Sentei-me no banco do carro, com uma das mãos cobrindo minha testa, não dormia há dias, masturbäva-me constantemente. Estava ansioso, querendo beber o tempo todo, ao menos minha irmã ao meu lado notou que minhas mãos estavam trêmulas novamente, que eu gaguejava mais do que tudo, ela sabia de meu problema, nada escapava daquela garota.
— Está usando drogas? — Perguntou pondo o cinto. Minha perna não parava de balançar, batendo o calcanhar no chão do carro. — Ou é abstinência daquela mulher?
— Você sabe o que é!
Estava impaciente, dei a partida no carro de uma forma ignorante, ara meu azar, não havia um único cigarro fechado dentro do carro. Naquela semana eu estava fumando demais, gastando mais do que devia com isso, o que antes era apenas algo a ser saboreado, agora era o que me mantinha longe de surtar.
— Achei que havia controlado isso.
Cocei a cabeça, limpei a garganta, corroendo-me por dentro.
— Eu não sei que diabos está acontecendo comigo! De repente eu não sinto prazer com ninguém! Tenho a porrä do desejo, sinto t***o, mas nunca... Você sabe... Nunca chego lá! — limpei a garganta novamente. — Esquece isso! Não sei por que eu estou falando sobre isso com você!
Parei na sinaleira, batucando os dedos no volante.
— Muito bem... Então, para onde estamos indo?
Liguei o rádio, para minha surpresa, minha música estava tocando novamente. Aliás, nos últimos dias ela havia se repetido bastante, em rádios diferentes, em programas e horários diferentes. Era interessante ter uma voz mais reconhecida do que o rosto. Por hora, o público se lembraria da voz rouca e melancólica tocando quase todas as tardes no mesmo horário. O fato, e que eu estava tão focado em entender o que me acontecia que essa outra parte de minha vida era feita no automático.
— Ele disse que gostou da música antes de sair. Sabe que ele gostou.
— Não me importo.
— Mentiroso! — sua voz saiu seca, porém carregada de razão. — Agora, diga, para onde diabos vamos.
— Visitar mamãe. — O sorriso de Isabela abriu-se como uma flor em meio a primavera. Era possível ver seus olhos gargalhando com a notícia, se eu não estivesse preso dentro de meus demônios, diria que aquele sorriso salvaria minha alma. Mas eu era um pobre cativo desobediente, sedento pelo momento da rebelião. — Quer dizer, eu vou visitar ela, você me espera na recepção.
— Mas nem a p*u! Principalmente depois de ver como você está! Olha só as olheiras embaixo dos seus olhos.
— Isa, eu só estou nervoso com o lançamento do cd. — Virei o rosto para ela. — Prefiro ver o estado dela antes de você, para não afligir sua cabecinha.
A mão dela veio diretamente para meu braço, apertou meu punho, não ao ponto de machucar, mas num nível em que eu percebo esse a seriedade em si. Isa era uma mulher extremamente sábia em seu comportamento, costumava agir antes de pensar e sabia até onde deveria ir seu local de fala. Com os olhos suplicantes, ela focou-se em mim, fiquei parado tempo demais no sinal, ouvi alguns carros buzinando atrás de mim, em seguida voltei a realidade.
— Está bem! Garota persuasiva. Mas não fale da briga que tive com o velho Bento.
— E nada sobre Amélia Montenegro. — Disse com um sorriso de lado, seus olhos carregavam a expressão vitoriosa de alguém que tinha descoberto aquilo que queria. Foi quando notei que ela não havia tocado nesse nome desde o dia da briga. Eu sabia que Isa estava me observando para comentar sobre isso com uma certeza devastadora.
•••
Mamãe estava tão pálida. Estava com uma das mãos estendida sob a mesa, suas unhas ainda carregavam marcas de terem sido quebradas arranhando algo, os dedos longos, assemelhavam-se mais a ossos. A outra não abraçava Isabela por um período ensurdecedor e longo, era a saudade que a garota senti, chorava com a cara enfiada por entre as roupas de hospital de mamãe, mas não deixava som algum esvair de si.
Demorei a olhar para o seu rosto. Deixei que as duas conversassem um pouco, aproveitei para olhar ao redor em seu quarto hospitalar, que mais lembrava uma prisão. Na verdade, estar ali, me fazia lembrar a prisão em todos os sentidos. Tudo era pintado de branco, e parecia ser limpo constantemente, havia grades das portas e janelas, da mesma forma que amarrados aos ferros da cama, estavam as contenções. A porta do banheiro, na verdade era um pequeno portal que levava até o vaso, escondido em uma parede, que no lado de fora ficava uma pia de mármore branco. Vi que havia sangue seco no ralo, por que diabos aquilo também não estava limpo?
A mesa para receber visitas, era a única coisa com cor, marrom envernizado, tinha duas cadeiras, um cinzeiro de ferro, e um jarro de plástico com uma flor dentro. Era um pequeno ramo de lavanda, a prova de que meu pai havia estado ali. A cara segundo que eu observava mais o quarto, mais aprisionado me sentia, logo seria eu quem me sentaria diante de minha mãe e conversaria minhas angústias com ela. Porém a última coisa que me chamou atenção, fora um pequeno rádio que ficava em sua mesa de cabeceira, o peguei na mão, tinha o tamanho e a largura se um tijolo, meu coração congelou quando notou que era para mim que o olhar de minha velha vinha.
