— Deveria vir mais vezes... — Olga disse vestindo-se com um roupão de tule transparente, desenhando seu corpo, curvas acentuadas de uma mulher mãe de 2 filhos, sedenta cada vez mais por um pedaço de carne jovem em sua cama. Carter vestia o macacão surrado que usava para trabalhar, espreguiçou-se assim que se levantou, notando que Olga caminhava até a mesinha de cabeceira, abrindo uma de suas gavetas e tirando algumas notas de dinheiro de dentro. — Compre roupas novas, querido. Não pode vim me ver com esses trapos. — Disse isso levando até a boca mais um cigarro preso a uma piteira longa, lançando um olhar travesso para o jovem.
— É a roupa que uso para trabalhar.
— Estraga sua beleza.
Carter sorriu, indo em direção a mulher e tomando para si o agrado que ela o havia dado.
— Achei que nada estragasse minha beleza.
— Mas essa coisa ai também não realça!
Uma buzina alta dava para ser ouvida do lado de fora da casa. Olga pareceu estar bastante irritada com o som, saiu calçando um par de saltos com plumas na tira, desgostosa com o som.
— Elvira! — Saiu bradando pelos corredores, em direção a escada. Elvira, a governanta, adentrava pela porta do porão. Era uma mulher robusta, mãe de 4 filhos, pele escura, cabelos sempre presos por debaixo do lenço do uniforme. — Elvira, pelo amor de Deus! Atenda esta maldita porta!
— Senhora, eu estava cuidando das roupas...
— Faça esse barulho parar! Está atrapalhando meu dia!
— Como quiser, senhora...
— Onde estão o resto dos empregados? Pelo amor de Deus! Eu tenho que fazer tudo nesta maldita casa! — Desceu as escadas, carregada pela euforia raivosa que sondava seus pensamentos. Carter correu atras dela, porem foi em direção a governanta, para ajudá-la com a cesta.
— Eu levo para cima.
— Pode ficar no jardim com minhas amigas. — Disse Olga. — Vai voltar a trabalhar?
— Va na frente, assim que eu ajudar Elvira com as roupas te alcanço.
Olga revirou os olhos, e saiu em direção aos fundos, ainda resmungando coisas em outra língua, para que não entendessem o que ela dizia. Carter e Elvira se encararam, gostava do fato de que a governanta tinha uma certa semelhança com sua mãe. Ela era paciente, tinha uma paz tão tocante em sua voz, até quando reclamava não aumentava o tom.
— Você é um guerreiro, Carter! — Disse ela por fim, indo em direção a porta, que agora ressoava grandes badaladas da campainha.
Olga era uma mulher de humor incontrolável, herdeira de uma fortuna gigantesca que agora era gerenciada pelo marido. Os dois filhos, gêmeos, estudavam num internato católico para jovens ricos. A maior parte do tempo, passava com suas amigas mais intimas, ou esbanjando sua vida “solitária” em hotéis caríssimos, e em festas requintadas. A casa ao todo tinha 6 empregados, que em boa parte do tempo organizavam as grandes festas que Olga costumava dar. Mas quando eram os dias de Carter podar os arbustos, ela dispensava quase todos eles, para ter mais liberdade dentro de casa.
Nesses dias Elvira cuidava da mansão juntamente com Anna, que naquele dia havia ido levar os cinco cachorros que Olga tinha para passear.
Elvira, moldada pela exaustão do serviço abriu a porta e se espantou ao ver um amigo de Carter, que jamais havia fitado de perto, apenas de longe, em algumas poucas ocasiões quando o carro do jovem jardineiro estava no conserto.
— Dona Elvira? Carter está ocupado? — Eduardo era um jovem de 22 anos, branco, com mais de 1,90 de altura, esguio, com uma postura levemente encurvada, cabelo liso, com um topete e costeletas ao lado das orelhas.
