Algumas palavras odiosas, ressoavam e voltavam a como lâmina afiadas. Infelizmente muitas delas buscam expressar a verdade, e a mesma costumava ser torturante. A verdade era como uma adaga, cuja a ponta era fina e propositalmente retorcida, para que doesse mais e mais quando atingisse o alvo desejado.
Os irmãos não moravam no melhor lugar do mundo, na verdade talvez estivesse dentre os piores, era um bairro cujo o chão ainda era de terra, e os poucos ladrilhos que tinham na rua, já estavam velhos, quebradiços e soltos. Era o melhor lugar que Carter conseguia pagar por enquanto, e um dos poucos lugares em toda a cidade que ficariam realmente seguros tendo um pai cheio de amigos na cadeia. Izabela não gostava de morar ali, sentia falta da antiga vizinhança, onde crescera, mas haviam perdido a casa assim que o pai fora preso, e depois que a mãe cairá em desgraça, o dinheiro rendia pouco para sustentar uma casa de três quartos. Foram mudando de bairro em bairro, até irem parar ali.
— Ao menos temos um banheiro dentro de casa. — Dizia ele subindo os degraus junto a ela. O corrimão da escada era de ferro, estava velho, alastrado de ferrugem, e a pedra de mármore barata, já soltava em alguns lugares, havia o risco de cair ao tropeçar em uma delas.
— Quando o carro fica pronto?
— Amanha.
Carter estava calado, ainda remoendo o que acontecera em seu pensamento.
— Ela não fez por m*l, Carter. — A garota tentava tirar o irmão do fundo de suas reflexões. — Às vezes ela fala sem pensar.
— Por que está acostumada a ouvirem tudo que ela diz sem reclamar! De você e da mamãe, cuido eu.
— Realmente não acha que são coisas demais? Você só tem 24 anos!
— Que é isso? Um complô contra mim? A união das mulheres para me fazer passar como errado?
— Não estou dizendo que ela está certa. Só que preciosa aceitar a ajuda de quem quer fazer algo por nós!
Estavam diante da porta, antes de girara a chave para destrancar a fechadura, Carter virou seus olhos amarronzados para a irmã, vendo que a semelhança entre ela e sua mãe. Até mesmo na ingenuidade.
— Iza, quem muito ajuda um dia cobra! — Empurrou a porta de madeira, e entrou, arrancando de si a parte de cima do macacão. Queria se jogar debaixo de um chuveiro frio e ficar ali por horas. — Aliás, eu não entendo você. Se não quer me ver atolado na merdâ, por que se mete em confusão? — A voz saia num tom repreensivo tão grave, que os mais melancólicos podiam chorar ao ouvir uma reclamação vinda dele.
— Não fale comigo desse jeito!
— Claro que posso! Sou responsável por você! Acha que não sei que anda roubando o mercado da esquina, ou que procura brigas nessas festinhas de merdâ que você costuma ir?
— É meu jeito de lidar com tudo isso!
— Como acha que eu estou lidando com tudo isso? O pai na cadeia, você tendo problemas o tempo todo, e mamãe perdida no mundo, viciada! — A cada frase, sua voz ia se tornando mais grave, mais firme, mais pavorosa, seus ombros largos pareciam crescer, a postura rígida, os olhos carregados por olheiras. Estava cansado, exaurido de tudo, realmente era demais para suportar, ele deveria aguentar, por mais que lhe doesse. — Eu trabalho todo santo dia para bancar seus caprichos!
— Queria que eu ficasse calada com as pessoas insultando nossa mãe? — A voz da jovem vacilava, a situação parecia estar saindo do controle. Ao encarar os olhos amendoados da irmã, viu que a mesma estava prestes a chorar. Sentiu um frio repentino e violento em seu coração. Sabia que já havia visto aquela feição antes, não em outros, mas em si mesmo.
Estava se comportando feito seu pai. Da mesma forma grosseira e fria que ele o tratava,
Sem dizer uma única palavra, pois elas se engasgavam em sua garganta, estendeu os braços para frente, em busca dos da irmã, que tentava protestar contra seu toque, ela estava com raiva, chorosa, confusa, mas acima de tudo, com medo das reações que Carter poderia ter. Puxou-a para si, com o coração disparando no peito, a tempos não sentia uma culpa tão pesada quanto aquela.
