Depois que saiu do bar, foi até o mecânico, buscar o seu tão amado carro. Um Opala preto muito bem cuidado, tinha a sorte de ter herdado o carro do pai, e com ele o mecânico. Levou Izabela consigo que não parava de perguntar o que Divina havia conversado com ele. O irmão decidiu que não era o melhor momento de contar a ela que Carmen estava naquela situação, presa num quarto, amarrada a própria cama.
o mecânico não estava com uma cara amigável quando viu Carter adentrar na oficina, provavelmente chateado por ser a segunda vez no mês em que o garoto trouxera o carro para reparar a mesma coisa.
— Como conseguiu matar o motor duas vezes no mesmo mês? — Perguntou Izabela, depois de o sermão que o mecânico havia dado no irmão.
Como responderia aquilo? por onde começaria a responder tal pergunta? Estava com uma mulher em seu carro, uma mulher casada, nunca correra tanto em sua vida quanto nos dias em que o marido quase pegara a mulher no ato. Mas estava tão bom a adrenalina corria por se corpo, porém o mesmo sabia que não sobreviveria muito tempo se continuasse se envolvendo com uma mulher cujo marido era desconfiado. Então antes que merdäs pudessem acontecer, desistiu de ficar com ela.
— Digamos que foi por causa de uma das mulheres do clube de dança.
— Tränsou dentro do carro? — Perguntou enquanto colocava o cinto, o rosto do irmão ganhou um tom avermelhado, sabia que a irmã era muito direta em suas perguntas, mas a situação era tão constrangedora, que para assumir exigia um certo trabalho.
— Sim, mas nas duas vezes o marido dela quase nos pegou, e estava chovendo... bom o motor velho não aguentou duas dessas.
A garota gargalhou, levou a mão até o porta luvas, tirando de dentro um maço de cigarros que para a sorte eram os seus favoritos. Cigarros Camel. Acendeu um, o levou para os labios do irmão que apenas com o olhar pedia a ela.
— Esse clube de dança vai te matar! —Disse ela soltando a fumaça pelo nariz e abaixando a janela do carro. Já estavam na estrada a essa altura Izabela já sabia que o irmão estava indo até a casa de Amelia.
— É o clube que me dá todos os outros trabalhos que tenho.
— Claro! Velhas ricas, com muito t***o e maridos ausentes em casa.
— Podemos não falar sobre minha vida sexuäl?
Ela assentiu. Soprando uma longa lufada de fumaça, ela sabia como provocar o irmão para que ele revelasse o que escondia.
— Então vamos falar sobre o porquê de estarmos indo até a casa de Amelia Montenegro.
Carter levantou os olhos, respirou fundo, sabia que não deveria dar uma notícia daquelas ali, na estrada.
— Tenho que pedir um favor a ela.
A garota gargalhou, desacreditada com as palavras ditas pelo irmão. Mas quando percebeu a seriedade na feição do jovem, percebeu que estava falando sério.
— Você? Vai pedir um favor a Amelia Montenegro? — A voz era um tanto quanto provocativa. — O que aconteceu? Bateu a cabeça?
— Fala como se isso fosse a coisa mais difícil do mundo.
— E realmente é! Você é tão cabeça dura quanto papai! Não gosta da ajuda de ninguém, acha que pode resolver tudo sozinho.
Izabela raramente falava do pai, tinha raiva dele por tudo o que a família teve que passar. Apenas o fato de mencionar a existência dele, fazia peito dela estremecer de dor.
— Tem a ver com a mamãe mão é? — Perguntou calmamente, com o semblante virado para o chão, sabia dentro de si que algo grave estava acontecendo e sabia que era com sua mãe. Carter assentiu com a cabeça, e se calou, continuou olhando para pista, aproximando-se cada vez mais da mansão.
Ainda se admirava com a exuberância daquela propriedade, a única coisa que o falecido marido havia deixado apenas para Amelia. Todos os outros bens haviam sido repartidos. Por mais que ela fosse mãe do maior herdeiro, Eduardo, nunca quis tocar no dinheiro dele, não sentia que aquilo pertencesse a ela, sempre quis conquistar suas coisas por mérito próprio.
De fato, uma mulher de espírito forte.
Adentraram pelo portão de cobre, o mesmo era esculpido como se flores saíssem e se retorcessem entre si. Havia anjos esculpidos nas hastes de sustentação, era muito caprichado, escolhidos a dedo pela senhora Montenegro. Todos os empregados da casa conheciam Carter, os caseiros, os jardineiros, as cozinheiras, as arrumadeiras... Dois anos atras sua mãe ainda era governanta da casa. Como tudo em sua vida virou de cabeça para baixo em tão pouco tempo? O que diria Amelia quando ele lhe pedisse um favor? Sentia raiva de sua incapacidade de agir naquele momento. Fora um desfavorecido, caído em meio a um emaranhado de confusões.
