante eficiência. Ele passa a mão pelo maxilar. — O jantar não é uma festa qualquer. — Percebi. Festas normais costumam envolver pessoas que realmente desejam estar presentes. — É a oficialização do pacto entre nossas famílias. Franzo a testa. — Que pacto? Dário fica imóvel. Por um segundo, alguma coisa muda em sua expressão. — Seu pai nunca explicou? Cruzo os braços. — Meu pai nunca explicou muita coisa, Santoro. Normalmente, ele prefere dar ordens e distribuir tapas. É um método de comunicação bastante limitado. O maxilar de Dário se contrai. Percebo imediatamente. Sempre que menciono meu pai, alguma coisa naquele homem parece endurecer. — O que exatamente você sabe sobre o acordo? — pergunta. Dou de ombros. — Que fui prometida a você antes de nascer. Que, quando completasse dezoito anos, deveria me casar. Que minha opinião nunca importou e que, aparentemente, minha existência inteira foi planejada por um grupo de homens que não tinha nada melhor para fazer. Dário permanece em silêncio. — Falta alguma coisa? — pergunto. Ele se recosta na cadeira. — Algumas. Maravilha. Simplesmente maravilhoso. — Então acho melhor começar a falar. Dário dispensa os funcionários com um gesto. Observo enquanto todos deixam a sala. Isso nunca é um bom sinal. Quando um mafioso dispensa os funcionários antes de conversar, provavelmente vem alguma notícia capaz de estragar o restante da semana. Ou da vida. No meu caso, as duas possibilidades parecem bastante prováveis. — O acordo entre as famílias Bellini e Santoro não envolve apenas nosso casamento — ele começa. Apoio os braços sobre a mesa. — Claro que não. Seria simples demais. Ele ignora o comentário. — Há muitos anos, nossos pais estabeleceram uma aliança para encerrar uma disputa territorial e fortalecer os negócios das duas organizações. — E decidiram comemorar prometendo um bebê? Dário me lança um olhar. Faço um gesto com a mão. — Continue. — O casamento é a garantia de que essa aliança será mantida. Franzo a testa. — Garantia? — Sim. — Então eu sou uma espécie de contrato com pernas? — Bianca. — Estou tentando entender. Ele suspira. — Quando nos casarmos, as duas famílias estarão ligadas oficialmente. Qualquer ataque contra uma delas será considerado um ataque contra a outra. Fico em silêncio por alguns segundos. — E o pacto de sangue? Dário me observa. — Faz parte da cerimônia de oficialização. Sinto um arrepio desagradável. — Cerimônia? — Sim. — Que tipo de cerimônia? — Um juramento diante dos representantes das famílias. Inclino a cabeça. — Juramento de quê? — Lealdade. Proteção. Cumprimento dos termos estabelecidos. — E o sangue? Ele demora um instante para responder. — É simbólico. Estreito os olhos. — Santoro. — O quê? — Quando um mafioso diz que alguma coisa envolvendo sangue é simbólica, normalmente significa que alguém vai acabar precisando de pontos. O canto de sua boca ameaça se mover. Mas ele permanece sério. — Não haverá nada que coloque você em risco. — Isso não responde à minha pergunta. Dário apoia as mãos sobre a mesa. — Os representantes das duas famílias farão um pequeno corte na palma da mão e selarão o juramento. Olho para ele. Depois para minha própria mão. — Você está brincando. — Não. — Quer dizer que, além de me casar com um homem que não escolhi, ainda vou precisar participar de um ritual medieval? — Você não precisará fazer o corte. Solto o ar. — Ah, que alívio! Por um momento, achei que fosse precisar sacrificar uma c***a no jardim. Ele balança a cabeça. Mas não sorrio. Porque existe alguma coisa muito errada naquela história. Muito errada. — E o que acontece se alguém descumprir o pacto? Dário fica sério. Sério de verdade. — Depende da gravidade da violação. — Que resposta conveniente. — Bianca... — Quero saber. Ele sustenta meu olhar. — Uma quebra deliberada pode ser considerada traição entre as famílias. Sinto meu estômago se contrair. — E traição na máfia significa o quê? Dário não responde. Não precisa. Conheço suficientemente bem o mundo em que nasci. A morte é uma resposta bastante popular entre aquelas pessoas. Solto uma risada sem humor. — Fantástico. Ele permanece em silêncio. — Então deixa eu ver se entendi. Meu pai decidiu meu casamento antes de eu nascer, prometeu minha vida a uma família que eu sequer conhecia e, caso alguma coisa dê errado, podemos acabar provocando uma guerra? — Não é tão simples. — É claro que não! Nada nesta maldita vida pode ser simples! Levanto da cadeira. Começo a andar pela sala. Dário acompanha meus movimentos. — Bianca, sente-se. Paro. Viro lentamente a cabeça. — Não. Ele ergue uma sobrancelha. — Não? — Não vou me sentar porque você mandou. Não vou sorrir porque você quer. E não vou fingir que estou feliz com uma situação que nunca escolhi! Dário se levanta. Sua altura sempre me irrita. Principalmente quando ele resolve ficar diante de mim com aquela expressão autoritária. — Ninguém está pedindo que finja estar feliz. Solto uma risada. — Não? Então o que espera que eu faça no jantar? Entre na sala anunciando que estou sendo mantida refém de um acordo entre mafiosos? Ele não responde. Sorrio. — Porque posso fazer isso. E garanto que será uma entrada memorável. — Você vai se comportar. Ah. Pronto. Agora ele conseguiu. Cruzo os braços. — Cuidado, Santoro. — Com o quê? — Com essa sua mania de me dar ordens. Um dia ainda vou perder a paciência e você vai acabar descobrindo que não sou tão agradável quanto pareço. Ele me observa por alguns segundos. Então ergue uma sobrancelha. — Você parece agradável? Abro a boca. Fecho. Desgraçado. — Vá para o inferno. — Já estou acostumado a viver nele. A resposta me pega desprevenida. Por um instante, ficamos em silêncio. Então Dário suspira. — Bianca, escute. — Estou ouvindo. — Não fui eu quem criou esse acordo. — Mas está bastante confortável em cumpri-lo. Ele sustenta meu olhar. — Confortável não é a palavra que eu usaria. Franzo a testa. — Então por que não se recusa? Dário fica imóvel. — Porque existem consequências que vão muito além de nós dois. — Sempre existem, não é? Consequências. Tradições. Honra. Família. Nunca importa o que eu quero. Minha voz sai mais baixa do que pretendia. E isso me irrita. Porque não gosto de demonstrar fraqueza. Principalmente diante dele. — Bianca... — Sabe qual é a parte mais engraçada? Ele espera. Sorrio sem humor. — Passei a vida inteira sabendo que um dia seria obrigada a me casar com você. Enquanto outras meninas sonhavam com vestidos de noiva, eu sonhava em fugir. Enquanto elas imaginavam como seria conhecer o homem de suas vidas, eu já sabia o nome do homem que decidiria a minha. Dário permanece em silêncio. — E agora descubro que não sou apenas uma noiva prometida. Sou a garantia de um acordo que pode matar pessoas caso seja descumprido. Engulo em seco. — Que sorte a minha. Por alguns segundos, ele não diz nada. Então sua voz surge mais baixa. — Você não é apenas uma garantia, Bianca. Solto uma risada triste. — Não? — Não. Olho diretamente para ele. — Então o que sou, Dário? Ele não responde imediatamente. E talvez essa seja a pior resposta que poderia me dar.
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