Dário Santoro
Observo a porta se fechar.
Bianca Bellini.
Prestes a completar dezoito anos, idade em que se casará comigo, justamente no dia do seu aniversário.
Uma língua afiada.
Uma capacidade impressionante de transformar qualquer conversa em uma discussão.
E uma coragem que, em alguns momentos, beira a completa ausência de instinto de sobrevivência.
Passo a mão pelo rosto.
Nunca imaginei que lidar com minha futura esposa seria mais complicado do que administrar os negócios da família.
Meu celular vibra.
Uma mensagem de Matteo, meu consigliere.
Os Bellini confirmaram a chegada para quinta-feira. O patriarca solicitou uma reunião particular antes do jantar.
Leio novamente.
O pai de Bianca.
Aquele desgraçado.
Desde o momento em que o vi levantar a mão contra a própria filha, minha opinião sobre ele mudou consideravelmente.
Na verdade, mudou completamente.
Se dependesse de mim, aquele homem nunca mais chegaria perto dela.
Mas existem questões que precisam ser resolvidas.
Questões antigas.
Compromissos que antecedem até mesmo meu nascimento.
Abro a gaveta.
Retiro uma pasta de couro preto.
O documento original do acordo entre as famílias.
Já li aquelas páginas inúmeras vezes.
Conheço cada cláusula.
Cada obrigação.
Cada consequência.
Ou, pelo menos, acreditava conhecer.
Abro novamente o contrato.
Passo os olhos pelas assinaturas.
Pelo selo das famílias.
Pelas condições estabelecidas.
Até encontrar uma anotação escrita à mão na última página.
Uma anotação que meu pai acrescentou anos depois da assinatura original.
Franzo a testa.
Não me lembro de tê-la visto antes.
Aproximo o documento da luminária.
Leio.
Uma vez.
Duas.
Sinto meu maxilar se contrair.
Caso a união não seja consumada dentro do prazo estabelecido, a família Bellini perderá os direitos sobre os territórios concedidos pela aliança, e o compromisso será considerado violado.
Fico imóvel.
Por alguns segundos, apenas encaro aquelas palavras.
Depois volto à primeira página.
Procuro a data.
O prazo.
E encontro.
Trinta dias após o aniversário de dezoito anos de Bianca.
Porca miseria.
Fecho os olhos.
Meu pai sabia.
O pai dela também.
E nenhum dos dois considerou necessário informar a garota de que sua vida inteira havia sido transformada em uma contagem regressiva.
Pego o celular.
Disco o número de Matteo.
Ele atende no segundo toque.
— Dom?
— Quero uma reunião amanhã cedo.
— Sobre o ataque?
— Não.
Olho novamente para o documento.
— Sobre o pacto Bellini-Santoro.
Uma pausa.
— Algum problema?
Solto uma risada sem humor.
— Digamos que encontrei uma cláusula que alguém esqueceu convenientemente de mencionar.
— Entendido.
— E, Matteo?
— Sim, Dom?
Minha voz sai fria.
— Ninguém comenta absolutamente nada sobre isso com Bianca.
Ele hesita.
— Nem mesmo o senhor?
Penso na fotografia guardada na minha carteira.
Bianca sorrindo.
Bianca fazendo caretas.
Bianca me beijando na bochecha.
Pela primeira vez, aquela imagem parece pertencer a uma realidade muito distante.
— Eu vou conversar com ela — respondo.
— Quando?
Encaro o contrato.
Não tenho uma resposta.
E isso me incomoda mais do que deveria.
— Quando souber exatamente o que estamos enfrentando.
Encerro a ligação.
Permaneço sentado por alguns minutos.
Então volto a abrir o documento.
Meu pai construiu uma aliança utilizando o casamento de duas pessoas que sequer haviam nascido.
O pai de Bianca aceitou entregar a própria filha para garantir poder e território.
E agora descubro que existe um prazo para cumprir uma obrigação que ela nunca escolheu.
Apoio os cotovelos sobre a mesa.
Passo as mãos pelo rosto.
Há anos, não questiono as decisões tomadas pela minha família.
Aprendi cedo que um Santoro cumpre sua palavra.
Que um Dom não demonstra fraqueza.
E que acordos de sangue não podem ser desfeitos sem consequências.
Mas, pela primeira vez, olho para aquele contrato e não vejo uma aliança.
Vejo uma garota de olhos desafiadores, que passou a vida inteira tentando escapar de uma sentença.
Uma garota que ontem me obrigou a sorrir para uma câmera.
Que hoje me agradeceu por uma pulseira.
E que, poucas horas atrás, me perguntou o que era para mim.
Fecho a pasta.
A resposta deveria ser simples.
Minha prometida.
Minha futura esposa.
A garantia de uma aliança.
Mas nenhuma dessas definições parece suficiente.
E existe algo ainda pior.
Se Bianca descobrir essa cláusula antes que eu encontre uma solução, provavelmente nunca mais vai confiar em mim.
Olho para a porta fechada.
Depois para o contrato.
Pela primeira vez desde que assumi o comando da família Santoro, tenho a sensação de estar diante de um problema que não posso resolver com dinheiro, ameaças ou armas.
Porque o problema não é uma guerra.
Não é um território.
Não é um inimigo.
É uma promessa.
E estou começando a perceber que cumpri-la pode me custar muito mais do que imaginei.