Acho que eu era muito novo quando descobri que gostava de sexo. Não foi na puberdade, quando boa parte dos rapazes descobrem seus próprios corpos. Foi muito antes disso.
Na verdade, desde que eu tenho memorias. Eu sempre gostava de me tocar, de sentir meu corpo, da sensação boa que isso me causava, e aos poucos isso foi se tornando cada vez mais difícil de parar. Mas foram nas brincadeiras de criança que o gosto pela coisa se concretizou.
Eu estava na catequese, havia uma menina de cabelos muito pretos que adorava sentar-se perto de mim, lembro muito bem dos cabelos dela, era cachos muito grossos e muito escuros, quase azuis. Não lembro de seu rosto, nem de seu nome, mas sei que numa tarde de sábado, depois da catequese, fomos brincar com um grupo de garotos num terreno baldinho. Não lembro de quem foi a ideia, mas sei que nos beijamos, e que aquela euforia surgiu em mim. Não sei dizer ao certo quanto tempo passamos lá, mas nos distanciamos do grupo, o suficiente para começarmos aquilo que pensávamos ser uma brincadeira.
Eu nunca havia apanhado de outro homem que não fosse meu pai.
Até aquele dia, quando o pai dela me encontrou em cima da filha, numa inocente “brincadeira” de criança. No dia seguinte ela foi embora da cidade, e eu estava atordoado em busca daquela sensação novamente.
Por um tempo considerável eu busquei por isso sozinho, mas foi quando a puberdade chegou que minha vida se torou um inferno.
Então, quando Vivian me fez aquela pergunta, procurei muito bem pelas palavras certas que sairiam por minha boca. Eu não queria que ela soubesse que eu era ninfomaníaco, isso era algo que eu evitava ao máximo ser do conhecimento de outras pessoas, até porque em alguns momentos isso me causava um certo sofrimento. Eu também não queria assustá-la, nem que ela pensasse que eu estava me gabando por ter uma libido interminável.
— Eu era adolescente. —Comecei. —E transei com um cara no banheiro do colégio.
Eduardo gargalhou, ele se lembrava muito bem desse dia, de como eu havia voltado pra sala com o pescoço repleto de aranhões, aquilo já tinha quase 10 anos.
— Assim do nada?
— Não foi do nada. — Cocei a lateral do rosto, o garçom veio trazer nossas bebidas, e nos deu uma garrafa de cerveja de brinde. Traguei o cigarro e matei a bebida num único gole. —Era um cara que mexia com o Eduardo. Então marquei de brigar com ele num banheiro abandonado que tinha em nosso colégio, só que terminou de uma forma que eu não imaginava.
— Pelo menos ele parou de mexer comigo.
— E eu o comi resto do ano letivo inteiro. — Disse me servindo da cerveja, Vivian quase se engasgou com sua bebida de tanto rir.
—Isso não pode ser verdade.
— Ah, mas é verdade sim! — Eduardo bebericava de seu copo quase que totalmente debruçado sob a mesa. — Carter é a pessoa mais sexuäl que conheço.
Franzi minhas sobrancelhas ao ouvir aquela frase, acendi outro cigarro, notando que precisaria de outro maço urgentemente.
— Não é pra tanto. Eu também não fico com qualquer pessoa... — Parei de falar abruptamente, quando notei um par de mãos em meu ombro, já sabia quem era apenas pelo toque, fechei a cara quando Tito puxou uma cadeira para se sentar ao meu lado.
— Você por aqui, Bentinho... — Disse com um tom ameaçadoramente amigável. — Tragam um balde de cerveja para essa mesa! Esse aqui é da família! — Virou a portura na direção de Vivian, esticou o braço para tomar a mão dela e beijar-lhe o dorso. — Sou Tito, fiador desse lugar. Qual sua graça, moça bonita?
— Vivian Flores, empresária do Carter...
— Empresária? Bentinho virou artista? Tem andado demais com aquela Montenegro.
— Minha mãe. —Disse Eduardo. —Tenha respeito.
—Ah! Edu! Eu quase não te reconheci! Como cresceu... espero que tenha ficado mais valente. —Virou os olhos para Carter. — Visitei sua mãe por esses dias... queria que você soubesse que me preocupo contigo. E agora que vai virar artista, vou estar sempre lá pra te lembrar do passado. Assim que o mês virar te faço uma visita. — Se levantou, dando leves tapinhas em meu ombro, eduardo notou que minha postura estava rígida, sabia quem era Tito, que tipo de homem podre ele era. Não relaxei até que ele deixasse a mesa, relaxaria muito menos em não ter ele debaixo dos meus olhos.
— O que foi isso?
— Não queira saber, Tia Viv.
— Não estamos seguros aqui.
— Que diabos você fez dessa vez, Carter? — Perguntou Eduardo, tomandp o resto de seu drink e olhando para mim com uma expressividade um tanto quanto tocante. Eu sabia que depois de presenciar aquilo ele ficaria preocupado. Fiquei pensando no que diria se soubesse que eu estava armado sentado ali com eles, contive-me, apenas a sutil ameaça de Tito fora o suficiente para chocá-los.
...
Amelia
Droga!