— Me desculpe, está bem? — Disse afagando o alto da cabeça de sua irmã. Sentindo as lagrimas dela caindo diretamente sobre sua pele. — Eu não devia jogar tudo que sinto em cima de você!
Carter sabia que estava se destruindo carregando todos os problemas de sua família em suas costas, só não havia reparado que estava levando sua irmãzinha consigo.
...
A noite havia chegado, Carter preparava o jantar do jeito mais simples e rápido possível. Ouvia seu disco favorito na radiola, enquanto bebia a melhor cerveja que tinha na geladeira. Izabela estava sentada na mesa da cozinha, contando para ele as coisas que acontecera em seu grupo de amigos hippies, fumando os cigarros que havia roubado da casa de Amelia.
Quando, ouviram o barulho de batida na porta.
Ele olhou para irmã com firmeza no olhar, já sabia do que se tratava, era uma quinta feira a noite, dia de pagamentos. Pagamentos esses que não eram nada lícitos. Levou a mão até a parte debaixo da pia, tirando ali um revólver 38, novamente os olhares de ambos os irmãos se cruzaram.
— Fique aqui. — Disse ele, escondendo o revólver na parte de trás do short, sendo coberto pela camisa de botões em seguida.
Izabela sentiu um súbito arrepio correr por todo o corpo dela. Sabia que seu irmão sujava as mãos por um bem maior, e que isso de tempos em tempos voltava até a porta de sua casa para cobrar o que devia. É claro que moravam num lugar, cujo o cobrador do aluguel era também agiota, foi o melhor lugar que conseguiram achar, e o cara sempre trazia para Carter uns serviços sujos em troca do desconto na locação.
O homem em questão tinha um apelido muito peculiar, Tito, era um cara baixo, com uma barriga de cerveja extremamente avantajada, vivia usando ternos de gigolô, juntamente com um chapéu panamá. Abusava dos crucifixos que usava no pescoço, exageradamente grande e cravejado com pedras especiais. Combinava com a soqueira de ouro que ele usava, cujo o nome dele estava esculpido, toda vez que Tito ia acender um charuto, ele fazia questão de deixar a soqueira em evidencia, para lembrar a todos de que ele era um bom pagador.
Carter abriu a porta, com a cara fechada, não exibia gosto por aquele homem, mesmo sabendo que a proteção dele era o motivo de sua sobrevivência. Ao ver o jovem, o agiota abriu um sorriso gigantesco, estendeu os braços, dando um abraço ganancioso em Carter e entrando na casa sem ser convidado.
— Olha só como esse pedacinho está diferente! Vocês dois fizeram um ótimo trabalho! — Se sentou na poltrona da sala, Carter não gostou daquilo, já que aquele acento era seu. Fuzilou Tito com o olhar, pensando se deveria fazê-lo sair dali ou não.
— Achei que não viria mais hoje.
— E deixar de ver esse rostinho? Nunca mesmo, Bentinho. — Odiava aquele apelido, mas todos que conheciam seu pai o chamavam assim, seu pai era conhecido como Bento, em todos os lugares que iam, as pessoas deixavam claro a semelhança física entre ambos.
— Está sentado no meu lugar. — Decidiu que seria a melhor opção.
Tito soltou uma gargalhada, se levantou imediatamente.
— Desculpe! É claro! O homem da casa tem que mostrar quem manda, não é mesmo? — Decidiu em tão que se sentaria no sofá que ficava de frente para a cozinha, acenou para Izabela quando a viu. — Isso é cerveja? Ah! Como estou com sede!
A garota olhou diretamente para o irmão, esperando alguma reação dele. O mesmo acenou levemente com a cabeça, antes de se sentar em sua poltrona, assim olhava diretamente para o cobrador. Izabela veio com uma garrafa de cerveja nas mãos, juntamente com dois copos, sabia que naquela situação Carter ia querer beber.
— Iza está cada vez mais bonita, hein! — A jovem não gostava dele, se sentia nua com os elogios do homem. Na verdade, nem considerava as palavras ditas por ele como elogio. — Já fez 18?
— Ela faz em novembro.
— Faltam apenas 3 meses, já pode se considerar uma adulta, não é mesmo? Aposto que deve ter muitos namoradinhos.