— Achei que chegaria mais tarde... — Disse ela, fazendo um gesto para que o jovem entrasse, notou que ele parecia ansioso, nem quis se sentar na poltrona da pré-sala. Nem ao menos tirou óculos de lentes amarelas do rosto. — Carter, é para você!
O jovem desceu às pressas, os cabelos voavam com o ritmo de seus passos, caminhou até a pré-sala, espantando-se ao ver Eduardo tão cedo ali.
— Edu? — estranhou, mas logo compreendeu o que acontecia. — O que foi que minha irmã fez?
...
Estavam os dois no carro de Eduardo, um Cadillac Series 62, preto, com bancos de couro e rodas com a borda branca. Carter soltava um palavrão a cada curva, revoltando-se a cada momento com o que seu amigo lhe contava.
— Então a direção da escola ligou para minha mãe, era o único número de emergência.
— A outra garota foi parar no hospital?
— Foi. Quebrou o nariz, e disseram que foi um único soco que quebrou o nariz dela.
— Mas que merdâ!
— Sua irmã tem um gênio forte, feito o seu.
— Iza sempre se metendo em problemas!
— Ela quase foi expulsa, a mãe da outra aluna disse que o marido era policial e ia conseguir uma forma de colocar a Iza numa casa de detenção para jovens. Se não fosse minha mãe... — Parou de falar de repente, quando viu que uma das sobrancelhas de Carter estava arqueada, como se não tivesse gostado da frase. — O que foi?
— Sua mãe já faz demais! Eu só não queria que ela se envolvesse tanto nisso.
— Eu não quero entrar nesse assunto com você novamente, Carter.
Eduardo conhecia Carter muito bem, sabia que a feição desgostosa de seu amigo se apegava a algo muito mais solido. Eram problemas na vida de um jovem de 24 anos que não paravam de crescer, como fungos em volta de um cadáver putrefato. Não era apenas o fato de Izabela se meter em brigas no colégio, cárter carregava um lar inteiro em suas costas, completamente sozinho. Se sentia no dever de zelar por sua família, tendo um pai preso, uma irmã de 17 anos problemática e uma mãe que sempre desaparecia.
Era duro, e ele se sentia no dever de sustentar aquilo.
— Ela só quer ajudar. — Eduardo tentou contornar a situação.
— Não pedi a ajuda de ninguém! Não acho que preciso disso! Sou homem, posso muito bem resolver meus problemas sozinho!
Já era demais para o jovem de cabelos ruivos, o fato de Amelia custear os estudos de Izabela. Em sua mente, ele, por ser o homem da casa deveria arcar com isso. Deveria ser o provedor. Mas seus trabalhos não rendiam tanto, em dois anos tiveram suas vidas mudadas da água para o vinho. Ou, como cárter gostava de dizer, da água para o pó. Não compreendia a gentileza vinda de fora, era como um animal selvagem, desconfiado de tudo e todos.
— Ao menos deixaram que sua mãe levasse a Iza para casa?
— Claro! O que iam fazer? Dizer não a Amelia Montenegro? Nem ao menos conseguem exprimir palavras diante dela!
Amelia Montenegro havia se tornado a voz das rádios nos anos 50, a musa das paredes, como era conhecida, nos anos 60 estava em quase todos os programas na televisão, fotos em revistas, entrevistas em jornais. Era o tipo de mulher que chamava atenção, não apenas com sua voz, mas também com o seu corpo. Seus longos cabelos arqueados, e sua voz marcante eram conhecidos no país inteiro.
Era compreensível a falta de palavras diante dela. O próprio Carter as vezes se sentia absorto em muitas das vezes que conversava com ela.
— Mas a presença de Mamãe não livrou a Iza de uma suspensão.
— Acho que quanto a isso, Dona Amelia não tinha muito o que fazer.
— E ela está furiosa esses dias. Desde que meu tio... — Hesitou em continuar a falar, já estavam próximo a mansão, dentro do condomínio residencial mais rico da cidade. Eduardo não era de esconder o que sentia para Carter, geralmente era com ele que desabava. E estava prestes a tal coisa.
— O que aconteceu?