Tudo o que pensei naquele momento, ao velo adentrar pela porta de minha asa, bêbado, sendo carregado por meu filho e por minha irmã. Ainda teve a coragem de vir até mim com aqueles olhos de demônio! Mas não podia deixar minha raiva escapar pelos dedos, tinha que me controlar, eu tinha um trabalho árduo a fazer, tinha que manter serena, assumir um papel diante de todos eles.
Tudo bem que ele não estava completamente bêbado, apenas alegre o suficiente para flertar com minha irmã, e ela dava cada vez mais corda a ele.
Quem não faria isso? Carter era um pedaço de m*l caminho andando para cima e para baixo. Ainda não admito o fato de eu não ter o percebido melhor em todos esses anos. O quanto de prazer perdi em tanto tempo? Como pode ter crescido assim? A pouco tempo era só um garoto que se metia em problemas na escola, e agora me excitava apenas com o olhar.
Isso me dava tanta raiva! Mas não ficaria assim, eu lhe daria o troco com notas altas!
...
A adrenalina subia por minhas costas, mas meus pés andavam com a delicadeza de uma bailarina. Será que ela havia entendido meu recado? Nosso grupo havia chegado tarde, mas ela insistiu em cearmos juntos na mesa de jantar, conclui que queria me dizer algo.
Como odiei vê-la passas seus dedos pela nuca de Dantas. O desgraçado estava exibindo-a como um troféu, m*l sabia que era eu quem havia a conquistado, conquistado seus gemidos celestiais embaixo de mim. Eu sabia que algo estava acontecendo entre eles, sabia ler as pessoas, mas não via o amor os rondando, apenas interesse.
Diferentemente de nós dois, a lasciva nos sondava.
Descontaria suas provocações naquela noite.
A mensagem que passei havia sido um tanto quanto sutil, estavam todos eles a mês, então eu tinha que contar com a sorte e com a interpretação de Amelia. Porém, durante um tempo comecei a pensar que ela estava dormindo com o Dantas, numa nítida esperança de não perder tudo o que havia conquistado. E aquele corpo poderia conquistar tudo o que quisesse.
— Achei que sua irmã viria para cá, ao menos avisou que dormiria aqui? — Foi nessa frase que eu entendi a intensão dela naquela noite. Eu não havia dito que dormiria ali, e por mais que fosse tarde, numa situação normal eu pegaria meu carro e voltaria para casa.
— Deixei um bilhete. —Menti, provavelmente Isa me mataria na manhã seguinte.
— Esse é o garoto que você me falou? — Perguntou Dantas, levando até a boca uma colherada de sopa de aveia. — É, acho que seu plano vai funcionar.
— Vão me dizer o que pretendem fazer com minha imagem ou manter o segredo entre vocês? —disse num tom passivo agressivo.
— Aparentemente eu não tenho os direitos de minhas próprias músicas. Elas estão no nome de um cara chamado Patricio Patty. —Respirou fundo ao dizer o nome. —Que nome ridículo! É um autor fantasma, que o Mark criou para roubar de mim!
— E ele fez isso tão bem que nem eu nem meu irmão notamos isso quando você assinou com a gravadora.
— Ele fez isso com o objetivo de...
— De ganhar mais de dinheiro me fazendo comprar minhas músicas de volta. —Bebeu o vinho de sua taça, passou a língua pelos lábios e me encarou, eu tive que me controlar para não perceberem que eu estava e******o, por sorte sabia atuar muito bem. — Você vai ser o meu Patricio Patty. Vai lanças minhas músicas, e é claro que vai ter uma porcentagem de lucro, eu só quero meus direitos em minhas mãos.
— E de um rosto e corpo que chame atenção de cima do palco. — Disse Vivian, que levou as mãos a boca em seguida, ela sim estava bêbada. —Drinks de pessego.
Eduardo estava quase dormindo em cima da mesa, Amelia teve que convencê-lo a levantar, se trocar e ditar na cama.
— Podemos assinar o contrato? — Dantas disse se levantando e indo até a ancada de bebidas, de onde tirou um envelope de dentro da gaveta e trouxe a mesa juntamente com uma garrafa de gim e quatro copos. —Assine, garoto, e seja bem-vindo a esse mundo sujo que vai mudar sua vida.
Assinei o papel com as mãos tremendo, brindamos, Amelia me encarava a cada segundo, esperando que eu lhe fizesse o tal convite. Me levantei, batendo as mãos na mesa, agora era o momento em que a atuação começaria.
— Esqueci meu maço no carro. Não consigo dormir sem fumar.
— Que marca você fuma? — Perguntou Dantas, tirando seu maço do bolso da camisa de botões. Era Camel cravejado. Olhei para sua mão estendida, desacreditado com aquela coincidência.
— Eu fecho meus próprios cigarros, não fumo cigarros feitos.
Dantas deu de ombros, levou um cigarro a boca e o acendeu também se levantando da mesa. Pela visão periférica, pude ver que Vivian franziu a testa, não disse nada, seguiu a irmã com os olhos e depois olhou para mim.
— Bem, também vou me retirar. Boa noite, Carter. — Beijou minha face e seguiu na direção dos quartos.