Carter limpou a garganta, Izabela serviu os dois copos e em seguida voltou para a cozinha, escondida entre as cadeiras. O jovem ia levar o copo em direção a boca, mas Tito o impediu.
— Calma lá, irmãozinho! Precisamos brindar primeiro.
— Brindar o que?
— Nossa amizade! Somos amigos não é verdade?
— Claro, com certeza. — Disse carregando na voz um forte tom de ironia. — Do mesmo jeito que você e meu pai eram!
Antes de Bento ser preso, era ele quem fazia os serviços de cobrador, alguns dizem que bento era muito mais ameaçador do que Tito. Inclusive, tentara matar Tito por diversas vezes, achava sempre que Tito estava tentando roubar o cargo dele. No final estava certo.
Carter levou a mão até o pote de cerâmica que ficava na mesa de centro, uma das poucas coisas que eram de sua mãe, e que a mesma não tinha conseguido vender. Tirou algumas notas de dentro, as colocou na mesa e brindou com Tito, percebendo que o copo dele estava acima do seu. Ambos beberam, em seguida, o cobrador contou as notas em cima da mesa.
— Está faltando 50 mil cruzeiros.
— O que? Impossível! São 200 mil cruzeiros, como havíamos combinado.
— São 250 mil cruzeiros, Bentinho. Do jeito que combinamos. — A voz dele agora era calma, com um sorriso no rosto.
— Paguei 200 mil no mês passado.
— E nesse vai pagar 250, no próximo 300. São os juros, sabe?
— Que porrä de juros são esses?
— Sua mãe, meu querido! São três pessoas dentro dessa casa, como ela passou metade do mês aqui... e a outra metade sendo procurada por mim... sabe, você se lembra de ter pedido isso, não é?
— Disse que procuraria ela de coração aberto.
— E de bolsos abertos também! Se não gosta de minhas exigências, pode deixar sua mãe nas mãos da polícia, tenho certeza de que eles vão se empenhar bastante em procurar uma velha viciada!
Carter queria soca-lo, mas em vez disso levantou, tirando a carteira do bolso de trás e levando até a mão de Tito uma nota de 50 mil cruzeiros. O homem sorriu, guardou a nota junto com as outras e bebeu todo o resto da cerveja que estava em seu copo, levantando-se sem seguida, com um sorriso malicioso nos lábios.
— Muito bem, Carter... — Espreguiçou-se, Carter não sorria em nenhum momento, seu semblante era sério e ameaçador. — Nos vemos por aí... ah! Quase ia me esquecendo, Divina pediu que fosse ao bar dela amanhã. Mas imagino que vá visitar seu pai, não é? — Respirou fundo indo em direção a porta. — De qualquer forma, o recado já foi dado. — Esticou a cabeça para olhar Izabela de longe. — Nos vemos por ai, querida Iza! Até mais, Bentinho!
...
Divina era uma mulher encantadora, dona de um bar bem localizado, que sempre tinha competições de bingo, domino, jogos de cartas e o mais famoso de todos sinuca. Nunca se casou, mas criou dois meninos como se fossem seus, e foi uma mãe excelente. Um dia, numa primavera, chovia e os filhos estavam na estrada com o tio, o carro capotou na pista e parou dentro de um rio. Apenas o tio sobrevivera.
Divina, em vez de se jogar na tristeza, levou o trabalho do bar em suas costas, ela dizia que aquilo tirava sua mente dos pensamentos tenebrosos, e que a vida havia a treinado para tantas coisas que nem a mesma entendia. Havia nascido no corpo de um homem, sabendo que sempre fora uma mulher, sonhou em ser mãe, e acabou vendo o tempo levando seus filhos consigo.
Seus filhos agora eram os bêbados que viviam o tempo inteiro dentro do bar. E as lagrimas jamais tomariam conta de si.