— Meu tio entrou com um processo contra mim e minha mãe. Quer minha herança a qualquer custo!
Carter franziu a testa.
— Ele não pode reivindicar isso!
— O advogado alega que por eu não ter laço sanguíneo com Rubens Montenegro... — A voz falhava. — Que isso não me dá direito a nada que seja dele!
— Seu tio é um filho da putâ!
— Acha que não sei disso! Ele matou meu pai! A vida dele fez meu pai adoecer e ter um ataque fulminante! Nem os quase 10 anos desde sua morte parecem ter sido o suficiente para que papai pudesse descansar! Agora que mamãe tirou a pensão dele, quis nos retaliar dessa forma.
“Os ricos tem problemas tão altos quanto as estrelas” — Pensou Carter, mas não disse nada, julgou que aquele comentário poderia ofender o amigo.
— Ele sai nos bares e boate dizendo que o bastardinho e a putâ de voz aveludada roubaram a fortuna da família dele! Eu não sou um bastardo, Carter! Tive um pai! Um pai que me ensinou tudo que sei. Posso não ter sido “filho de sangue” dele, mas fui o melhor filho que ele pode ter!
Carter se lembra dos poucos momentos que tivera com Rubens, de como, mesmo endo uma criança, entendia que aquele homem era tudo que seu país jamais pode ser. Afinal, o via sorrir, o via acariciar o alto da cabeça de seu filho, em alguns momentos sorrira para Carter também, já seu pai, seu velho pai, odioso como sempre, nunca expressava mais do que grunhidos. Jamais sorria. Era o homem mais difícil de se compreender, nunca entendera o que sua mãe havia visto nele. Talvez fossem os cabelos ruivos.
Herdara do pai os cabelos de fogo e o temperamento inescrutável.
— Sabendo que minha mãe não está nos melhores dias, evite insulta-la, okay?
Carter soltou um sorriso amarelo, tinha um gênio forte, Amelia também e quanto ambos discordavam de algo discutia até que um dos dois se cansasse.
— Eu não... — Eduardo o encarou levantando uma das sobrancelhas, fazendo Carter desistir de lhe provar algo.
Por fim, ligou o carro, continuando o caminho de volta para a casa. O condomínio onde Eduardo morava, tinha apenas 12 casas no total, cada uma delas separadas por 1km de distância, logo, cada propriedade era descomunalmente gigantesca, com casas do final do século passado. Faziam a mansão de Dona Olga se assemelhar a um chalé.
Para Carter, toda vez que avistava a propriedade de Dona Amelia, a mansão esverdeada, com duas torres redondas, um telhado de vidro, jardins com lagos naturais e flores espalhadas por todos os cantos, sentia-se dentro de um conto de fadas. Entendia o surto do tio de Eduardo, aquela “casa” fora o presente de casamento que o homem dera a Amelia, ao todo o falecido tinha 13 propriedades, sendo uma delas uma fazenda extremamente rentável, herdada em 70% por Eduardo, o único lugar que o tio tinha ganho de herança, já que todos os outros bens haviam ficado para Amelia e Eduardo.
A mulher, com inteligência, soube transformar 3 das casas em hotéis, tinha um clube de jogos no centro da capital, que acabou deixando para que seu empresário administrasse, e as outras propriedades vendeu. Depois que a cantora descobriu um grande desfalque de dinheiro na renda da fazenda, congelou a poupança do cunhado.
Naquele dia, Amelia parecia uma chaminé. Caminhava de um lado para o outro com um copo de uísque na mão, bufava de raiva ao telefone, e nunca ficava com um cigarro apagado entre os dedos.
— Esse sinal do telefone está horrível! Já pedi que trocassem a linha! — Usava um vestido de tule preto, com uma segunda pele que deixava quem a visse curioso para saber se ela usava algo por baixo. Izabela estava sentada no sofá, observando a movimentação, com pessoas desconhecidas entrando e saindo da a casa o tempo todo. Deliciava-se com uma torta de morango, roubava alguns dos cigarros de Amelia, sem que a mesma percebesse.