Até mesmo o ar daquele lugar era diferente. Talvez fosse por causa das grandes arvores que cresciam ali, ou pela brisa da costa marítima, dependendo de onde estivesse conseguia ver o mar, e se soubesse andar pela trilha dento da mata, conseguiria achegar em uma praia deserta. Cada vez que ia até aquele lugar, pensava que gostaria de ter um terço daquilo.
Eduardo se espantou ao ver a visita tão repentina do amigo, abraçaram-se, como de costume.
— Preciso falar com sua mãe. Quero um favor.
Eduardo fez uma cara imersa em confusão.
— Você?
Izabela soltou uma gargalhada, enquanto passava pela porta em direção ao sofá da sala.
— Não comecem!
— Desculpa, é que pra mim isso é novidade... — respirou fundo. —Mamãe não está num dia bom. Se consegui falar com ela, quem sabe ela te escute.
Naquele dia Amelia estava desgostosa da vida. Havia tomado meia garrafa de rum, os cabelos estavam desgrenhados, com grampos presos em cachos soltos, os olhos estavam inchados de tanto chorar, havia devorado dois maços de cigarros, já estava no terceiro. No final da escada para o segundo andar, dava para ouvir os gritos exaltados de Amelia, juntamente com o barulho de vidros sendo lançados contra parede, era o tipo de mulher de gênio forte, e colocava a culpa disso em seu signo ariano, por mais que Carter achasse que isso fosse um forte traço da personalidade dela. Uma digna mulher forte, moldada pelos anos 50, porém sem com que soubessem podá-la. Era difícil se domar uma mulher feito aquela, provavelmente impossível. Mas, Carter não tinha o desejo de dominar se quer um fio de cabelo dela, isso estava fora de cogitação, apenas um favor, um misero favor envolto do esquecimento da briga no dia anterior. Engoliu o orgulho, como se farpas descessem por sua garganta, não gostava daquela sensação.
Do lado de dentro da sala de leitura, que agora funcionava como um refúgio para Amelia em seus tempos mais contemplativos. O que não era o caso naquele dia. Era uma tarde ensolarada de quinta-feira, daquelas cujo sol brilhava radiantemente no céu, e as nuvens quase não eram vistas, fazia calor, mas ao mesmo tempo ventava forte, de um jeito que as arvores balançavam, os seus longos galhos carregados de folhas verdejantes. Carter passou pelo corredor, as gigantescas janelas estavam abertas, sem as cortinas de linho na frente delas, a ventania soprou, como se o vento dançasse com seus cabelos ruivos, ou que o mesmo estivesse levando o orgulho do jovem para longe de si. Sentiu como se a brisa adentrasse em si, e limpasse a raiva que se sentia perante a impotência.
— Você consegue, Carter, é um simples favor... — Respirou fundo novamente, já levando a mão direção a maçaneta. Abriu a porta, assustando-se em seguida, sendo recebido por nada mais nada menos do que uma garrafa de uísque, que quase o atingiu, ele acabou desviando de ser acertado. — Mas que por...
— Eu não quero ver sua cara Mark! — Disse a mulher, com a voz embebida em ódio. Mark, que na verdade se chamava Edson pereira, era um cara que ninguém sabia dizer ao certo de onde vinha seu dinheiro. Era empresário, gerenciava mais artistas do que podia contar. Tinha uma empresa de bebidas quentes, da mesma garrafa que Amelia havia lançado contra a porta, também tinha uma empresa de rifles, que havia ganho num jogo de poker. Aos poucos a fortuna dele foi crescendo, foi fazendo amizade com todo e qualquer tipo de pessoa, políticos, artistas, militares, principalmente os militares. Era o tipo de cara que não se importava em se sujar se fosse ganhar algo em troca.
Agora ele corria para trás de Carter, a fim de se proteger da enxurrada de rum que voou na direção de ambos os dois, acidentalmente atingindo o jovem. Amelia soltou um palavrão, tão gravemente forte, que a voz saiu feito um rugido. Imediatamente Carter a segurou, antes que avançasse novamente para cima de Mark. O empresário saiu correndo escada abaixo e provavelmente para fora da casa, a fim de fugir daquela mulher inexpugnável.
— Me solte! — tentou se soltar das mãos dele, quanto mais ela tentava se livrar das mãos dele, mas ele a segurava. Era inútil, Carter tinha uma força maior do que a aparente. Os olhos dos dois se encontram por um curto período de tempo, o suficiente para Carter se sentir hipnotizado pelos olhos heterocromáticos de Amelia, que mesmos carregados de tristeza atraiam os desavisados.
De perto, Carter notou uma coloração avermelhada tomar conta da face de Amelia, uma sensação estranha surgiu entre ambos, como se seus corpos estivessem sendo atraídos um pelo outro. Perceber a proximidade que um rosto estava do outro, o jovem ruivo a soltou, mesmo assim ela não se distanciou, continuava cada vez mais perto. De encontro aos seus desejos, os reprimindo, Carter estendeu as mãos, na direção dos ombros da cantora e em seguida limpou a garganta, trazendo-a para a realidade.