Por sorte, para os irmãos, o bar era próximo do mecânico, então dariam apenas uma viagem naquele dia. Ou pelo menos era isso que Izabela pensava. Havia sido acordada pelo irmão cedo demais, reclamou dizendo que não teria aula e que ficaria em casa. E teve como resposta um longo sermão do irmão, expondo milhões de motivos para não a deixar sozinha em casa. E que ela devia ter pensado em sua individualidade antes de se meter em brigas dentro da escola. Quase havia levado uma expulsão, mesmo sabendo que a condenação era um pouco mais ligada ao fato de que os pais da outra garota nunca suportaram o fato de que uma garota de cor estudasse no mesmo colégio que os brancos. Carter também havia estudado ali, mas, ao contrário da irmã, havia puxado a pele branca e os cabelos ruivos do pai. Mas ela não era a única garota n***a do colégio, apenas a única garota n***a com um irmão ruivo, julgava que a suspenção fora a melhor coisa que lhe acontecera, exceto pelo fato de que na segunda-feira ia ter que entrar na escola acompanhada pessoalmente pelo irmão.
Naquele dia estava quente, Carter vestiu um short jeans que deixavam suas pernas evidenciadas, pôs um chapéu na cabeça e um óculo na cara. Decidiram que tomariam café no bar, que atualmente vendia muito mais do que bebidas, e, por ser quinta feira, também servia café da manhã, almoço e janta. Eram também os dias que o bar lotava com os apostadores de jogo do bicho e brigas de g**o.
Quando chegaram no bar era por volta das 10, já tinham pessoas ouvindo o rádio, bebendo e conversando. Divina abriu um sorriso largo ao vê-los, correu de trás do bar em direção a eles.
— Ah! Graças a Deus! Por um momento pensei que Tito não passaria meu recado. — Deu um abraço caloroso em Carter, o cheiro dela era muito característico, óleo de amêndoa, vinha tanto de seus cabelos quanto de sua pele. Quando falava, fazia questão de sempre arquear um sorriso, esbanjava a bondade que morava em seu coração.— Iza não deveria estar na escola?
— Foi suspensa. — Carter disse sem muita cerimonia olhando, olhando por cima do ombro encarando a garota com desdenhe.
— De novo? — Divina olhou para Carter, o jovem já sabia que viria um sermão muito longo. Porem, para a surpresa de todos, a mulher apenas respirou fundo, soltou mais um sorriso, tentando esconder uma estanha preocupação em torno de si.
— Estou morrendo de fome, Divina! Carter me levantou muito cedo! Eu disse que poderia ficar em casa, mas ele disse que...
— Nanda, prepare algo para minha afilhada comer! — Disse antes que Izabela terminasse de reclamar, em seguida puxou Carter para a parte de trás do balcão, fechou o seu tão belo sorriso, demonstrando um olhar um tanto quanto preocupado, feição na qual ela pouco mostrava, mas confiava em Carter o suficiente para aquilo. Divina sempre se mostrava ser uma mulher forte, mesmo quando perdeu seus filhos, tentava consolar os outros, tendo uma dor maior dentro de seu próprio coração. Mas haviam momentos em que a força era amiga dos tolos, que o melhor a se fazer era deixar os sentimentos fluírem a flor da pele. No geral, Divina espairecia a sós, mas naquele dia, não. — Preciso conversar com você, sozinhos.
Uma simples frase, mas que fazia o maior homem tremer na base. Carter não gostava nem um pouco de ouvir aquilo, se sentia pequenino, como se seu mundo inteiro coubesse numa caixinha. De repente sentia um frio na barriga e seu rosto começava a suar, as pernas vacilavam, sentia como se farpas estivessem em sua garganta. Sabia que coisas boas não viriam pela frente, tinha certeza disso. E a julgar pela preocupação nos olhos de divina, a conversa séria sobre sua mãe.
Caminharam pelo corredor de trás do balcão até a porta que dava para os fundos, onde o prédio se dividia em quitinetes. Haviam cerca de cinco quitinetes e um apartamento de dois quartos, que era onde Divina vivia, ainda mantinha o quarto dos filhos, mas como um quarto de visitas, depois da morte deles, se desfez da maior parte dos pertences. Ao todo o prédio tinha dois andares para cima e um porão onde a mulher guardava o estoque de bebidas. Seguiram até o apartamento da mulher, ela estava tão calada, nem lembrava ser a pessoa falante que costumava ser.
— Temos uma nova integrante na família, ela chegou tem um pouco mais de 15 dias, os pais a expulsaram de casa por não a aceitarem do jeito que é. — Respiro fundo ao abrir ao abrir a porta, a sala era muito bem iluminada, porem todas as janelas estavam fechadas, coisa que Divina raramente fazia. Mais uma estranheza para Carter. — Ela ainda trabalha na rua, fez uma dívida com um agiota e não consegue pagar apenas com o salário do Bar.