— Amélia mandou para que eu ouvisse sua música na rádio. Não sabia que queria ser músico.
Nem eu sabia, mãe. — Pensei, mas as palavras não queriam sair. Se eu as deixasse fluir, com elas viriam meses de lágrimas trancafiada.
Isa se levantou da mesa, procurou um maço em um de seus bolsos, e saiu do quarto enquanto o acendia, deixou-me ali, carregado de sentimentos, encarando a imagem desfeita de minha mãe.
— A quanto tempo ela fuma? Sabe que não deveria...
— Mãe... — os meus olhos marejados a fizeram se calar. — Da última vez que nos vimos...
— Você parece tanto com ele, Carter!
No diga isso mãe! Diga que sou filho do d***o! Estanque-me com as mais duras palavras, mas não diga que me assemelho ao velho! — Pensei, hesitando em chegar mais perto. A face dela era a coisa mais triste que eu havia visto, antes seu rosto cheio esboçava alegria, vontade e beleza, agora esbanjava cansaço.
— Não me olhe assim, querido. Chegue mais perto. — Minhas pernas estavam travadas, um medo descomunal habitava em mim.
— Ele... Veio aqui?
Ela assentiu.
— Não fale dele por favor.
— Quero saber de você. — Estendeu os braços, havia tão pouca carne ali, podia ver os ossos de sua clavícula estufados, fui me achegando aos poucos, querendo não encarar seu rosto, temendo o já conhecido.
Seu rosto estava sereno, seus olhos pretos e profundos não carregavam vida. Sua face, que tempos atras esbanjava uma pele marrom quente, com bochechas cheias e lábios sempre arqueados num sorriso, hoje só tinha espaço para ossos saltados. Tinha olheiras profundas demais, perguntei-me se ela dormira naquele lugar, mas penso que a abstinência a tenha deixado acordada. Seus cabelos irregulares, cresciam com cachos embaraçados e sem definição, tinha tantas marcas em si, tanta delas visíveis aos meus olhos... nunca quis imaginar o que tinha onde meus olhos não podiam alcançar. Como sofrera, era uma senhora de 50 anos, mas se assemelhava a alguém com 70. Senti culpa por vê-la daquela forma, por ter me cegado durante tanto tempo. De fato, demorei para perceber que mamãe estava tendo problemas com drogas, se eu, o homem da casa, tivesse percebido antes, talvez ela não precisasse chegar a essa situação. Eu sabia, que dentro de si, tudo que mamãe desejava era encontrar paz.
Desde que Bento fora preso, mudamos de casa inúmeras vezes, pensamos até mesmo em mudar de cidade, mas Amelia Montenegro insistiu que ficássemos. Ele passou 7 anos preso, ordenando as asneiras que queria de lá de dentro, enquanto nós três éramos ameaçados e perseguidos aqui fora. Isso mexeu com a cabeça de minha mãe, num nível que a levou a paranoia, só não imaginei que a paranoia a levaria em direção a colombiana, e disso ao descontrole.
— Quem te convenceu a cantar? Amelia? Ela tem o dom do convencimento.
Se minha mãe soubesse a forma com que Amelia me convencia das coisas, jamais diria algo assim.
— Como a senhora tem se sentido?
Ela limpou a garganta, repousou as costas quase que completamente no encosto da cadeira e voltou suas duas perolas negras para me espreitar.
— Quero sair daqui, Carter.
— Ainda... é muito cedo.
— Eu quero sair daqui! Me tratam como doente! Igual a esses loucos que tem por aqui!
— Mãe a senhora...
Ela estapeou a mesa e se levantou carregando um furor consigo.
— Eles enfiaram choque na minha cabeça, Carter! — Disse estapeando a lateral da face corri para segurar sua mão, mesmo tremendo. — Isso aqui é o inferno na terra! eu preciso da ajuda deles! Não preciso de médicos, nem de remédios nem dessa merda de lugar!
Estava desesperada, socava meu peito com uma das mãos, eu tentava me manter calado, sério, sem demonstrar a tristeza que invadia meu coração, cortando-o em pedaços.
— Eles machucaram a senhora?
— Eu já sou machucada pela vida, Carter! Apenas... me leve embora daqui!
Puxei-a num abraço que eu desejei se protetor, igual aos que ela dava quando eu era criança. Segurei as lágrimas com mais força ainda, eu tinha que ser mais forte do que elas, mais resistente, mostrar ali que eu havia me tornado homem.
— Não posso, mãe.
Disse por fim. A soltei, virei-me em direção a porta de siada, tremendo por dentro, porém com a postura rígida de um soldado em direção ao campo de batalha. Um enfermeiro segurou a porta atrás de mim, impedindo que minha mãe saísse do quarto. Ela gritava, prometia para deus e ao d***o que fugiria dali, xingava e amaldiçoava aquele lugar.
Puxei minha irmã para longe da porta, ela tampava os ouvidos, chorava, eu fazia o papel de irmão protetor, guiando-a para fora dali. Ciente de que as palavras de minha mãe não eram apenas disseminações raivosas, eram promessas.