Quando Carter adentrou, viu sua irmã sentada de costas, com os longos cachos sendo confundido com os dreads em seu cabelo, usava um lenço e roupas coloridas, ao lado de Amelia dava para notar o confronto de gerações.
— Graças a Deus você chegou! Seu tio está vindo para cá.
— O que?
— O Mark também está vindo! Então a casa vai ficar lotada! Músicos, compositores, instrumentistas... — Olhou para Carter, levando o Telefone de volta ao gancho. — Carter, querido, é tão bom te ver! — Foi até o jovem, com seus olhos heterocromáticos e sua postura de deusa, fisgando qualquer suspirar.
— Obrigado por ter ajudado minha irmã.
— É apenas meu jeito de mostrar minha gratidão a sua mãe. — Respirou fundo, voltando para seu copo de bebida. — Ainda sem notícias dela?
— Sim.
— Se deixasse uma linha telefônica em sua casa, do jeito que eu lhe disse, não precisaria ir duas vezes por semana na delegacia, era só ligar para ter notícias.
— Apenas não quero abusar de sua benevolência!
— Já disse que tenho uma eterna gratidão por Carmen, o que ela fez por mim quando me mudei pra cá, os dias que eu vivia viajando ela cuidava de Eduardo... me sinto responsável por ela também. — Suspirou, levando outro cigarro até a boca. — Não pode carregar tudo isso nas costas, Carter.
— A senhora tem outros problemas para resolver, os meus eu desfaço.
— Pelo amor de Deus, Carter! O que te fiz para agir assim? — Os dois se encaram com ferocidade, Izabela quase engasgou com o ultimo pedaço da torta, levantou-se vagarosamente sabendo que havia chegado a hora de ir embora.
— Você fica ai! — Repreendeu a irmã. — Estou sendo maduro o suficiente para apontar até onde sua benevolência deve ficar.
— Minha benevolência? — Ela levantou a voz, caminhou até Carter, com os dedos firmes indo pressionar o peitoral dele. — Se julga melhor do que eu para chamar meu agradecimento dessa forma?
— Mãe... — Eduardo tentou intervir, mas sua voz não chegava aos dois que estavam em fúria.
— Carter! Olha onde vocês moram! Um cortiço!
— Eu cresci num lugar pior! Não morri! Pelo contrário estou aqui em plena saúde. Trabalho para sustentar nós dois, não pode tomar para si algo que não é seu!
— Trabalha? Você föde mulheres casadas em troca de um trocado a mais e chama isso de trabalho!
Carter olhou para ela como se tivesse levado um tiro, e realmente, as vezes palavras doíam como se dilacerassem sua carne. Aquilo havia sido a gota d'água para ele, a tempos não discutiam dessa forma, dois geniosos que não se odiavam, mas se insultavam categoricamente. Olhou para Izabela, que compreendeu a reação do irmão naquele exato momento.
— Me desculpe... eu não queria...
— Não quero ouvir o que tem a me dizer, Amelia! — A voz dele era fria, como noites chuvosas, cujo o vendo uiva possando pelas frestas das janelas. — Vamos embora, Iza!
— Carter... me escute... eu não queria... — tentou segurar o braço dele, mas o mesmo enxotou-a, suando frio de tanta raiva que sentia.
— Eu levo vocês. — Sugeriu Eduardo.
— Não! Vamos de ônibus!
— Sendo assim posso te levar até o ponto.
— Não, Eduardo! Nós vamos andando!
Caminhavam já em direção a porta. De uma coisa Amélia tinha razão, Carter era orgulhoso demais para aceitar algo naquele momento. Orgulhoso ao ponto de não ouvir os pedidos de perdão que Amelia berrava, ou o protesto de sua irmã ao seu lado. Sabia que aquele dia estava longe de terminar, e guardava dentro de si tudo que queria dizer a Izabela, mas não podia explodir e no meio da rua. Pelo menos não ali.