— Onde quer chegar, Divina? Se quiser alguém para encostar esse cara, é só pedir ao seu irmão.
— Primeiro, Tito só aparece para pegar o pagamento do bar, ele não se põe como parente me, e não me aceita como irmã!
— E o segundo?
— Sente-se.
Divina adorava contar histórias, sempre começava suas explicações de um ponto distante até chegar onde realmente queria. Começou a abrir as janelas, o vento soprou fazendo as cortinas flutuarem, eram cortinas brancas com flores bordadas a mão. Presente que sua mãe havia dado a Divina, dentre tantas outras coisas que Carmen havia dado a ela.
— A duas noites, Lina, a garota nova, estava trabalhando na rua terminado de fazer os lucros da noite, quando encontrou uma mulher numa viela. Ela estava ferida, parecia que tinha apanhado, as roupas estavam rasgadas os cabelos picotados... por instinto, Lina a trouxe para cá. — Enquanto falava, seus olhos se enxiam de lagrimas virou-se de costas para Carter, limpou as lagrimas do rosto e voltou a conversar. — Era Carmen.
Carter sentiu o peito gelado, se antes suas pernas vacilavam, agora estavam tremendo, pensou que era bom estar sentado por que aquela frase o faria cair para trás. Compreendeu que era por isso que as janelas estavam trancadas, e que a preocupação nos olhos de Divina tinham um motivo de fato perturbador. Sua mãe ajudará tantas pessoas quando tinha saúde, e agora estar naquelas situações, fugindo de casa, sendo encontrada na rua completamente transtornada... Aquilo lhe doía, o destruía por dentro. Desejou ser mais homem, talvez se isso fosse possível, sua mãe jamais acabaria naquelas condições.
— Quando foi que isso começou, Carter?
A garganta doía, como se as palavras estivessem se engasgando dentro dela. Não ia chorar, por mais que doesse segurar as lágrimas, achava que tal ato demonstraria fraqueza, e ele não queria ser fraco, nem perto disso.
— Tem... Um ano. — expressar palavras quando se quer segurar as lágrimas é uma tarefa tão difícil. Ele sentia como se sua garganta fosse se partir, engolia a seco, tentando segurar aqueles sentimentos tão aflorados.
— Um ano?! — O desespero na voz de Divina ressaltou-se. — Carmen está nessa situação a um ano e você não disse nada a ninguém? Onde estava com a cabeça quando decidiu isso Carter?
Era uma resposta que ele não sabia descrever, queria carregar seus problemas consigo, sem perturbar ninguém. Mas era difícil. Aguentar aquela situação era doloroso, sua vida estava desmoronando, não importava o quanto segurasse. Se cegou para aquilo pensando que sua mãe sairia daquela situação.
— Carmen ajudou tantas pessoas Carter! Acolheu desconhecidos dentro de casa! Amelia Montenegro sabe dessa situação?
— Sabe que mamãe estava desaparecida, mas eu não entrei em detalhes.
— Carter, ela precisa ser internada em algum lugar! Não pode ficar assim!
— Eu sei.
— Se sabe por que não fez nada?
— Por que a porrä do seu irmão leva todo meu dinheiro!
Divina esbugalhou os olhos, surpresa com a resposta. Sabia que Carter pagava uma certa quantia a Tito para viver em segurança, principalmente por ser filho de um jagunço, haviam muitas pessoas despostas e se vingar de se pai, pelas vidas que ele tirou. E isso era um gigantesco fantasma assombrando as costas de Carter e Izabela.
O jovem ruivo não conseguia contar nos dedos as vezes que teve de se mudar por conta de trabalho de seu pai. Mesmo sendo uma criança tinha entendimento de tudo o que acontecia, sabia que sua família sempre correria perigo, não importa onde estivessem. Então, quando seu pai foi parar na prisão, sua mãe ficou cada vez mais distante de casa, com sua feição cansada e vazia ficando mais evidente. Demorou um tempo até Carter descobrir que sua mãe estava usando drogas para se manter em pé, julgava que ela havia começado com algo para se manter acordada por mais tempo, agora ela usava qualquer coisa que a tirasse da realidade. Não era mais a mesma pessoa, nem mesmo a sombra disso. Ele se culpava por isso, se culpava por sua mãe estar naquela situação, e pensava que não haveriam alternativas para sua melhora. Não poderia ficar com ela em casa, por que foram inúmeras as vezes que Carmem atacara Izabela, com tentativas inúteis de escapar de casa, a possibilidade de ficar cuidando dela também estava fora de cogitação, era o único provedor da casa, se desdobrando para cuidar da irmã e da mãe, com três trabalhos diferentes nas costas.