— Acho que você bebeu demais!
— Se souber o motivo, vai achar que estou bebendo de menos!
Afastou-se dele, desgostosa, caminhou vagarosamente até o divã, não antes de parar ao lado do cinzeiro e trazer outro cigarro aceso até a boca. Seus cabelos estavam desgrenhados, mas isso não diminuía sua beleza. Usava um hoby longo de linho por cima de uma camisola de seda vermelha, que tinha pequenas rosas vermelhas bordadas a mão ao redor dos s***s. Seu corpo era muito bem desenhado através do tecido, dava para ver que não usava mais nada por baixo.
Carter precisou se sentar, estava admirando demais o corpo de Amelia Montenegro. Empolgava-se no sentido literal da coisa, e não demoraria muito para ver o volume em seu short.
— O que trouxe até aqui, Carter?
Ela cruzou as pernas, Carter nunca havia reparado em seu exuberante par de pernas, ou em como quando elas estavam cruzadas a postura de Amélia mais se assemelhava a de uma deusa. E ela sabia para onde os olhos dele estavam mirando, ele tentava desviar, mas era mais forte do que poderia suportar.
— Primeiro... — Respirou fundo e engoliu a seco. — Gostaria de saber o que te deixou assim.
— Assim como?
Ele olhou ao redor do quarto como se fosse obvia a resposta, elevou as sobrancelhas enquanto fechava rapidamente os olhos e disse;
— Incontrolável.
Amelia sorriu, uma arcada branca, contornada por lábios grossos e muito bem desenhados. Carter pensou que uma mulher igual a aquela, havia sido uma das obras primas mais caprichosas de Deus, e ao mesmo tempo uma tentação carnal. Por que nunca havia olhado para ela daquela forma até aquele dia? Havia demorado tentos anos para perceber que bem abaixo de seu nariz estava uma obra prima da natureza.
— Esqueço que você quase nunca lê as matérias sobre mim. — Levantou-se mais uma vez, indo em direção a mesa de revistas do outro lado da sala, seu caminhar era aliciente, fazia com que Carter se sentisse cada vez mais faminto pelas curvas dela. Era como se fosse magia, mas não havia nada de magico naquilo, era apenas dois corpos gritando, incessantemente, um pelo outro. Ela voltou até ele, com uma revista em mãos. Facetas, a revisa mais famosa do país, responsável por muitos artistas no auge e também por derrubar eles. A capa tinha uma foto de Amelia, na sacada de sua casa, chorosa e solitária. Com grandes letras vermelhas escritas: A queda de Amelia Montenegro. — Simplesmente acabaram comigo! — Abriu a revista, e começou a ler um parágrafo. — Aquela que um dia foi a voz das rádios e o corpo nas paredes de muitos homens está tão defasada quanto o próprio tempo! — A voz dela ia ficando melancólica. — Um rosto e um corpo jovem é tudo o que a sociedade que levará o homem à lua precisa, e Amelia Montenegro não se encaixa nisso!
— Isso é absurdo!
— Depois eles falam de uma cantora de Rock estupida chamada Kissi, 17 anos, s***s pequenos... o rosto que eles querem exaltar! — Voltou ao armário de bebidas, uma cristaleira esculpida a mão, tão cara quanto todas as garrafas que tinham lá dentro. Ela tirou dois copos e os encheu com uísque, trazendo-o em seguida para Carter. — Mark está empresariando-a. — Disse com um a voz enojada, sentando-se ao lado dele em seguida.
— Isso foi c***l!
— c***l? Isso foi canalhice! Usaram minha imagem durante anos! Fizeram dinheiro em cima do meu sucesso! E agora estou velha para eles!
— Você não está velha, Amelia.
— Exatamente! Tenho apenas 47 anos! Não sou velha! Nem fios de cabelos brancos eu tenho.
— Mas você está se importando com o que dizem.
— Não estou!
Ele olhou para ela, com os olhos carregados de deboche. Bebericou um pouco do líquido amarronzado, era forte, descia queimando a garganta. Por sorte havia aprendido a beber com seu pai, o suficiente para não fazer cara feia ao bebericar uma bebida forte.
— Se realmente não se importasse, não estaria com os olhos inchados de tanto chorar.
Ela respirou fundo, sabendo que o jovem tinha razão no que dizia.
— Agora é você quem diz o que veio fazer aqui. — Mudou de assunto abruptamente. A simples pergunta lançou Carter numa catarse que nem ele mesmo poderia explicar, sabia que chorar não o ajudaria em nada. Mas não fora capaz de segurá-los, os olhos marejados eram prova disso.
— Preciso de sua ajuda, Amélia... — Conteve as lagrimas. — Minha mãe precisa de sua ajuda.
Ela engoliu em seco, conhecia o jovem tempo o suficiente para saber que o mesmo não era do tipo que pedia favores facilmente.