— É melhor que ela fique aqui. Poderia falar com a Ameia, ela adora sua mãe! Tenho certeza de que...
— Que ela vai pagar mais uma coisa para minha família.
Olhou para ela como a frase estivesse o insultado.
— Deveria se agradecer, são poucos os que querem de fato ajudar pessoas como nós! — Ela jogou a chave do apartamento no colo dele, caminhou até a porta, como se já tivesse dito tudo o que tinha a dizer. De fato, tinha, Carter sabia o que fazer, mesmo não querendo. — Ela está deitada no meu quarto. Abra com a chave pintada de vermelho. Va devagar com ela, garoto! E quando for sair, tranque tudo, ela tentou fugir uma dúzia de vezes desde que chegou aqui.
Saiu pela porta, batendo-a com força. O jovem de cabelos ruivos respirou fundo ao se levantar, as mãos tremiam enquanto segurava a chave, indo em direção a porta do quarto. Tentou pensar que era apenas uma porta, que sua mãe ficaria bem agora, e que sua mãe apenas estava descansando. Desejou que tudo fosse como antes, quis que a quilo não passasse de ser um sonho r**m.
Naquele momento suas mãos estavam suando, tremiam, sentia como que a qualquer momento sua respiração fosse parar, e que cairia para trás. Por que seus ombros pesavam tanto? Por que queria chorar? A porta estava a sua frente, a poucos centímetros de sua mão tremula estava parecendo brilhar com o pouco da luz do sol que passava pelas frestas da cortina. Abriu a porta, com medo do que veria a dentro, e a cena partiu seu corão. Carmen estava deitada na cama, com os punhos amarrados por grossos lençóis e presos na barra de ferro da cama, estava coberta, dormia, provavelmente sedada, os cabelos estavam cortados, nem lembravam os cachos pretos e grossos que ela tinha, estavam cortados na altura das orelhas, os olhos inchados, com um roxeado largo em volta de um deles, indo em direção a bochecha. Estava tão magra, que os ossos de seu rosto e corpo se sobressaiam, os lábios estavam partidos, os dedos das mãos queimados, com as unhas quebradas.
— Como pude te deixar assim? — Passou as mãos pela cabeça dela, os olhos dela se abriram, assustou-se ao ver o rapaz em sua frente, piscou algumas vezes, em seguida balbuciou coisas sem sentido. — Volte a dormir... não precisa de levantar.
— Bento?
— Não mãe... volte a dormir...
— Bento... os meninos, bento...
Carter nunca havia sentido seus olhos tão pesados quanto naquele dia. Talvez não fosse homem o suficiente para segurar as lagrimas num momento como aquele, ou talvez seu dever de homem lhe permitisse chorar ali. Estava tão confuso, não se entendia não sabia o que deveria fazer numa situação como aquela.
Desmoronou enfim. Ciente de que o conselho de Divina, havia chegado em sua mente. Sabia que a pessoa que o ajudaria a sair daquela situação não estava nada contente com ele. Mas o que poderia fazer? Seu gênio forte as vezes o fazia ter atitudes detestáveis.
Quando Carmem fechou os olhos novamente, o rapaz se levantou. Suspirou, levou os cabelos para trás, observou se ela havia se soltado, quando teve certeza de que a mãe estava presa saiu d quart, trancando tudo em seguida, era sua chance. Sua mente martelava, não era o tipo de pessoa que gostava de pedir favores, muito menos para pessoas com dinheiro.
Sabia que a única capaz de o ajudar a sair daquela situação, tinha um par de olhos heterocromáticos que o fuzilavam toda vez que o encontrava. Deveria engolir seu orgulho e suplicar para Amelia Montenegro. Sem se importar com o que ela pediria de volta.